Lula tem, como seus melhores amigos, empresários, ruralistas e empreiteiros. Desenvolveu essa relação ainda antes de ocupar a Presidência da República, e a consolidou durante o mandato. A despeito de suas origens e discursos, suas amizades de hoje não são com os movimentos populares, e sim com a elite que cultiva relações nada republicanas entre o público e privado.

Suas palestras são bem remuneradas, mas não apenas pela sua retórica – certamente uma das melhores da política brasileira –, e sim porque suas palestras valem também a amizade com o influente ex-presidente, com as vantagens que isso pode propiciar. Lula não é o único a se valer dessa prerrogativa.

O prestígio de um ex-presidente tem valor inestimável. Personalidades como Bill Clinton, Mikhail Gorbachev, Nelson Mandela e Fernando Henrique Cardoso, entre outras, promoveram-se em torno de institutos e fundações que levam seus nomes, sempre com o apoio de grandes empresas.

É preciso romper com as relações antirrepublicanas que decorrem da confusão entre o público e o privado

O próprio juiz federal Sergio Moro não evita aliar seu prestígio a grupos empresariais: é figura sempre presente nas reuniões do Lide, uma marca empresarial do pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PSDB João Dória Jr, que alega reunir mais da metade do PIB brasileiro.

Aliado a um grupo empresarial liderado por um político do PSDB, Moro renuncia à discrição que o cargo exige. Coloca-se em dúvida duplamente: ao promover o prestígio de um político da oposição e ao permitir a vinculação de seu nome a empresários. Não sei se cobra por palestras, mas acredito que hoje seria um dos mais cotados nesse “mercado”.

Não seria essa confusão entre empresários e políticos a própria estrutura da corrupção brasileira? Ainda que não existam vantagens imediatas, a associação do prestígio de um político ou um juiz – representantes da coisa pública – com entidades empresariais sempre deve ser suspeita.

Admiro alguns resultados proporcionados por julgamentos como o mensalão e a Lava Jato. Percebo que, nesses casos, procura-se julgar o mandante, e não apenas as peças de baixo escalão. Inverteu-se a lógica comum na perseguição à corrupção, em que o topo da hierarquia do esquema experimentava a impunidade. Além disso, esses casos mostraram as relações promíscuas entre empresas e políticos, que são a raiz da corrupção, motivando a proibição do envolvimento empresarial com a política.

Certamente, os julgamentos não foram perfeitos, e suas falhas emergiram justamente nas oportunidades em que as limitações dos julgadores não lhes permitiam julgar devidamente os réus, ou seja, quando lhes faltou a devida isenção.

Para isso, é preciso romper com as relações antirrepublicanas que decorrem da confusão entre o público e o privado. Combater a corrupção é, essencialmente, isso.

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