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Nos fios do tricô: Irit Czerny fala sobre a expansão da Lafort
| Foto: Rodrigo Zorzi

“Feito em Curitiba”. Era essa a frase que por muito tempo acompanhou as etiquetas das peças de grife feminina Lafort. A inscrição era ousada. Tinha como objetivo fortalecer a produção local no país e vencer o preconceito de compradores, uma vez que a cidade nunca levou a fama no ramo da moda comparada a outras capitais do Brasil. Não à toa, a Lafort teve licença para bancar essa provocação: a marca tem quase 60 anos de história, nos quais se consolidou como referência em alfaiataria moderna e no pioneirismo da produção local de tricô.

Quem está por trás dessa cronologia é a proprietária e diretora criativa da marca, Irit Czerny, e seu pai, Amnon Czerny, o fundador da empresa. Amnon Czerny foi sobrevivente do Gueto da Varsóvia, o maior gueto judaico estabelecido pela Alemanha nazista na Polônia durante o holocausto. Em 1941, conseguiu sair da Europa e retornar a Israel, seu país de origem, onde se alistou ao exército. Casou-se com Josette, marroquina proveniente da França, com quem imigrou para o Brasil na década de 1960.

Depois de um breve período em São Paulo, foi em Curitiba que o casal se instalou para construir a vida e educar os filhos. Amnon abriu um comércio na cidade, onde revendia artigos comprados em São Paulo. Um dos pagamentos que recebeu de um comprador foi uma máquina de tecelagem, que aceitou em troca dos ensinamentos em como utilizá-la na produção de peças de roupa. Foi assim que começou a oferecer serviços de tricô com peças sob medida. Aos poucos, expandiu o negócio para a criação de uma marca de malharia em Curitiba, a Malharia Francesa.

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Em outubro, a Lafort inaugura duas novas lojas em São Paulo.| Rodrigo Zorzi

De geração para geração

Dos filhos, quem seguiu mais de perto o trabalho do pai foi Irit. Desde pequena, acompanhava todo o processo de produção na loja, e com o pai aprendeu a técnica e também o jeito para os negócios. Até seu falecimento, em 2020, aos 84 anos, Amnon seguiu acompanhando os rumos da marca. “Ele tinha um bom gosto natural. Era fácil para ele dizer o que era bonito, o que era feio. Ele sabia escolher, fazer a curadoria”, destaca.

Irit se formou em administração de empresas e, a partir dos ensinamentos, começou a trabalhar como private label de marcas de luxo, onde era contratada para desenvolver coleções de tricô exclusivas para diferentes empresas no Brasil. “Comecei a viajar para São Paulo, visitava shoppings, pegava cartões e oferecia o desenvolvimento de tricô. Assim, a gente cresceu muito nessa linha. Acabei trabalhando com todas as marcas importantes do país na época”, descreve.

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Irit Czerny, proprietária e diretora criativa da Lafort, aprendeu com o pai a técnica de tecelagem e o gosto pela moda.| Rodrigo Zorzi

Sofisticação e ousadia

Em 2017, com o sucesso desenvolvido na criação para outras marcas, Irit deixa de atuar com private label para investir oficialmente na marca da família, que se tornou a Lafort. “Quando eu decidi que não faria mais para outras marcas, começamos a focar na marca própria. Além dos fios que a gente sempre desenvolveu, passamos a desenvolver tecidos exclusivos.” Desde o início, a proposta era criar uma grife de vestuário feminino que combinasse elegância com inovação.

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| Rodrigo Zorzi

A inspiração foi fortalecida em um momento que Irit morou na França, onde ainda residia parte da família, e observou o estilo elegante de mulheres francesas. “No Brasil, a gente usava tricô para agasalhar. As malharias não tinham coleção de verão, era só inverno. Eu vim com essa ideia de fazer algo mais sofisticado, comecei a fazer fios mais leves, oferecer vestidos e saias, uma coisa que não se via aqui”, conta.

Por meio da marca, Irit passou a criar coleções próprias de malharia e tricô, apostando em tendências de comportamento. Uma dessas inovações foi o desenvolvimento de novos fios e tecidos, como o Technoblock, uma das principais matérias-primas da marca. O tecido proporciona conforto térmico, não marca o corpo e não amassa.

Expansão da marca

Durante a pandemia, o setor de moda e indústria têxtil foi um dos mais afetados pela crise econômica e sanitária. Mesmo assim, a Lafort se reinventou. Criou a própria linha de máscaras para proteção, feitas a partir das sobras do tecido tecnológico. Ainda, lançou o e-commerce para compras exclusivas no site, que já representa 10% do faturamento total da empresa. “Não demitimos nenhuma pessoa por causa da pandemia, pelo contrário, nós contratamos, trabalhamos e tivemos um resultado positivo”, destaca Irit. Atualmente, a Lafort está presente em mais de 120 pontos de vendas espalhados pelo Brasil, entre lojas próprias e multimarcas, e teve o maior crescimento da história da marca em 2021.

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Um dos principais materiais da marca é o technoblock, tecido ecológico exclusivo.| Rodrigo Zorzi

A persistência em momentos de crise também é de família. Irit conta que, no passado, quando a fábrica pegou fogo em Curitiba, até não restar nada, perguntou para o pai: “e agora, aba? (vocábulo que significa ‘pai’ em hebraico)”. Ele respondeu, “qual é o problema? Começamos tudo de novo”. Com o aprendizado, Irit acredita na Lafort como indústria de moda, e aposta no investimento mesmo apesar da crise. “Sempre tive essa ideia de manter a indústria e o emprego, enquanto as outras marcas começaram a revender as roupas. Hoje, nossa alfaiataria é reconhecida no Brasil todo porque ela é revolucionária”, destaca Irit.

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