| Ilustração: Felipe Lima
| Foto: Ilustração: Felipe Lima

Dia desses vi na internet um vídeo semiprofissional feito por brasileiros que, no estrangeiro, entrevistam pessoas na rua para obter impressões sobre o Brasil. O resultado é óbvio, na medida em que Pelé é identificado pelos velhos e Neymar, pelos jovens; idem para Garota de Ipanema e Ai se eu te pego. Ante fotos do Tiririca vestido de palhaço e de deputado, um irlandês se saiu com a afirmação de que os políticos são palhaços. Todas as pessoas no mundo têm má imagem dos políticos e não compreendem a política. Por quê?

Nesse ínterim, comecei a ler Origens da Ordem Política, de Francis Fukuyama, e mais indagações invadiram meu pensamento. Nada tão claro quanto as interrogações do Fukuyama, mas que me levaram a desacelerar a leitura para glosar página por página, fazendo anotações que permitissem retorno direto ao núcleo das idéias do autor. Claro, ao mesmo tempo estou lendo Ação Humana, de Ludwig von Mises, e Por que as Nações Fracassam, de Daron Acemoglu e James Robinson, faltando ainda umas 100 páginas de Os Anjos Bons da Nossa Natureza, de Steven Pinker.

A teoria da política tem as ruas como laboratório e as manifestações na Ucrânia contra a decisão do presidente de se aproximar da Rússia e se distanciar da Europa são interessantes para examinar a legitimidade, condição para que as pessoas aceitem a autoridade do governo. Paradoxalmente, o atual presidente é o mesmo que foi barrado pela "Revolução Laranja" em 2004, porque se imputava a ele vitória fraudulenta na eleição. Ilegítimo, se legitimou e está se deslegitimando. Os fatos políticos são complexos a ponto de ser impossível fazer predições melhores que as de cigana sobre eventos futuros.

Fukuyama observa que as instituições políticas demoram a ser construídas e têm dificuldade de se ajustar às alterações das circunstâncias. Sistemas rígidos tendem à ruptura violenta; significa dizer que nas democracias, mesmo nas de baixa qualidade, o fim de um ciclo político pode ocorrer sem matança; quando muito há escoriações e correrias nas praças. Egito e Ucrânia exemplificam bem essa situação.

Contudo, a adaptabilidade não deve ser vista pela perspectiva da teoria de Darwin porque a adaptação cultural é muito mais complexa que a biológica. Se a política fosse tão simples quanto a biologia, todos os sistemas políticos ter-se-iam afeiçoado ao quesito da adaptação às mutações de contexto. Basta olhar em volta para perceber que há erros levados às últimas consequências (Venezuela), nascimento de novas ditaduras (como na Rússia), perda de qualidade nos princípios informadores, como nos Estados Unidos que incorporaram o Big Brother de Orwell.

A ojeriza à política aparece nos novos camicie nere (camisas negras), fascistas que se apresentam como anarquistas, e na frase espirituosa do irlandês sobre os palhaços. Teóricos como Hardt e Negri imaginam que a política desaparecerá e a vida será gerida pela multidão em rede. Outros sonham com governo angelical, vindo do céu, não da política. Todavia, o zoon politikon é inarredável da natureza humana.

A riqueza e a pobreza dos povos têm elo direto com a política. Para nós, mais pobres de espírito que de matéria, dar atenção à política é premissa para o desenvolvimento.

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