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“A vida não se apossa do globo pelo combate, mas sim pela formação de redes.” É com estas palavras surpreendentes que a bióloga norte-americana Lynn Margulis rompeu, no seu livro Microcosmos, com o paradigma darwinista convencional, que descreve o desdobramento da vida como um processo de luta e divergência entre as espécies. Na visão de Margulis, a formação de redes simbióticas, ou seja, de relações cooperativas mutuamente vantajosas entre organismos de natureza diferente, é a força motora preponderante da evolução e da sobrevivência. O mesmo se aplica ao relacionamento entre universidades e empresas em momentos de alta complexidade, em períodos de desafios econômicos e sociais abruptos e inéditos, como os que vivemos atualmente.

A vida não se expandiu pelo combate entre espécies, mas pela colaboração

A Lei Federal de Inovação Tecnológica (Lei 10.973/2004) faz uma escolha simbiótica ao criar mecanismos visando constituir ambientes propícios às parcerias entre universidades e empresas, estimulando a participação dos institutos de ciência e tecnologia no processo de inovação, e favorecendo o exercício das atividades de pesquisa e desenvolvimento no setor privado por meio de incentivos fiscais. A Lei de Inovação do Paraná, sancionada em 2012, prevê da mesma forma e entre outros instrumentos, o incentivo às parcerias entre o setor empresarial e as instituições de ciência e tecnologia públicas ou privadas, e ainda o apoio à inserção de pesquisadores nas empresas, por meio de bolsas, permitindo o seu licenciamento para participar de projetos de inovação no setor privado.

Uma pena é constatar que, após terem se passado mais de dois anos desde sua promulgação, os principais instrumentos da lei paranaense da inovação ainda não se encontram regulamentados. É por isso que não surpreende o fato de que, se nos discursos todos enaltecem a inquestionável necessidade de parcerias entre o setor privado e a academia, os fatos e os dados, por sua vez, apontam uma realidade radicalmente oposta.

A taxa de pesquisadores inseridos em atividades empresariais no Brasil tem, na contramão da tendência em todos os países desenvolvidos, decaído de 41% em 2000, para 26% em 2010, segundo os últimos dados disponíveis. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), destacou na sua última Sondagem de Inovação uma queda constante da porcentagem de empresas que inovam ao longo de 2014, saindo de 54% no primeiro trimestre, para 47,8% no último. Já o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), aponta uma retração de 2,8% em termos de depósitos de patentes entre os anos 2013 e 2014.

Obviamente, tais fenômenos não são frutos do acaso e existem causas para tal situação absolutamente preocupante. A primeira continua sendo classicamente cultural, pois pesquisadores e empresários ainda encontram dificuldades para dialogar com profundidade, reconhecendo as diferenças entre seus modos de pensar como oportunidade e não como barreira. A segunda dificuldade insiste lamentavelmente em ser estrutural, quando, por desconfiança, por medo ou insegurança – e muitas vezes por comodismo – alimenta-se e fortalece-se a burocracia que sufoca a inovação e freia o desenvolvimento econômico e social da nossa nação.

Ao contrário do que preconiza o senso comum, a vida não se expandiu no globo pelo medo, pela desconfiança ou pelo combate entre espécies, mas sim pela formação de redes de colaboração entre organismos diferentes. Em tempos de grandes preocupações não apenas econômicas, mas também e principalmente éticas e morais, necessitamos desenvolver um olhar mais amplo, mais holístico, sobre os relacionamentos humanos, para encarnarmos a transformação que queremos ver, para sermos, qual seja a nossa proveniência social, os agentes da união simbiótica entre a produção de conhecimento e a geração de riqueza econômica e social. Relações mutuamente vantajosas entre seres vivos de espécies diferentes são a chave da sobrevivência. Universidades e empresas, da mesma forma, devem desenvolver uma união simbiótica.

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