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Navio plataforma durante obras em Pontal do Paraná. | Gabriel Kuenzer/Divulgação
Navio plataforma durante obras em Pontal do Paraná.| Foto: Gabriel Kuenzer/Divulgação

A fase final de uma obra de grande porte está causando apreensão no Litoral do Paraná. A conclusão de uma plataforma para a Petrobras pela multinacional italiana Techint deve deixar centenas de pessoas sem emprego e esfriar o movimento econômico de Pontal do Paraná. Embora a desmobilização fosse esperada desde o início do projeto, em 2014, causa um rombo na arrecadação do município, na geração de renda e no comércio.

A Techint chegou a ter 5 mil funcionários – numa cidade com 26 mil moradores – e, à medida que se aproxima a data da entrega da plataforma petrolífera P-76, prevista para os próximos dias, cada vez menos gente trabalha no local. A empresa não confirma os números, mas fontes consultadas pela Gazeta do Povo apontam que menos de 2 mil pessoas continuam contratadas. A maior parte dos milhares de dispensados estava em Pontal apenas para executar o projeto e já retornou à cidade de origem. Mas também há um contingente, estimado entre 10% e 15% do total de trabalhadores, que mora na cidade e ficou sem emprego.

Enquanto tenta negociar um novo contrato, a empresa pretende manter um número mínimo de funcionários, embora não informe a quantidade. Para Jaime Cousseau, secretário municipal de Desenvolvimento de Pontal do Paraná, a estrutura residual é um alento, mas é paliativa. Se a Techint não voltar a atuar em larga escala, ele calcula que a prefeitura vá perder R$ 10 milhões ao ano, em impostos, tanto diretos como da movimentação na economia local. Mercados, restaurantes, hotéis e prestadores de serviços já sentiram a redução.

Cousseau destaca que o impacto só não está sendo maior porque já começou a movimentação pela temporada de verão. “Mas lá em março a gente vai sentir o baque”, diz. Ele também salienta que os salários pagos pela multinacional são maiores do que a média local – o que injetou dinheiro na cidade por um tempo. Para tentar aproveitar o momento, foram oferecidos treinamentos de educação financeira, incentivando os demitidos a aplicarem a rescisão trabalhista em novos negócios na cidade.

Para o presidente da Associação Comercial de Pontal do Paraná (Aciapar), Gilberto Espinosa, o cenário na cidade só não está pior por causa do gasto da indenização dos trabalhadores dispensados. “Mas quando acabar vai ser uma catástrofe”, acredita. Ele comenta que, por causa da crise econômica, a Techint foi diminuindo, aos poucos, os benefícios que dava os funcionários. No passado oferecia alojamento, por exemplo. “Eu lavava 2 mil quilos de roupa para eles por dia e hoje não chega a 50 quilos por semana”, comenta o presidente da Aciapar, que tem também empreendimentos na área de turismo.

Espinosa avalia que boa parte das 1,8 mil empresas da cidade tem um grau de dependência da Techint. “Nós estamos chamando a atenção para essa situação há muito tempo. A empresa manteve melancolicamente a atuação, se arrastando, com prazos estourados”, afirma. Ele considera que a multinacional está levantando âncora sem ter feito o que poderia pela cidade. “Vão ficar os problemas e ainda o déficit em saúde, educação e segurança, com a cadeia superlotada”, diz.

A empresa alega que chegou a gerar 9,4 mil empregos diretos e que ofereceu oportunidade de capacitação profissional para 1,5 mil pessoas. Além disso, afirma ter investido em iniciativas de impacto social, como construção e reforma de escolas, aumentando em 990 as vagas no ensino fundamental, além de treinamentos para funcionários públicos e formação de líderes comunitários.

Histórico

Não é a primeira vez que Pontal experimenta momentos de euforia e frustração com a atividade da Techint. O terreno foi comprado em 1981 e logo construiu a primeira plataforma. Depois ficou 15 anos parada. As atividades foram retomadas em 2004, novamente de forma temporária.

Há uma década, a Techint foi uma das beneficiadas – num primeiro momento – pela franca expansão dos negócios do empresário Eike Batista e se instalou na cidade para construir uma plataforma. Com a falência da OSX em 2013, ficou no prejuízo e dispensou milhares de funcionários. Ainda tenta encontrar um comprador para o projeto inacabado.

A desmobilização não foi total porque pouco tempo depois surgiu o contrato bilionário da Petrobras. Ao preço US$ 889 milhões, aceitou transformar um velho navio cargueiro em plataforma petrolífera. Foi uma das poucas obras não afetadas pela Lava Jato. A estrutura tem 332 metros de comprimento e mais de 60 metros de altura (considerando o navio de base e as estruturas modulares montadas em cima). A capacidade de armazenamento da plataforma é de 1,4 milhão de barris de petróleo, com possibilidade de processar 150 mil barris de petróleo por dia, além da compressão de 7 milhões de metros cúbicos de gás natural. A estrutura deve ser levada para o campo de Búzios III, no pré-sal da Bacia de Santos.

Inspeção

No dia 4 de dezembro, a plataforma foi testada pela Capitania dos Portos do Paraná, da Marinha, que apontou problemas a serem resolvidos. Em nota enviada à Gazeta do Povo, a Techint declarou que as pendências sinalizadas durante a inspeção são pontuais e não comprometem a estabilidade da embarcação, que estão sendo resolvidas e não acarretam em mudança nos prazos definidos para liberação da plataforma. A data da entrega não foi informada. A previsão da entrada em produção é o primeiro trimestre de 2019.

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