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O Cine Império.
O Cine Império.| Foto: Acervo Paulo José da Costa

As tardes de domingo daqueles meus tempos de guri em Ponta Grossa eram reservadas para as sessões do Cine Império. Começavam sempre às 13h30 e acabavam lá pelas 17h30, às vezes 18h, 18h30 . A gente saia de lá meio zonzo com tanta barulheira e tiroteio. Eram quase sempre três filmes e um seriado.

Para abrir a sessão, depois da abertura das cortinas ao som da “rapsódia da Cornualha”, um curta ou um desenho e o invariável Canal 100, com os jogos de futebol da semana passada no Rio de Janeiro. Quem viveu não esquece daquela musiquinha do Canal 100 … tatatá, taráaaaaaa, tatatá taratatata, tatatá taratatata, tatatá taratataaaaaa

Em seguida, vinha o primeiro filme, um faroeste, ou um daqueles de heróis da mitologia, tipo Maciste, Hércules ou Perseu, com atores canastrões inesquecíveis. Nas cenas de luta, tiroteio ou perseguição, gritávamos e batíamos os pés no assoalho de madeira, e a barulheira era tanta que quase não se ouvia o som do filme. Levantava uma poeira só do velho chão de tantas histórias. Quando me lembro, a emoção toma conta.

Depois, vinha um filme romanção mexicano, para encher linguiça, com a sempre chorosa Libertad Lamarque ou um musical qualquer, acompanhado de infindáveis vaias cada vez que alguém principiava a cantar.

Então, vinha mais uma aventura, haja coração, mais um bangue-bangue, uma comédia do Jerry Lewis, um ou dois curtas do Gordo e o Magro ou uma chanchada da Atlântida com muita música e a briguinha na boate no final. E haja poeira. E haja gritaria.

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Bulício na frente do cine Império no domingo à tarde.| Acervo Paulo José da Costa

Os seriados eram a coroação da tarde de aventuras. Apesar de serem dos anos 1930/1940/1950, continuavam sendo exibidos ainda em 1961, 1962, 1963… Assim, apesar de ter nascido em 1950, tive a ventura de ainda pegar “Os perigos de Paulina”, “Flash Gordon”, “Nioka”, “ O Rei da Polícia Montada”, “Império Submarino”, com uns veículos prateados com sirenas e uns autômatos com armas de raios. E o meu preferido, “A Deusa de Joba”, que tinha uns incríveis homens-pássaro. E lá ia a garotada a repetir as cenas na praça da estação gritando óóóóóóóóóóó e atirando com invisíveis armas de raios atômicos…

Antes de entrar na sessão de domingo, a gurizada fazia uma animada troca de gibis em frente ao cinema, ao lado do Ponto Azul (outro dos ícones ponta-grossenses, demolidos para dar lugar a um não sei o quê vazio). Aí, tive a primeira experiência amarga, quando no caminho do Cine Império para o Ópera, fui atacado por um meliantezinho que me roubou a pilha de revistas. Fiquei inerte, bobo, ao ser batizado nas maldades do mundo, tendo a minha fortuna em gibis afanada por um ladrãozinho barato. E assim a escola da vida ia me passando as lições.

O Ponto Azul, em frente ao Cine Império.
O Ponto Azul, em frente ao Cine Império.| Acervo Paulo José da Costa

Mas em outro episódio não fui tão passivo: ao ser xingado pelo Hélio Abreu, que tinha a minha idade, não tive dúvidas, desafiei-o para uma briga na saída do ginásio. De onde saiu a coragem, não sei. Mas não deu outra, a notícia se espalhou e, quando vi, o Regente Feijó inteiro estava na rua esperando o ajuste de contas, querendo assistir nosso entrevero de guris de onze anos.

