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Editorial

Reformar ou naufragar

Nos países latino-americanos, o capitalismo liberal jamais foi implantado, as liberdades econômicas sempre foram solapadas e os governos se tornaram gigantes gastadores

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Um sistema econômico, para ser viável, depende de suas realizações e suas consequências, mas não só isso: depende também de convencer a população de que, apesar de seus defeitos, é melhor que qualquer outro sistema que possa ser posto em seu lugar. As crenças e os votos da sociedade são influenciados diretamente pelo processo de comunicação, compreensão e percepções. Na América Latina há um embate propagandístico, uma espécie de guerra da comunicação, entre os defensores do socialismo (ditos “de esquerda”) e os defensores do capitalismo liberal (ditos “de direita”). A pobreza e as carências sociais nos países latino-americanos contribuem para a predominância do viés esquerdista e para a elevação das críticas ao capitalismo, mesmo que o atraso desse continente se deva justamente a décadas de maus governos – a maioria esquerdistas – e à inexistência de uma economia capitalista liberal.

A questão pouco cobrada dos críticos do capitalismo é qual sistema eles teriam para pôr no lugar e que fosse capaz de eliminar a pobreza e as carências sociais. A opção que oferecem, já experimentada pela humanidade, é o socialismo ou o próprio capitalismo, desde que a maior entidade dentro do sistema seja um governo gigante, controlador e interventor. Apesar de seus problemas, o capitalismo é o sistema econômico que conseguiu tirar multidões da miséria e elevar o padrão de vida da humanidade; por isso, é o sistema mais inclusivo que já existiu. Ao estabelecer e proteger o direito de propriedade privada, garantir a liberdade econômica e adotar os direitos individuais, o capitalismo libertou o processo de criação, invenção e explosão da genialidade humana, principalmente nos últimos 200 anos.

Um governo menor em uma economia próspera terá mais recursos para cumprir sua função social

Os países que tiveram desempenho inferior e não conseguiram resolver os problemas sociais foram justamente aqueles nos quais o sistema capitalista foi o menos aplicado. Nesses países, entre eles o Brasil, prevaleceu o descaso com a educação e a não absorção das novas tecnologias geradas pelas duas primeiras revoluções tecnológicas modernas (a primeira, com a máquina a vapor, a estrada de ferro e as máquinas industrias, nos anos 1800; e a segunda, com a eletricidade, o motor a combustão interna, a indústria automobilística e a indústria do petróleo, nos anos 1870-1900). Nos países latino-americanos, o capitalismo liberal jamais foi implantado, as liberdades econômicas sempre foram solapadas e os governos se tornaram gigantes gastadores, inchados, ineficientes, corruptos e com predomínio na economia por meio de empresas estatais.

A experiência socialista iniciada com a revolução soviética de 1917 durou pouco mais de 70 anos, tornou-se a religião dos críticos do capitalismo, foi adotada por vários países em outros continentes e, apesar de ter se revelado um dos maiores experimentos de pobreza, opressão e morte, é o credo e a opção daqueles que querem a destruição do capitalismo. O socialismo é o que oferecem para pôr no lugar, apesar da tragédia que esse regime impõe onde quer que seja aplicado. Antonio Gramsci, ideólogo da esquerda, dizia que a implantação do socialismo pelo confisco violento da propriedade privada não era viável; logo, deveriam adotar outra arma: a tributação. O tributo pesado, aprovado pelo parlamento, tornou-se o substituto dos tanques e dos fuzis.

No Brasil, o sistema estatal consolidado gasta 40% do Produto Interno Bruto (PIB) e, pelo tamanho da carga tributária e do setor público, não há um sistema capitalista, mas um misto de capitalismo e socialismo. O tamanho do setor estatal e o grau de intervenção na vida das pessoas e das organizações privadas chegaram a tal ponto que o problema do Brasil não se resolve apenas com um governo ético e eficiente do ponto de vista gerencial. Isso é necessário, mas não é suficiente. É preciso reformar o sistema estatal, reduzir seu tamanho, diminuir o gasto público, diminuir a intervenção no mercado, libertar a economia para funcionar com agilidade e ampliar o espaço de atuação do capitalismo para que ele possa produzir seus efeitos de elevar a produção, a renda e o emprego. E não se trata de diminuir os gastos sociais em educação, saúde, habitação e programas de redução das desigualdades: um governo menor em uma economia próspera terá mais recursos para cumprir sua função social, e isso, sim, é a favor dos pobres.

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Quanto ao socialismo, sua trajetória provou que é ineficiente em economia, incapaz de promover o progresso e opressor. Duas marcas mais trágicas do socialismo são a destruição da liberdade e o assassinato de seu próprio povo. É um regime de exclusão social, cruel e desumano. A Cuba tão amada pelos esquerdistas expulsou 20% de sua população – um dos maiores programas emigratórios do mundo – e a Venezuela está provando que, apesar de ter uma das maiores reservas mundiais de petróleo, o tal “socialismo bolivariano do século 21” é apenas a reedição do socialismo do século 20. No país de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, o mundo está vendo a economia afundar, a pobreza aumentar, a violência explodir, a liberdade sumir e o desespero tomar conta de uma legião de emigrantes.

O Brasil tem a chance de fugir desse filme de pobreza, atraso e horror. Mas, para isso, precisa reformar o sistema estatal e fugir da tentação de reproduzir aqui a engenharia social causadora desses males. Um país que retira 35% da renda nacional em tributos e gasta 40%, eivado de ineficiência, déficit público e corrupção, não pode culpar o capitalismo pela pobreza e pelo atraso. A saída é reformar ou naufragar.

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