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A pobreza diminui, a miséria continua
| Foto: Markus Biehal/Free Images

Uma sociedade pode ser avaliada com base em médias, sobretudo em termos de desempenho ao longo de um dado número de anos ou décadas. Na economia, há indicadores como produto médio por habitante (que é a mesma coisa que renda per capita), renda salarial média dos trabalhadores, lucratividade média das empresas, taxa média da população atendida pelo sistema de saúde, número médio de anos de escolaridade das crianças, consumo médio de calorias diárias por pessoa, etc. Na área social, taxa média de mortalidade infantil, expectativa média de vida, média regional de domicílios atendidos com água tratada e esgoto sanitário, média de habitações dignas para cada mil habitantes etc. Esses e outros tantos índices são usados para medir o crescimento econômico, as condições sociais e o nível de desenvolvimento do país.

O problema das médias é que elas escondem as tragédias que há por trás dos extremos, tragédias que somente podem ser compreendidas em sua dimensão e gravidade quando se analisa a situação e se examinam os dados em seus detalhes e com metodologia científica válida. Esse tipo de situação vem acontecendo no atual momento da sociedade brasileira e, por divulgação insuficiente e pela falta de compreensão por grande parte da população, a extensão de certas tragédias não é conhecida ou não causa mais indignação. Recentes estudos com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo IBGE para produzir continuamente informações sobre mercado de trabalho, associadas a características demográficas e educacionais, usando parâmetros dados pelo Banco Mundial, mostram que a lenta recuperação da economia gerou modesta redução da pobreza média do Brasil, mas as taxas de miséria continuam.

O desemprego e a pobreza extrema constituem as duas maiores tragédias socioeconômicas do Brasil

Durante quatro anos seguidos, de 2014 a 2017, sobretudo em função da grave recessão de 2015-2016, a chamada pobreza extrema (quando está próxima da fome) cresceu, atingiu níveis alarmantes e constitui um gravíssimo problema social. Embora tenha havia melhora nos números relativos em 2018, com redução da pobreza, a miséria prossegue e não dá sinais de redução. Segundo estudos compilados pela LCA Consultoria, com base na Pnad Contínua, 8,3 milhões de brasileiros tornaram-se pobres de 2015 a 2017, e isso fez o país chegar a 54,1 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza no início de 2018 – "linha de pobreza" é a expressão usada para descrever o valor de renda abaixo da qual uma pessoa não dispõe de condições para obter os recursos necessários para viver.

Ao fim de 2018, o número de pobres caiu para 52,8 milhões – portanto, com 1,3 milhão de pessoas que melhoraram sua condição de vida –, mas o número total de pobres ainda é trágico. Os parâmetros usados para compilação dos dados são aqueles utilizados pelo Banco Mundial, que considera a pobreza quando a renda por pessoa é de até US$ 5,50 por dia (o equivalente a R$ 421 por mês). Para a pobreza extrema, ou miséria, a linha de corte é a renda de US$ 1,90 por dia (ou R$ 145 mensais). A miséria atingia 13,6 milhões de pessoas em 2018, o que equivalia a 6,5% da população total. O desemprego e a pobreza extrema constituem as duas maiores tragédias socioeconômicas do Brasil e é importante que esses dados sejam publicados, debatidos e repetidos, como meio de aumentar a indignação social a fim de que a sociedade brasileira estabeleça como objetivo enfrentar com seriedade esse flagelo social.

É preciso falar disso, insistir no assunto e provocar o debate tanto quanto possível, principalmente porque aquele que é o maior responsável por resolver o problema – o setor estatal – vem agravando a concentração de renda em razão de sua própria existência e seus gastos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) há tempo vem gerando estudos demonstrando que, apesar dos programas sociais, o setor estatal brasileiro consolidado (municípios, estados, União e empresas estatais) tem sido um agente concentrador de renda. Mesmo assim, determinados segmentos das corporações estatais e determinadas categorias de trabalhadores nos três poderes não demonstram o menor constrangimento em exigir e conceder a si mesmos salários, vantagens, benefícios e mordomias. Ressalvadas as exceções de praxe, a pobreza, a miséria e a indignação da população parecem não sensibilizar boa parte dos políticos e das corporações estatais para a injustiça social que tal quadro representa.

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