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"Quem está aí?" Nenhuma voz, apenas os sons da cidade ruidosa.

"Quem está aíííí? Responda!" Nada. Só pneus cantando no semáforo e motocicletas querendo atenção às 3 da manhã. Música urbana para Renato Russo.

"Devo estar imaginando coisas."

Depois do resmungo vem a insônia. Abre o computador, zapeia pelo Facebook, dá uma espiadinha na página daquela fulana que, soube por fonte quentíssima, está saindo com sicrano, aquele gatinho. Vê fotos, rol de amigos, curtições, tenta ver mensagens, mas há bloqueio. Hummm, nenhum fiapo de informação que diga sim ou não. Ah, eu com isso, ele nunca me deu bola mesmo! Vai ver tá carente, tadinho. Olha para o lado e percebe que o colchão afunda no lugar onde o marido dorme de lado; até o desenho da barriga fica marcado. Ô porquera esse colchão que a vendedora disse que é usado pela Nasa, astronauta, sei lá. Vai ver eles não bebem cerveja e não ficam barrigudos, deixando marcas de suor que parecem o Santo Sudário. Ah, se aquelas marcas forem de Jesus, ele era bonitão, atlético. De novo volta a atenção para o corpo roliço do marido e se enternece, pensando num urso em hibernação.

A mente hiperativa não se aquieta e, para vencer o burburinho de pensamentos, começa a falar alto, listando as tarefas para o dia que se aproxima: remédio para o reumatismo da cachorra, 7 da matina; espremer limão numa canequinha esmaltada para combater a azia; café forte para o marido; segundafeira às 9 é preciso estar a postos para mais uma jornada no trabalho. Vixe, marquei o cabeleireiro 6 e meia, mas hoje haverá reunião na empresa. A chefe convoca e sabe lá a hora de acabar. Será que vai dar tempo? O marido se mexe na cama, parece que vai acordar, se vira para o lado e volta a fungar e roncar de modo descompassado, como se tivesse dificuldade para respirar.

"Ele era bonito ou eu o via belo quando namoramos?" As palavras escapam da boca e se assusta com a ideia de que o marido está envelhecendo. Quando se conheceram e descobriram que faziam aniversário no mesmo dia – 8 de março –, acharam o máximo e logo estavam namorando. Ele dizia que no dia 8 celebrava o dia internacional da mulher, dele. Engraçado, nos últimos anos a festa foi meio murcha. Parece que há aniversário demais. Taí data que deveria passar mais devagar, para não dar tédio.

O pensamento vagueia, se lembra da avó cheia de netos e ouve a voz da mãe reclamando a chegada de um netinho. Como ter filho se vivo para trabalhar?! O marido queria filhos, mas já desistiu. Achou mais fácil cuidar de cachorro. Gatos nem pensar. Ele tem alergia ao pelo dos bichanos. Barulho lá fora.

"Quem está aí?" Escuta a cadela se coçando. Fecha o computador e, na escuridão, rememora as imagens da festa do aniversário na sexta passada, quando o marido cantou no karao­kê o samba do Martinho da Vila que fala da moça bonita, faceira, de anquinhas maneiras, e depois a outra música que fala que procurou em todas as mulheres a felicidade, mas que nenhuma o fez tão feliz quanto ela faz. Ri sozinha, boceja, escorrega para baixo do cobertor, abraça o marido e dorme o sono de mulher.

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