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editorial

Ameaça nuclear

  • 05/04/2013 21:02

Ainda que o ditador norte-coreano e seus generais saibam perfeitamente que as chances de vencer uma guerra contra os Estados Unidos são nulas, eles podem muito bem sacrificar milhões de seus compatriotas em nome de uma loucura

Já há muito tempo se sabe que o regime comunista da Coreia do Norte é adepto das bravatas, especialmente depois de ter, de fato, dominado a tecnologia para a construção de armas nucleares. Mas nunca, no passado recente, as ameaças foram tão intensas. A ditadura de Kim Jong-un declarou nulo o armistício de 1953, que interrompeu a Guerra da Coreia; cortou as comunicações telefônicas militares com a Coreia do Sul; na quarta-feira, o exército norte-coreano anunciou ter recebido o sinal verde para um ataque nuclear contra os Estados Unidos, que até já teriam sido avisados de que o fogo do céu viria nos próximos dias. E, agora, os representantes diplomáticos estrangeiros em Pyongyang receberam a sugestão de empacotar suas coisas e buscar algum lugar mais seguro.

Há décadas a Coreia do Norte acena com a retomada ou a intensificação de seu programa nuclear como forma de chantagear o mundo a abastecer o país, onde a fome é generalizada e meio século de regime comunista conseguiu destruir completamente qualquer possibilidade de subsistência para seus cidadãos. A cada bravata da dinastia Kim seguiam-se concessões das potências ocidentais. Agora, aproveitando que a presidente sul-coreana, Park Geun-hye, assumiu o cargo recentemente, o governo de Pyongyang percebe uma nova oportunidade para provocações.

Outro componente essencial na crise coreana é o vitimismo motivado pelas sanções impostas pela Organização das Nações Unidas no início de março, após testes nucleares norte-coreanos. A mística do "todos contra nós" é tradicional em regimes de esquerda, da Coreia do Norte à Venezuela, e só serve de pretexto para que ditadores amealhem ainda mais poder e justifiquem suas loucuras em nome de uma suposta "salvação nacional".

O que se passa na cabeça dos generais norte-coreanos e de Kim Jong-un é um mistério. Impossível saber se o fanatismo ideológico os cegou completamente ou se eles têm a consciência de que um ataque equivaleria a suicídio – afinal, é mais que evidente que a Coreia do Norte até conseguiria causar um estrago inicial, mas, sozinha, não teria a menor chance contra a máquina de guerra norte-americana. O assustador é que, ainda que eles saibam perfeitamente das perspectivas que os aguardam, podem muito bem sacrificar milhões de seus compatriotas em nome de uma loucura. Soviéticos, chineses e cambojanos aprenderam da pior forma que o povo é descartável quando se trata de fazer avançar o ideal comunista.

Outra grande incógnita é a posição que a China, tradicional aliado dos norte-coreanos, tomaria no caso de um conflito iniciado por Pyongyang. O governo chinês, que chegou até a apoiar as sanções da ONU contra a Coreia do Norte, no momento tenta esfriar os ânimos com esforços diplomáticos, mas o tratado de defesa mútua entre as duas ditaduras é, na verdade, a única esperança dos norte-coreanos caso eles realmente estejam dispostos a atacar. A entrada da China em um conflito mudaria radicalmente a distribuição de forças na península coreana, mas as consequências de um embate entre duas superportências seriam catastróficas.

Quanto a Estados Unidos e Coreia do Sul, só lhes resta esperar e monitorar as movimentações dos norte-coreanos. Enquanto Pyongyang seguir latindo, as melhores respostas são a serenidade e a tentativa de retomar os contatos diplomáticos, o que não descarta os preparativos para o caso de um ataque. E, se os norte-coreanos realmente estiverem falando sério e dispararem o primeiro tiro, que americanos e sul-coreanos tenham em mente a necessidade de neutralizar o governo adversário causando o mínimo dano à população norte-coreana, que não tem culpa pela insanidade de seus líderes.

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