Veículos em pátio
Veículos em pátio de montadora.| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

O sistema econômico é estruturado com base em uma lógica interna que deve ser compreendida para que sociedade e governo façam as melhores escolhas e implementem as melhores políticas destinadas ao progresso material e ao desenvolvimento social. De um lado está a oferta agregada, que é a soma dos bens e serviços de consumo mais os bens de capital produzidos. O Produto Interno Bruto (PIB) é uma espécie de bolo com duas grandes fatias: uma é composta dos bens e serviços que a nação consome, e a outra fatia são os bens de capital destinados a aumentar o capital físico. Do outro lado está a demanda agregada, que é a soma do consumo das pessoas, consumo do governo, investimentos das empresas, investimentos do governo, exportações menos importações.

O PIB produzido anualmente é ofertado no mercado e se destina a atender à demanda agregada, e o tamanho do PIB tem relação direta com o valor total da demanda agregada manifestada pelos agentes econômicos no mercado. A produção total – aqui apresentada no conceito de PIB – é feita com os fatores de produção: trabalho, capital, recursos naturais e iniciativa empresarial. O número de trabalhadores necessários resulta do tamanho da produção do país; logo, se há desemprego, significa que, se dependesse da força de trabalho disponível, o PIB poderia ser bem maior.  De outro lado, somente o crescimento do PIB é capaz de gerar empregos e utilizar toda a mão de obra disponível.

O desenvolvimento econômico de um país deve resultar do casamento de forte inserção internacional com um grande mercado interno para os bens e serviços que produz

O IBGE fez revisão estatística com data-base de 30 de junho de 2019 e informou que os 5.570 municípios brasileiros têm 210,1 milhões de habitantes, dos quais 106,1 milhões compõem a população economicamente ativa (aquela em condições de trabalhar); ou seja, a população segue crescendo. A taxa de desemprego caiu de 12,5% para 11,8%, o que é uma boa notícia, mas ainda é alta e preocupante, pois são 12,5 milhões de desempregados. Essa gigantesca força de trabalho desocupada é um fator de produção não utilizado pelo sistema produtivo na elaboração do PIB e é um contingente da população sem poder de consumo. Aí entra um círculo vicioso: os desempregados não têm renda para consumir; se o consumo não cresce, a produção de bens e serviços de consumo não reage... e, se o crescimento do PIB não volta, a geração de empregos é prejudicada.

Nesse cenário, a importância do mercado internacional para a demanda de produto brasileiro é grande e, com as notícias de que as maiores economias do mundo podem entrar em recessão, a possibilidade de o Brasil expandir seu produto pela via das vendas ao exterior fica reduzida substancialmente, até porque os grandes acordos comerciais assinados pelo Brasil e pelo Mercosul ainda exigem um longo trâmite burocrático para entrar em vigor. Nos momentos de crise de demanda internacional, o mercado interno é que deve assumir o papel de manter a demanda elevada e em crescimento, de forma a estimular o aumento do PIB e, por consequência, a geração de empregos. Para tanto, desempenham papel essencial, em termos de estímulo à atividade econômica, os investimentos do governo e o consumo das pessoas. É aqui que o Brasil apresenta dois gargalos problemáticos e de difícil solução.

Os investimentos do governo estão achatados e muito baixos como porcentual do PIB, sobretudo para um governo que retira 35% da renda nacional em forma de tributos efetivamente arrecadados. O problema está nos déficits crônicos dos municípios, dos estados e da União, e o elevado valor da dívida pública bruta, já na casa dos 80% do PIB; logo, no curto prazo não se pode esperar a reativação da demanda pelo lado dos investimentos públicos. Quanto ao consumo das pessoas, como já foi dito, os 12,5 milhões de desempregados prejudicam a expansão da demanda, porquanto, sem emprego e sem renda, esse contingente da população não tem poder de compra.

As nações desenvolvidas que têm baixo desemprego, renda por habitante elevada e um robusto mercado interno podem, por serem exportadoras, até sofrer com o desaquecimento da demanda internacional, mas o impacto sobre a economia interna é amenizado em razão do tamanho de seu mercado interno e, por isso, conseguem sustentar elevado nível de atividade e produção. Assim, o desenvolvimento econômico de um país deve resultar do casamento de forte inserção no comércio internacional com um grande mercado interno para os bens e serviços produzidos em seu próprio território. Para tanto, outro fator também é decisivo: o grau de conhecimento tecnológico incorporado em seu sistema produtivo.

O grau de conhecimento tecnológico dominado por um povo é ligado diretamente ao sistema educacional, sobretudo a educação de base, sem a qual a qualificação profissional, o desenvolvimento intelectual e o nível cultural acabam sofrendo e deixando a desejar. Nos últimos tempos, o mundo vem aprendendo que cada vez mais o crescimento econômico, o desenvolvimento social e a criação de um robusto mercado interno dependem de uma rede que abarca no mínimo a economia, a educação, a cultura, a tecnologia, a justiça, a política, a moral e as leis. O desafio nacional está posto. É tarefa para muitos anos, quando não décadas.

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