Foi algo pra não esquecer, nós dois tentando nos engalfinhar, soco pra cá, soco pra lá, ninguém acertando ninguém, a plateia incentivando, uma gritaria danada. Ele querendo me acertar uns sopapos e eu me defendendo e atacando como podia. De repente, tive uma chance e agarrei o casaco do uniforme de brim cáqui, daqueles antigões de escola militar, e dei um puxão com toda a energia de minha indignação, arrancando todos os botões, que deviam ser uns vinte, como tinha botões naqueles casacos! O Hélio ficou desarmado, assustado, tentando pegar os botões espalhados pela rua, a piazada toda rindo em algazarra e eu só pude ouvir ainda a voz dele a gritar: - Minha mãe vai me matar! Estava lavada a honra, fui embora satisfeito. E, no dia seguinte, já andávamos abraçados rindo da nossa briga e da confusão que armamos.

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O Colégio Regente Feijó, em 1961.| Acervo Paulo José da Costa

Quando minha mãe deixava que eu avançasse pelo princípio da noite, reuníamo-nos em grupinhos nos degraus de escadas e alimentávamos animadas discussões sobre tudo: futebol (ouvíamos os jogos nos radinhos de pilha Mitsubishi – lembro dos jogos do Santos, com Pelé arrasador), os filmes da semana, o “perigo” em que “parou o seriado”, imaginando como o herói se safaria.

Rolavam as conversas sobre sexo e logo fui aprendendo muito. Os catecismos do Carlos Zéfiro circulavam às escondidas, mas eu só comecei a gostar “dessas coisas” mesmo um pouco mais tarde.  Eu não sabia de nada com 11 anos e quando me contaram como os bebês nasciam, defendi de pés juntos que não, não era assim, os bebês saíam pelo umbigo! A gozação foi geral. Dois dias de gozações, haha. E, assim, a gente aprendia, com a turma zoando.

Eu gostava de discutir assuntos mais sérios, religião, por exemplo, com o João Alfredo Amatnecks, o “crânio do grupo”. Criávamos teorias incríveis sobre Deus, o mundo, e tudo o mais.  O legal é que a gente discutia, discordava, gritava, se exasperava, mas nunca brigava…  daríamos lições aos internautas de hoje.

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Uma das mais belas vistas de Ponta Grossa, em 1960.| Acervo Paulo José da Costa

Não tínhamos televisão em casa e o recurso era assistir os programas prediletos no apartamento do Willy Oscar Targa, dono da Discolândia, pai do amigo William, e que tinha uma paciência enorme ao permitir que me acomodasse em confortável poltrona de sua casa para ver o seriado Combate. Ele e Dona Londa eram um casal simpático e afável. Rádio amador, o PY5TS, ele se comprazia em me mostrar como os aparelhos funcionavam.  Eu gostava de subir ao terraço e ver a enorme antena no prédio mais alto da rua.

Outro local em que eu assistia televisão era o Hotel Astoria. Esse hotel já tinha sido da família de meu bisavô Luís Guzzoni e, talvez por isso, a proprietária me permitia entrar no atapetado salão de TV para assistir Bonanza. Eu me instalava confortavelmente na poltrona antiga de vime até a chegada do ilustre e velho professor a quem era reservada todas as noites: o dr. José Pinto Rosas.

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A rua Fernandes Pinheiro, a rua da estação, como era nos meus tempos de guri.| Acervo Paulo José da Costa

Ele chegava de mansinho e eu escorregava me acomodando em qualquer canto disponível. Ele era um cavalheiro elegante, como aqueles de filmes antigos, tipo Casablanca, sempre de terno branco, chapéu e, não recordo, mas devia usar polainas e bengala. Quando o chamava de Dr. Pinto Rosas ele respondia: “só Rosas agora, meu filho”, com um risinho surdo. Ele morava num anexo do hotel, com porta para a rua e a gente o via sempre entrando e saindo. Um dia entabulamos conversa e ele me mostrou sua coleção de moedas de ouro, uma riqueza acomodada em inúmeras gavetas fininhas com lugares muito bem-feitos com feltro ou veludo para não riscar as preciosidades.  Uma fortuna ali, bastava abrir a porta da rua. Realmente eram outros tempos. Na próxima conto mais.

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