O Centro de Atendimento Epheta, que atendia 102 crianças e adolescentes com deficiência auditiva, fechou as portas em setembro passado. | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
O Centro de Atendimento Epheta, que atendia 102 crianças e adolescentes com deficiência auditiva, fechou as portas em setembro passado.| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

As organizações sociais sentiram o peso da crise econômica dos últimos três anos. O desemprego e a diminuição na renda se refletiram no volume de doações de pessoas e empresas. As entidades que não fecharam as portas modernizaram o modelo de gerenciar as contas, diversificaram ações para gerar mais fundos e reduziram os gastos. Esta tendência empresarial vai nortear o terceiro setor, mesmo com a retomada da economia.

Em junho, o Instituto Pró-Cidadania de Curitiba (IPCC), apesar dos 34 anos de história, fechou as portas. A parceira da prefeitura em várias ações sociais anunciou que não tinha condições de sanar as dívidas de aproximadamente R$ 5,8 milhões e dispensou 1,3 mil funcionários.

No mês passado foi o Centro de Atendimento Epheta a encerrar as atividades. A Associação de Educação Familiar e Social do Paraná (AEFSPR), responsável pelo projeto que atendia crianças e adolescentes com deficiência auditiva, informou que os problemas financeiros eram antigos.

A gestora alega ter buscado alternativas para manter a escola em funcionamento. “Por se tratar de um atendimento gratuito para as famílias, com a participação do estado e da prefeitura, foi realizada comunicação com as famílias na busca da continuidade do projeto com outras instituições privadas, porém, sem sucesso”, argumentou Andréia de Oliveira, assessora da diretoria da AEFSPR. A entidade se comprometeu a apoiar estado e prefeitura na transição dos 102 alunos para que não haja interrupção no atendimento.

Apesar da crise

Entre as organizações filantrópicas que superaram o freio nas doações está a unidade do Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral (Cadi) de Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba. Desde 1994, a entidade atua na proteção à infância, adolescência e família. O núcleo atende cerca de 350 crianças e adolescentes, entre sete e 18 anos, que realizam oficinas socioeducativas.

Para manter as contas em dia, o Cadi faz o planejamento anual das ações e atividades, que é dividido por área. Todas têm metas anuais para cumprir. A cada cinco anos, a entidade define o planejamento estratégico. “Em relação ao investimento, atualmente a maior porcentagem está prevista na área de recursos humanos, devido ao custo de pagamento de impostos dos funcionários contratados”, detalha a coordenadora executiva, Vanessa Romero Fróis, que acredita no profissionalismo gerencial para garantir solidez ao terceiro setor.

60%

é a queda no volume de doações estimada por uma instituição social de Curitiba

Os recursos são arrecadados por meio de editais nacionais privados, leis de incentivo, sistema próprio de apadrinhamento infantil, Nota Paraná e empresas parceiras. Diferente de períodos pré-crise, não houve incremento no montante recolhido. “Não tivemos uma queda brusca no investimento porque buscamos alternativas que supriram as demandas financeiras da entidade”, aponta a coordenadora.

Ela conta que o investimento mais assertivo no sistema de apadrinhamento infantil foi uma das novas investidas. O novo modelo permite que pessoas físicas possam investir uma quantia fixa por mês, o que ajuda a sustentar os projetos em andamento e supre necessidades de urgência de crianças e adolescentes.

Arrecadação

O Pequeno Cotolengo é praticamente um patrimônio histórico de Curitiba, mas mesmo assim não passou ileso pelo momento ruim da economia. A entidade assiste pessoas com múltiplas deficiências em situação de risco e abandono desde 1965. A estrutura atual possui 342 funcionários e 200 estagiários na área da saúde para atender 194 acolhidos.

Pela primeira vez desde que foi criado, o valor arrecadado pelo setor de telemarketing não cresceu na comparação com o ano anterior. A maior parte da receita da ONG é resultado das abordagens por telefone. “Falar que esses anos de crise foram difíceis é redundante. Entretanto, graças ao comprometimento de funcionários, religiosos, voluntários e com o apoio de diversos doadores e investidores, conseguimos superar este cenário adverso”, afirma Diogo Azevedo, diretor administrativo.

O volume mais expressivo de recursos chega à entidade por meio de débitos na conta de luz, água e telefone. Os bazares geram 10% das receitas. Todas as doações de eletrodomésticos, móveis e outros materiais que não são aproveitados são vendidas. O tradicional churrasco promovido pela entidade também tem papel importante para o fechamento das contas. O evento ocorre no primeiro domingo de cada mês e mobiliza em torno de 6 mil pessoas.

A organização estruturou o setor de projetos que capta recursos de incentivos fiscais. A ONG também participa de editais para a realização projetos subsidiados por fundações, organizações, empresas e órgãos governamentais. “Existe ainda a captação de emendas parlamentares, federais ou municipais”, completa Azevedo.

Cenário mais restritivo

Comemorando 50 anos de vida, a Associação Franciscana de Educação ao Cidadão Especial (Afece) também lança mão de eventos, atividades e ferramentas governamentais, além das doações, para reunir recursos.

A Associação possui 225 atendidos e suas famílias, ultrapassando 450 pessoas assistidas. Para dar conta deste contingente, são necessários 148 colaboradores, mais 200 voluntários cadastrados. “Fazemos bazares com produtos usados (doados), Programa Nota Paraná, eventos beneficentes (sopa amiga, noite do pastel, bingos, entre outros), doações espontâneas de pessoas físicas e jurídicas, renúncia fiscal no fim e início do ano, campanhas de arrecadação, contribuição através da conta da Copel e rifa”, detalha João Henrique do Prado de Castilho Pereira, coordenador de marketing.

Ele admite que a entidade se adaptou ao novo cenário, mais restritivo. “Houve uma enorme queda (doações) em função da crise econômica. Em média, segundo balancetes financeiros, tivemos redução de 60% de doações, especialmente das empresas”, contabiliza. Para equilibrar as contas, a Afece canalizou a captação de recursos em campanhas que demandam menor investimento, como a Nota Paraná, correntes de arrecadação e eventos. “A saúde financeira ainda não ‘respira’ com tranquilidade, mas está respirando, alguns meses no vermelho, outros conseguimos empatar”, finaliza.

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