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O dia em que o vírus da antissocialização nos pegou
Ilustração: Felipe Lima| Foto:

Isolamento social. Segundo a Wikipedia, “um comportamento no qual o indivíduo deixa de participar – voluntariamente ou não – de atividades sociais em grupo como trabalho e entretenimento”. Se há dois meses perguntassem o que significa essa expressão, você saberia responder sem consultar o Google? Eu não. E, seguramente, você também não imaginava que, dois meses depois, isso faria parte da sua rotina diária. Não apenas da sua, da nossa, de bilhões de pessoas ao redor do planeta.

Não bastasse o desafio de enfrentar uma doença terrível, capaz de matar e que se alastra a uma velocidade impressionante, também nos foi dada, repentina e sumariamente, a tarefa de nos isolar. Ficar em casa. Distanciarmo-nos de amigos e familiares. Não abraçar. Não beijar. Na linguagem popular, sossegar o facho. Muito mais do que preservar a própria saúde, uma questão de respeito com o próximo, de pensamento coletivo. Vamos nos unir e ficar todos separados, esse é o lema.

Todos nós estamos percebendo que não é fácil. A explicação, ainda que não tenha o embasamento teórico-científico-psiquiátrico necessário para tal, pode ser encontrada no mesmo artigo da Wikipedia citado no início do texto. “O isolamento social é geralmente uma condição devastadora da psique humana, já que um dos princípios que regem a sociedade é que o ser humano é um ser social”. Ou seja, não fomos criados para viver como ermitões ou lobos solitários. Gente precisa de gente.

Uma condição ainda mais desafiadora em se tratando do brasileiro, um povo social, sociável e socializador por natureza. Qualquer coisa é pretexto para fazer um churrasco com os amigos, não perdemos aquele almoço de domingo com toda a familiagem rindo e falando alto ao mesmo tempo, esperamos ansiosamente um feriado para nos desembestarmos para a praia e nos amontoarmos na areia, reservamos não um ou dois, mas quatro dias ao ano para a maior celebração coletiva desse país, o carnaval.

Até mesmo os curitibanos, que há tempos carregam a fama de não cumprimentar no elevador, já estão mais afeitos à vida social, seja nos pré-carnavais e redutos boêmio-hipsters da capital, ou nas conversas sobre a qualidade dos legumes no setor de hortifrúti dos supermercados. Por tudo isso, é tão incômodo ter de acompanhar a vida pela tela da TV, do celular ou da janela do apartamento.

Algumas culturas talvez consigam lidar melhor com esse tipo de situação. Há quem diga que o clima tem relação direta na forma com que as pessoas se relacionam: em países de temperatura mais baixa, por razões óbvias, a população é menos habituada a sair de casa e socializar em ambientes externos. Assim, o ar frio acabou se incorporando também à alma dos habitantes, que não aprenderam a lidar muito bem com o calor humano de seus semelhantes. Nada pessoal, apenas a natureza se impondo.

Mas uma experiência pessoal contrariou de certa forma essa teoria supracitada. Há cerca de três anos estive no Suriname, país que está na América do Sul, ao norte do Brasil, mas que, devido à colonização holandesa, não é considerado exatamente um vizinho sul-americano. As caminhadas pelas ruas da capital Paramaribo eram acompanhadas de uma sensação estranha: sempre havia poucas pessoas, mesmo durante a semana, com comércio e serviços abertos, tinha-se a impressão de que era feriado ou algo assim. Numa tarde de sábado, ensolarada e com temperatura na casa dos 30°C, era como caminhar por uma cidade fantasma. Por curiosidade, fui verificar os números do coronavírus no país: até esta quarta-feira (1.º), eram apenas dez casos confirmados.

Que lições tirar?

Nas redes sociais, muita gente vem dizendo que esse período de quarentena surpresa tem suas razões que a própria razão desconhece, que depois dela nos tornaremos pessoas melhores. Exemplos de altruísmo, solidariedade e união não estão faltando para reafirmar nossa crença na humanidade, ainda que os maus exemplos não tenham tirado férias, mas deixemos eles pra lá. Também há quem aponte um “descanso para a Terra”, com a quantidade de poluição, por exemplo, atingindo níveis que não eram vistos há algum tempo.

Não sabemos ainda por quanto tempo teremos de ficar recolhidos e quais as consequências desse período sabático da humanidade. Caberá a cada um tirar a lição que melhor lhe convier. Numa realidade em que boa parte das pessoas parece não suportar momentos de contemplação, a ponto de sacar o celular sempre que se vê sozinho, gosto de lembrar de um episódio da série animada Os Simpsons. Após participar de um programa televisivo de troca de famílias, o personagem Homer Simpson reclama da esposa com a qual foi obrigado a conviver: “ela me obrigou a ficar com as crianças e não apenas sentado no sofá vendo TV, mas conversando”.

Seremos os mesmos após essa pandemia que colocou o mundo inteiro de cabeça para baixo? É o que o tempo dirá, quando pudermos sair novamente de casa com tranquilidade, como no poema de Luís Guimarães Júnior:

“Como a ave que volta ao ninho antigo,

Depois de um longo e tenebroso inverno,

Eu quis também rever o lar paterno,

O meu primeiro e virginal abrigo.”

* Anderson Gonçalves é jornalista da Gazeta do Povo em Curitiba

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