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A presença popular nas manifestações contra o governo de Dilma Rousseff surpreendeu as expectativas do Planalto – tanto que, enquanto centenas de milhares de brasileiros ainda estavam nas ruas, Dilma chamou os ministros Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto e José Eduardo Cardozo ao Palácio do Alvorada. Os dois últimos, no começo da noite, fizeram um pequeno pronunciamento e concederam entrevista coletiva em que, nas palavras de Cardozo, manifestavam a posição da própria presidente Dilma.

Cardozo, que comanda a pasta da Justiça, e Rossetto, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, tiveram seus momentos de “policial bom, policial mau”, para usar uma imagem consagrada pelo cinema e pela televisão. Enquanto Cardozo afirmava enfaticamente seu respeito pela opinião manifestada nas ruas no domingo (e pelo panelaço que ocorria simultaneamente à entrevista), e garantia que a imensa maioria dos que estavam nas ruas repudiava os pedidos de golpe feitos por pequenos grupos, Rossetto fez exatamente o contrário: iniciou sua fala adotando justamente o comportamento que havíamos criticado neste mesmo espaço, extrapolando a posição dos extremistas como se ela fosse o coração das passeatas de ontem, e minimizando a insatisfação popular classificando a manifestação como coisa de quem não votou em Dilma.

Rossetto tanto desprezou a mobilização do domingo que, em seu discurso, chegou a deixar subentendido que, para o governo, a mensagem das passeatas de sexta-feira – organizadas por movimentos como a CUT e o MST, tradicionais aliados do governo – era mais importante que a mensagem enviada no domingo por aqueles que se mostram insatisfeitos não apenas com a corrupção, mas, de uma forma geral, com a maneira como o PT vem conduzido o país, com um projeto que muitas vezes não esconde uma dimensão de controle total da vida pública nacional, e suas alianças questionáveis tanto interna quanto externamente. Ao dar mais importância ao movimento de sexta-feira, Rossetto (e, se levarmos em conta as palavras de Cardozo, a própria presidente Dilma) se mostrou completamente desconectado do espírito das ruas.

Cardozo, tanto no seu discurso quanto nas respostas aos jornalistas, enfatizou a necessidade de um diálogo que envolva todos os setores da nação. Se o governo quer efetivamente entender o que revolta o brasileiro, só podemos elogiar a intenção e desejar que não se repita o ocorrido em 2013, após as grandes manifestações de rua do meio do ano. Na ocasião, Dilma recebeu apenas representantes da claque petista, como as entidades estudantis UNE e Ubes, as “Juventudes” do PT, do PDT e outros partidos aliados ou o coletivo Fora do Eixo, além dos já citados CUT e MST. Ora, com interlocutores assim seria impossível que o governo realizasse uma correção de rumos – e tanto não a realizou que o povo voltou à rua. Se Dilma está mesmo interessada em saber o que há de errado, terá de engolir sua conhecida arrogância e ouvir aqueles que a criticam, e não os que a aplaudem.

Apesar de falar em diálogo, os dois ministros aproveitaram a oportunidade para repetir outra das respostas do governo às jornadas de 2013, e falaram da necessidade de colocar em andamento a reforma política. De concreto, citaram especificamente apenas a questão do financiamento de campanhas por pessoas jurídicas, assunto que está no Supremo Tribunal Federal. Mas bem sabemos que a reforma política desejada pelo PT não termina aí, e inclui itens altamente criticáveis, como o financiamento exclusivamente público de campanhas e o voto fechado em listas partidárias, tirando do eleitor o direito de escolher o candidato que deseja ver no Legislativo. O governo estaria disposto a dialogar também sobre esses pontos?

Neste domingo, centenas de milhares de cidadãos foram às ruas de forma totalmente pacífica para demonstrar seu descontentamento com o governo, em uma lição de civismo que nem mesmo as poucas e condenáveis exceções extremistas ou golpistas conseguiram manchar. Cardozo afirmou, na entrevista coletiva, que “ninguém quer crise econômica e ninguém quer crise política”, e é verdade. Mas o futuro também depende da resposta que o governo dará ao claro recado enviado pelas ruas: teremos mais do mesmo ou um inédito canal de diálogo sincero?

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