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Cidade de Araraquara (SP) durante o lockdown decretado pela prefeitura em fevereiro de 2021.
Cidade de Araraquara (SP) durante o lockdown decretado pela prefeitura em fevereiro de 2021.| Foto: Prefeitura de Araraquara/Divulgação

As novas rodadas de restrições mais severas à atividade econômica e ao direito de ir e vir em diversos estados brasileiros, diante de uma iminente catástrofe na rede hospitalar causada pelo aumento de casos de Covid-19, têm um certo ar de déjà-vu, pois evocam a primeira reação das autoridades quase um ano atrás, quando surgiu a pandemia. No entanto, a situação do momento é ainda pior: o número de mortes registradas diariamente bate recordes e hospitais de diversos estados estão perto do colapso, com UTIs lotadas ou perto da lotação máxima. É um cenário que exige pronta resposta das autoridades, que mais uma vez se veem diante de decisões difíceis a tomar; decisões que, por maior que seja o conhecimento acumulado em um ano de pandemia, ainda estão marcadas pela incerteza e, infelizmente, pelo improviso.

De imediato, o aspecto mais evidente da atual crise sanitária é o seu efeito sobre os hospitais, com as UTIs em colapso. No entanto, uma catástrofe como esta não se constrói da noite para o dia, e por isso salta aos olhos o fato de vários estados ainda não terem instalada toda a capacidade máxima possível de leitos quando a situação se agravou; essa preparação já deveria ter ocorrido tempos atrás, pois havia sinais de que a pandemia retornaria com força, como o aumento do número de casos – não apenas no Brasil, mas também em outros países – e o aparecimento de novas variantes do coronavírus, como a surgida em Manaus. Há um ano, quando a primeira onda da pandemia chegou ao Brasil, foram instalados hospitais de campanha e novos leitos, muitos dos quais acabaram desativados nos últimos meses. Reativar toda essa estrutura era algo que já deveria ter sido feito quando a curva de contágio voltou a subir, mas o que se percebe agora é que nada ou muito pouco foi feito de forma a prevenir o colapso, com cidades e estados correndo para responder ao caos que já se estabeleceu.

É o improviso, a falta de planejamento e de critérios para fechamentos e reaberturas, de comunicação clara à sociedade sobre os gatilhos que levarão a determinadas restrições, que chama a atenção neste momento

E é evidente que um governo responsável vai se dedicar não apenas a cuidar dos já doentes, mas também de fizer o que estiver ao seu alcance para reduzir ocasiões de contágio. A esta altura, já está claro que há inúmeros irresponsáveis, que patrocinam ocasiões de aglomeração em festas clandestinas e outros tipos de evento, mesmo depois de tudo o que se aprendeu sobre o coronavírus e sua transmissão. Tais situações não se limitaram às festas de fim de ano e ao carnaval; elas continuam a ocorrer, e o poder público tem todo o direito de coibi-las, empregando inteligência policial – já que tais eventos são marcados pelo segredo, muitas vezes com o local sendo divulgado minutos antes do seu início – e aplicando punições severas.

O vírus, no entanto, não distingue entre esses irresponsáveis e aqueles que tomam todos os cuidados para evitar a infecção, o que nos leva às demais medidas restritivas. Desta vez, no entanto, há uma diferença relevante: já se sabe, por exemplo, o efeito sobre os negócios – o fechamento de lojas em 2020 foi o pior desde a recessão de 2016 – e sobre as pessoas, sendo possível prever com maior exatidão o resultado de restrições ao funcionamento dos negócios. Aqui, não se trata de descartar que uma medida tão extrema seja necessária em um cenário de caos sanitário, pois a redução do contato interpessoal é eficaz para se conter a Covid-19. A pergunta aqui é outra: por que, mesmo nessas novas rodadas de decretos restritivos, os empresários foram novamente pegos de surpresa?

É o improviso, a falta de planejamento e de critérios para fechamentos e reaberturas, de comunicação clara à sociedade sobre os gatilhos que levarão a determinadas restrições, que chama a atenção neste momento. Acrescida a tudo isso há, ainda, a impressão de que nem mesmo o conhecimento adquirido sobre o coronavírus nestes 12 meses de pandemia está sendo bem aplicado. É o caso, por exemplo, de locais que as pessoas necessitam continuar frequentando, como supermercados, ou de serviços cujo uso segue necessário, como o transporte coletivo. Ora, se já está mais que evidente a necessidade de dispersar clientes e passageiros, qual é a lógica de impor horários ou frota reduzidos, levando ao aumento do número de pessoas presentes no mesmo local ao mesmo tempo?

Se na primeira onda da Covid-19 as respostas das autoridades em todo o mundo se basearam na tentativa e erro, desta vez deveria ter sido diferente. Previsibilidade, no entanto, é uma palavra que parece estar em falta no vocabulário das autoridades, ainda que elas estejam plenamente convencidas de que as medidas tomadas sejam a única alternativa diante do avanço do coronavírus. E, por maior que seja a calamidade, a reação impulsiva cobra sempre um preço muito alto da sociedade, e que ela não precisaria pagar.

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