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As tradicionais calçadas de petit-pavé curitibanas carregam a história e a cultura paranaense, em especial por meio dos desenhos do artista Lange de Morretes e sua icônica Rosácea Paranista.
As tradicionais calçadas de petit-pavé curitibanas carregam a história e a cultura paranaense, em especial por meio dos desenhos do artista Lange de Morretes e sua icônica Rosácea Paranista.| Foto: Leo Flores

A cada passo dado por Curitiba nos deparamos com obras artísticas, murais, esculturas, monumentos, prédios históricos e modernos, que compõem uma paisagem única. Com o olhar sempre erguido, os curitibanos e seus visitantes buscam a beleza a todo instante.

Porém, engana-se quem pensa que um pedestre cabisbaixo e pensativo esteja despreocupado com a estética e o apelo artístico da capital paranaense. No petit-pavé em que pisamos, desgastados pelo constante vai e vem de pessoas, os mosaicos chamam a atenção dos curiosos para o chão. Delineados pelas pedras portuguesas brancas e pretas, motivos tipicamente paranaenses se destacam no calçamento.

Entre os variados desenhos, um ganhou projeção especial. A Rosácea Paranista, criação do pintor Lange de Morretes (1892-1954), tornou-se um símbolo cultural de tamanha força que, além de estar em diversas calçadas pela cidade, é até hoje aplicada em souvenirs turísticos e imagens que remetem a Curitiba.

A roseta ornada por pinhões está reproduzida em vários pontos, como na Praça Osório, na Praça Santos Andrade, na Praça João Cândido e em frente ao Museu Alfredo Andersen. O desenho marcante tem variações, também espalhadas por outros locais importantes, em frente ao prédio histórico da UFPR e logo abaixo do Relógio da Praça Osório, na XV de Novembro.

Além de ser um símbolo histórico de Curitiba, o desenho dos pinhões geometrizados é marca do Paranismo, um sentimento de identidade regionalista, que se deu na primeira metade do século passado, e culminou posteriormente no Movimento Paranista. O pujante período cultural teve como ícones, além de Lange de Morretes, os artistas João Turin, Guido Viaro, João Ghelfi, entre outros.

O pinheiro e seu fruto estão entre os principais objetos das criações paranistas. A árvore símbolo do estado era chamada de “Rei da Floresta” pelos artistas da época.

Rosácea paranista e flores
Na Rosácea Paranista, é possível observar os pinhões da roseta entre as flores caídas dos tradicionais ipês. | Leo Flores

A natureza dos pinhões, das pinhas e dos pinheirais era quase uma obsessão. “Embrenhado na floresta falei muito com pinheiros novos, falei muito com pinheiros velhos, guardei segredos que eles me revelaram, sonhei, amei e trabalhei, desprezando o que outros chamam de conforto e de fadiga”, escreveu Lange em artigo publicado na revista Illustração Brasileira, em dezembro de 1953.

O surgimento da rosácea 

Como todo movimento cultural, os encontros em ateliês, bares e cafés faziam parte da rotina dos paranistas. Certa vez, Lange, Ghelfi e Turin batiam papo e o assunto novamente alcançava o pinheiro. Ghelfi pegou um pedaço de carvão, pintou na parede um tronco, como se fosse uma coluna, com o topo ornado por um capitel de pinhas. Dali, o trio partiu para uma rodada de chopes em uma confeitaria na Rua XV. Naquele dia, nenhuma produção artística surgiu de repentina inspiração. Mas a ideia estava plantada.

Lange, que já era um amante dos pinheirais, se dedicou a estudar centenas de pinhões até colocar em prática uma fórmula geométrica que o deixou satisfeito na reprodução artística da semente, que passou a ser pintada individualmente, dentro de rosetas ou de formas triangulares. Segundo Lange, o característico pinhão estilizado de sua autoria ganhou forma em meados de maio de 1930, pelo menos cinco anos após aquela conversa com Turin e Ghelfi (falecido precocemente em 1925).

