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| Foto: Divulgação/FCA

Previsões de crescimento do Produto Interno Bruto têm sido um exercício difícil no Brasil dos últimos anos. O ministro Guido Mantega, que chefiou a pasta da Fazenda durante parte dos governos Lula e Dilma, chegou a ser ridicularizado nas páginas da revista britânica The Economist por suas previsões exageradas, totalmente fora da realidade. Mas mesmo recentemente o trabalho de estimar o avanço brasileiro em determinado ano tem sido um desafio. No início de 2019, o ânimo com a chegada de um governo reformista levou as previsões do mercado financeiro, recolhidas pelo Banco Central no boletim Focus, a girar em torno de 2,5%. O próprio BC, no Relatório de Inflação de dezembro de 2018, também projetava crescimento de 2,4% no ano. O resultado real, a ser divulgado em março, deve ficar abaixo da metade daquelas primeiras previsões, que foram ajustadas ao longo do ano.

Agora, o governo federal elevou sua previsão para o PIB de 2020. O relatório Panorama Macroeconômico, divulgado no dia 14 pela Secretaria de Política Econômica, estima que o Brasil crescerá 2,4% neste ano, contra 2,32% da estimativa anterior. Considerando que 2019 começou com previsões semelhantes, e terminará com um desempenho bem menor, a pergunta imediata é: o país realmente tem como crescer acima dos 2% neste ano? Os fundamentos para as estimativas atuais têm como se sustentar ao longo do ano?

O país tem como crescer acima dos 2% neste ano, mas precisa atrair investimentos e seguir adiante com as reformas

A não ser que ocorra algum grande evento externo e imprevisível – de caráter financeiro, diplomático ou militar – que tenha consequências de alcance mundial, passar dos 2% dependerá basicamente da conjuntura interna. Há uma série de sinais positivos; a inflação deste ano deve permanecer abaixo do centro da meta do Banco Central, apesar do salto de dezembro do ano passado, considerado um ponto fora da curva. Com os preços sob controle, os juros também deverão ficar nos patamares atuais, os mais baixos desde que o Brasil adotou o regime de metas de inflação, há pouco mais de 20 anos. Com isso, há um estímulo adicional para investimentos, que também virão se o governo conseguir realizar seu programa de privatizações e concessões como previsto, inclusive com a venda da Eletrobrás. Uma mudança nas regras de exploração do pré-sal, com o possível abandono do sistema de partilha, também pode reverter a frustração do megaleilão do fim de 2019, voltando a atrair o interesse internacional.

Mais investimentos podem contribuir para que a trajetória do emprego possa se fortalecer, atenuando a pior das “heranças malditas” da política econômica lulopetista. Em 2019, o Brasil gerou centenas de milhares de vagas com carteira assinada – no acumulado do ano até novembro, foram quase 950 mil novos postos de trabalho, mas dezembro, cujos dados ainda não foram divulgados, tradicionalmente registra mais demissões que contratações. O relatório do Ministério da Economia estima que a população ocupada deverá crescer 2,13% em 2020, com aumento também no rendimento médio e na massa salarial. Para que esse resultado seja atingido, será fundamental o desempenho da indústria, que sofreu em 2019, quando a produção industrial ficou estagnada. Para este ano, o governo prevê uma retomada forte, com crescimento de 2,28%.

Por fim, a continuação da pauta de reformas é essencial para estimular o crescimento em duas frentes. As medidas microeconômicas livrarão o setor produtivo da burocracia e da hiper-regulamentação, retirando obstáculos para que o empreendedor possa desenvolver completamente o potencial de sua equipe. Quanto às reformas macroeconômicas, a tributária tem mais chances de sucesso – o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que ela será aprovada ainda no primeiro semestre. A reforma administrativa e partes das PECs do Programa Mais Brasil devem enfrentar mais dificuldades, pois afetarão interesses do funcionalismo, e os parlamentares interessados em disputar prefeituras em outubro tenderão a não comprar brigas com os servidores. Mesmo assim, são necessárias. Ainda que não tenham impacto direto sobre a atividade econômica, elas ajudam a construir confiança sobre a saúde fiscal de longo prazo do país, que precisa reverter a trajetória de déficits primários e a proporção crescente entre endividamento e PIB.

Há condições, portanto, para que as previsões para 2020 não tenham o mesmo destino daquelas projeções feitas no início do ano passado e que acabaram frustradas. Mas também há riscos, especialmente graças ao período eleitoral – o Legislativo nunca pensa duas vezes antes de se conceder “recessos brancos” que paralisam a tramitação dos projetos de lei e PECs, e o Executivo tem de resistir à tentação de lançar medidas populistas, avessas ao espírito do ajuste fiscal, para ajudar candidatos alinhados ao Planalto. O desafio está em proporcionar um crescimento robusto para 2020, mas também em assegurar as condições para o Brasil continuar avançando de forma sustentável, deixando para trás a época dos “voos de galinha”.

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