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Bruno Garschagen

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Bruno Garschagen

Uma nação de galinhas pintadinhas

Seguimos a vida delegando aquilo que nos compete com a mesma tranquilidade com que cultivamos a certeza absoluta de que a responsabilidade, afinal, não é mesmo nossa

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Salvo o período do Império Brasileiro, talvez esta seja a época mais extraordinária para viver no Brasil. Sério. No futuro, os acontecimentos de hoje parecerão tão impressionantes quanto falsos. A memória será traída a todo momento. O que foi, de fato, imaginação ou realidade? Meus préstimos aos historiadores do futuro, que terão um trabalho gigantesco e insalubre.

Não era disso, porém, que eu gostaria de falar – embora em parte seja, mas nem tanto. Refiro-me à nossa imensa capacidade de terceirizar responsabilidades e à nossa providencial incapacidade de assumir deveres. Este é um tema regular aqui da coluna, eu sei. O problema é que o nosso drama parece não merecer a devida atenção. E assim seguimos a vida delegando, a todo momento, aquilo que nos compete com a mesma tranquilidade com que cultivamos a certeza absoluta de que a responsabilidade, afinal, não é mesmo nossa. A sociologia há de ter alguma explicação equivocada para isso.

Exemplos? Pais que estão certos de que a educação dos seus filhos cabe às babás, aos professores, aos avós das crianças, aos tablets, à Galinha Pintadinha. Pais que estão certos de que os desvios dos filhos são o resultado da má influência dos amigos, mesmo quando o filho é a má influência. Pais que culpam os professores pelo baixo desempenho das crianças e adolescentes na escola. A lista é longa e a vida é breve.

Como respeitar um conjunto de valores expressos na tradição se ambos estão em constante processo de mudança?

Uma das possíveis origens do problema é o nosso contrato social, que, ao contrário de toda a teoria e prática política do Ocidente, é de tempos em tempos revogado e substituído – a exemplo da nossa Constituição Federal. Já estamos na sétima, aliás, algo impressionante se considerarmos a incrível habilidade do legislador de turno de constranger a geração anterior pela, digamos, qualidade no labor.

Ainda mais extraordinário é o fato de que, passadas sete constituições, parece que desaprendemos o que deve ser feito. A Constituição de 1824, a primeira do país, continua sendo, substantivamente, a melhor que tivemos.

Como, então, respeitar um conjunto de valores expressos na tradição se ambos estão em constante processo de mudança? No Brasil, tradição resume-se a samba e futebol. E a história, para o brasileiro médio, ao cardápio do almoço de ontem. O ovo frito é mais relevante que Bernardo Pereira de Vasconcellos.

Há, de fato, uma relação intrínseca entre o grau de responsabilidade dos homens na sociedade e os valores, princípios e virtudes que orientam a vida em comunidade. Quanto menor o sentido de dever do indivíduo na comunidade, mais baixo será o comprometimento com o ambiente social e natural que o cerca.

Se as pessoas não têm um senso comum baseado na responsabilidade e no dever e, pior, não confiam umas nas outras, tudo fica comprometido nas esferas social, política e econômica. Se ninguém confia em ninguém, por que, então, respeitar as regras formais e informais que (ainda) orientam a vida em sociedade? Quebrar a regra, portanto, se torna a norma.

Como tenho repetido aqui, ancorando a minha observação naquilo que disse o filósofo político Michael Oakeshott no seu ensaio Rationalism in Politics (“Racionalismo na política”), o nosso problema não é meramente político ou econômico. Não é, portanto, uma questão técnica a ser exclusivamente superada. Temos assuntos morais, sociais e espirituais sérios para resolver. Ou enfrentamos logo esse dilema complexo ou nos tornaremos uma nação de galinhas pintadinhas.

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