"Somos um povo decente governado por ladrões!" Essa manchete foi repetida algumas vezes por um jornal do Rio, no tumultuado ano de 1954, que teve seu clímax em 24 de agosto, dia em que um presidente da República que não era ladrão se matou.

Alunas de um curso de Comunicação me perguntaram por que a imprensa não impede a onda de corrupção oficial que as assusta, uma delas estava tratando os papéis para ir embora definitivamente, enojada da vida nacional.

Como sempre, respondi que era a pessoa menos indicada para responder a qualquer pergunta sobre política e moral, apenas que, na faixa etária em que elas estavam, eu também pensara em dar o fora, mas por outros motivos. Anos mais tarde, peguei meus trapinhos e fui parar em Havana, não aguentando a citada "vida nacional".

Mesmo assim, lembrei que a corrupção, aqui e em qualquer lugar, nasceu lá atrás, quando o Criador mandou que todos, homem e mulher inclusive, crescessem e se multiplicassem. Esta multiplicação deu no que deu. Arrependido, o Criador não deu uma entrevista exclusiva para a Veja. Foi bem mais radical e eficiente: abriu as cataratas do céu e inundou a Terra, só salvando um justo e os animais, um de cada espécie.

Não adiantou. As filhas de Noé embebedaram o pai e deste incesto nascemos todos. Em tempos mais românticos, quando todos andavam em bondinhos puxados por burros, um cidadão ergueu a voz e começou a citar as bandalheiras da vida nacional da época. Suando de indignação, depois de lembrar casos de nepotismo, fraude eleitoral, compras superfaturadas do governo e rombos no orçamento federal, levantou-se do banco e perguntou a todos: "Afinal, senhores, onde estamos?" O poeta e historiador Luiz Edmundo, lá atrás, respondeu: "No bonde!"

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