O artista, então, passou para frente a criação em suas aulas no próprio ateliê e nas primeiras aplicações, como uma espécie de assinatura, na moldura de quadros que pintava. Um aspecto interessante do desenho paranista do pinhão, e consequentemente da rosácea, é que Lange liberou o seu uso indiscriminadamente. “A fórmula aí está aplicada nos desenhos que apresento, e ficará para quem dela quiser fazer uso, nunca podendo ser patenteada, pois, deve pertencer ao domínio público e servir especialmente a pequenos profissionais”, relatou o artista.

Mosaico português

Embora a trajetória artística de Lange seja focada na produção de desenhos e pinturas em quadros, é a reprodução de sua arte em petit-pavé que marca as diferentes gerações de curitibanos. O mosaico português, a técnica de criar desenhos estilizados com as pedras portuguesas, chegou ao Brasil no século 19 e não é exclusiva da capital paranaense. As mundialmente famosas ondas do calçadão de Copacabana, inauguradas nos primeiros anos do século 20, são feitas do mesmo material e com a mesma técnica que as centenas de desenhos das calçadas curitibanas, instaladas entre as décadas de 1930 e 1940. Muitas outras cidades possuem exemplares do petit-pavé, principalmente nos centros históricos. Em Curitiba, o calçamento de pedra portuguesa ocupa entre 1% a 2% de todas as calçadas da cidade.

Rosácea Paranista
A Rosácea Paranista reproduzida no mosaico das calçadas atravessa gerações como um símbolo de Curitiba. | Leo Flores

Lange de Morretes 

“Pintor de vastos recursos e grande sensibilidade, seu lugar está garantido na história das artes plásticas do Brasil”. Assim é descrito Frederico Lange, no parágrafo que inicia o artigo da revista Illustração Brasileira, de 1953, pouco antes de sua morte. O artista nascido em Morretes, em 5 de maio de 1892, foi discípulo do norueguês Alfredo Andersen, que considerava Lange o melhor pintor paranaense. Além das artes, um lado pouco conhecido de Lange é o de cientista. O artista trabalhava com a malacologia, o estudo de moluscos, área em que também teve grande importância.

Faleceu em 19 de janeiro de 1954, em Curitiba. Seu corpo foi levado para sua cidade natal, Morretes, onde queria passar a eternidade. Em seu derradeiro momento, outro desejo de Lange foi atendido: ser enterrado em pé, tal qual um pinheiro, de frente para o pico Marumbi.

Olhar do fotógrafo 

As imagens que ilustram a Pinó de maio são de autoria do fotógrafo curitibano Leo Flores, responsável por registrar a arte urbana da capital nas doze edições colecionáveis de 2022. Para fotografar a Rosácea Paranista, Leo enfrentou o desafio de ter o objeto da fotografia horizontal no chão. “É um pouco inusitado para fotografarmos. Como, por opção, eu não fotografo com drone, não tenho essa possibilidade de fotografar ela nessa visão bem vertical. Então eu optei por usar algumas artimanhas para fotografá-la de cima”, conta. “Duas das fotos que fiz bem de cima (como a da capa), optei por cortar a rosácea ao meio. Levei uma escada para o meio da rua e de cima dela eu consegui fotografar de um ângulo mais vertical para dar essa sensação de simetria”, completa o fotógrafo.

Para dar mais vida ao preto e branco das calçadas, Leo buscou criar composições que exploram outras cores, como o amarelo. Na Santos Andrade, o fotógrafo usou as flores caídas dos tradicionais ipês. Em outra, registrada na Rua XV, contou com a sorte que só a paciência pode trazer. “Me posicionei na janela de um prédio, enquadrei e fiquei esperando, pois sabia que ia passar alguém com uma sombrinha ou guarda-chuva colorido”, explica.

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