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Cida Borghetti, da família Barros, e João Arruda, da família Requião, disputam o governo do Paraná | Albari Rosa/Tribuna do Paraná
Cida Borghetti, da família Barros, e João Arruda, da família Requião, disputam o governo do Paraná| Foto: Albari Rosa/Tribuna do Paraná

Não estar em uma família de extensa tradição política parece ser um dos trunfos de Ratinho Junior (PSD), candidato ao governo do estado, para conquistar a parcela do eleitorado cansada dos grupos familiares no poder. Ainda que seu pai tenha sido vereador e deputado federal e Ratinho estivesse sob o guarda-chuva de Beto Richa (PSDB) na última gestão do tucano como governador, o primeiro debate pelo Executivo estadual, na Band, mostrou a tônica do discurso que deve sustentar nessa corrida eleitoral.

Nas entrelinhas, a disputa entre “políticos de família” e “outsiders” revela muito sobre a própria história política paranaense, que sempre foi ligada por laços de sangue. Alguns fortes (como os clãs Requião, Richa e Barros), outros estremecidos (como o Dias).

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O cenário de famílias no poder paranaense é muito articulado. O ex-governador Beto Richa, hoje candidato ao Senado, e a atual, Cida Borghetti (PP), são exemplos emblemáticos. Ela é mulher do ex-ministro da Saúde e deputado federal Ricardo Barros (PP). O pai de Barros é Silvio Magalhães Barros, que foi deputado e prefeito de Maringá. A filha do casal é Maria Victoria (PP), que deve tentar a reeleição como deputada estadual em outubro.

Há alguns meses, Cida era vice de Beto Richa. Ele é filho do ex-governador José Richa e agora tenta emplacar um de seus filhos, Marcello Richa, em uma vaga na Assembleia Legislativa. Tanto Marcello, quanto um dos irmãos de Beto, José Richa Filho, e a sua esposa, Fernanda Richa, já ocuparam secretariados do Estado durante sua gestão.

Como um dos principais adversários, Cida terá João Arruda (MDB). Ele é sobrinho do senador Roberto Requião (MDB), que tentará a reeleição ao Senado, e genro de Joel Malucelli. Requião, filho do ex-prefeito de Curitiba Wallace Thadeu de Mello e Silva já emplacou irmãos na política e hoje transfere sua popularidade para o filho, Requião Filho (MDB), que tentará se manter na Assembleia Legislativa paranaense. Malucelli (Podemos) era suplente do candidato à presidência Alvaro Dias (Podemos).

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Na Assembleia paranaense, a parcela de herdeiros é de 15 cadeiras (de 54 assentos). Sobrenomes como Curi, Lupion e Leprevost sempre permearam a política do estado em gestões intercaladas ou contemporâneas.

Traço histórico marca as famílias no poder

Os laços de família na política paranaense é algo histórico e perpetuado. Um estudo conduzido pelo Núcleo de Estudos Paranaenses da Universidade Federal do Paraná, coordenado pelo cientista político Ricardo Oliveira, aponta que essa rede de ligações familiares vem do século 18. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Oliveira destacou que “o senso comum é de que o nepotismo é um fenômeno nordestino, arcaico, do passado”, mas que, como mostram, “é um fenômeno dos lugares considerados dos mais modernos do Brasil”, diz.

É assim no Brasil todo. Em 2017, o Congresso em Foco levantou que pelo menos 319 deputados federais e 59 senadores tinham parentesco com políticos. Isso representa 62% e 73% das Casas, respectivamente. A maioria, em ambos os casos.

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O fenômeno já havia sido analisado em 2016, também pelo Núcleo de Estudos Paranaenses, que publicou como o ambiente da política é cada vez mais familiar. “O que se verifica empiricamente a cada pleito, tanto do ponto de vista dos estados como das pequenas cidades do interior e até mesmo em capitais e no plano federal, é a continuidade da política como campo cada vez mais propício para atividades familiares. Podem-se encontrar hoje, e não raramente, netos ou bisnetos daqueles que nos tempos remotos já estavam presentes na ocupação dos espaços de poder, sustentados por relações e vínculos familiares que lhes permitiam o exercício político”, sustenta o grupo no documento “Família, parentesco, instituições e poder no Brasil”.

Para o cientista político Marco Ferreira, doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a construção histórica destas redes é que as tornam sólidas. E a perpetuação é feita meticulosamente. “Para que consigam seguir no poder, há um rearranjo muito claro, planejamento de longo prazo. Um membro da família geralmente apoia o outro. São raros os casos de diferenças partidárias e ainda mais raros os de diferença ideológica. Essa ligação familiar, além de somar votos, é bem vista pelos eleitores”, destaca.

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E são vários os fatores que jogam a favor dos “políticos de família”. Pedro Chaves Canedo, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas levantou em uma série de estudos que o sobrenome familiar ajuda a passar a imagem de que “o candidato pode reconhecer qual é o melhor projeto para a sociedade, uma vez que sua ancestralidade lhe confere capacidade de conhecimento”; de que “o poder conferido pelos vínculos de parentesco o coloca como intermediário entre as várias instituições” e de que ele terá a “capacidade de atuar em várias esferas porque seu posicionamento e influência o credencia, afinal, desde a tenra infância está submerso no universo político e adquire determinadas habilidades que se traduz no habitus”.

Com tantos pontos a favor, não é de surpreender que boa parte dos novos políticos eleitos não sejam, de fato, uma ruptura, mas parte de famílias já estabelecidas na política.

Os laços deveriam dominar a política?

O resultado de grupos consolidados afunilando a corrida eleitoral não é benéfico para a sociedade, sustenta Ferreira. “Esse jogo é pesado para interessados em se tornar novas lideranças”, diz. “Também facilita o nepotismo, diminui a pluralidade de ideias e pensamentos, requisitos básicos em uma democracia”, diz.

A solução, ele defende, deve estar em um rearranjo que possa tornar a disputa mais acessível a nomes outsiders. “Menos cargos comissionados são essenciais para quebrar uma rede de troca de apoio. Além disso, votações abertas e portais de transparência podem intimidar uma ação inadequada das famílias”, diz. Claro, dos instrumentos, o voto é a medida mais efetiva – caso o eleitor não concorde com os clãs.

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Em um cenário em que as famílias parecem mais unidas do que simplesmente por laços de sangue, há que se entender o espanto causado pelo desarranjo dos irmãos Dias. A falta de apoio de Alvaro à candidatura de Osmar Dias fez com que o segundo desistisse da corrida eleitoral. Isolado em seu PDT, não restou a Osmar forças e nem alianças para seguir com o desejo de se tornar governador, após duas tentativas falhas. Não foi um caso isolado. Em 2000, a própria famíia Requião teve seu maus momentos quando Maurício Requião (PMDB na época) e Eduardo Requião (PDT) disputaram a prefeitura de Curitiba. Nenhum dos dois levou.

São casos isolados. A seguir o movimento histórico, é bem provável que o resultado das urnas em 2018 traga representantes das famílias tradicionais em alguns cargos.

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