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Fome mata 20 pessoas por mês no Paraná; idosos são maioria das vítimas

O país venceu a desnutrição infantil, mas a invisibilidade dos problemas da velhice condena à morte cada vez mais idosos

  • José Lázaro Jr., do Livre.jor, especial para a Gazeta do Povo
 | Marcelo Elias/Arquivo/Gazeta do Povo
Marcelo Elias/Arquivo/Gazeta do Povo
 
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O Paraná registrou 243 mortes por fome em 2016, sendo que 205 destes óbitos foram de pessoas com 60 anos ou mais de idade. Essa contagem é oficial, homologada pelo Ministério da Saúde, e revela o lado sombrio das notícias sobre o aumento da expectativa de vida no país. A silenciosa epidemia mata de fome quase 5 mil idosos por ano no Brasil. Os dados foram revelados pelo Livre.jor.

No Paraná, em 2016, último ano com dados consolidados, 20 pessoas morreram de fome por mês, 16 das quais acima dos 60 anos de idade. Foram registrados óbitos por desnutrição em 110 dos 399 municípios do estado (27%). Dito de outra forma, e arredondando para baixo, um idoso é vitimado pela desnutrição a cada 48 horas. Algo que não acontecia nos anos 1980, quando a fome matava crianças de 0 a 4 anos duas vezes mais rápido que as pessoas mais velhas.

DADOS: Veja no infográfico a evolução da população idosa e do número de mortes por desnutrição

A reportagem apresentou esses números à nutricionista Simone Fiebrantz Pinto, da Fundação de Apoio e Valorização do Idoso (Favi), que preside o departamento de gerontologia da seção paranaense da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG-PR). Também a Leandro Meller, presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa (Cedi-PR). Ambos trataram o envelhecimento da população como um desafio à sociedade, das relações familiares à articulação das políticas públicas.

No Censo de 1980, o Paraná tinha 376 mil indivíduos com 60 anos ou mais de idade – 5% do total da população à época, de 7,6 milhões de pessoas. Passados 30 anos, no Censo de 2010, os idosos já eram 11% dos paranaenses e, em números absolutos, triplicaram. Passaram de 1,17 milhão de indivíduos. O problema é que, no mesmo período de tempo, as mortes associadas à desnutrição entre os idosos andaram mais rápido: mais que sextuplicaram, indo de 31 para 205.

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Melhora na infância, piora na terceira idade

“A fome não espera. A fome não pode esperar dez anos para ser resolvida. Não pode esperar uma reforma estrutural ou uma reforma agrária. A fome precisa de comida já”, dizia, há 30 anos, o Betinho, como ficou conhecido o sociólogo Herbert José de Souza. “Cerca de 150 mil crianças morrem de fome e de miséria neste país. São seis [guerras do] Vietnam por ano sem nenhuma bomba explodida nas nossas cabeças, mas sim nas nossas consciências”.

O Brasil lutou contra a desnutrição infantil e o resultado pode ser visto nos números: só no Paraná foram 4.327 óbitos por desnutrição na década de 1980 (79% do total das mortes por fome no período). No decênio seguinte, 1.568 (48%). Na virada do século, as mortes por desnutrição infantil caíram para 315 (11%). De 2011 a 2016, o resultado das políticas sociais e de saúde implantadas nos anos anteriores permitem dizer que o problema denunciado por Betinho foi vencido: apenas 46 mortes (3,2%).

O país que soube salvar suas crianças parece ter esquecido dos mais velhos – e os números do Paraná repetem localmente o alerta que o Brasil ainda não ouviu. Foi em 1980 que mais se morreu de fome no estado. Das 1.000 mortes, foram 920 indivíduos de 0 a 4 anos vitimados pela desnutrição; só 31 tinham 60 anos ou mais de idade.

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Ou seja, em 1980, para cada grupo de 29 crianças atingidas pela desnutrição, morria um idoso. No ano de 2016, a ampulheta da vida e da morte virou: para cada criança vítima da fome, faleceram 20 idosos.

A curva se inverteu, no Brasil, no ano de 1991. No Paraná, mais lenta, a ampulheta virou seus pólos em 1996. Das 253 mortes por fome registradas no estado naquele ano, foram 91 crianças e 116 idosos. No anterior, os números eram, respectivamente, 148 e 70. A diferença se ampliou ano a ano, mas essa triste realidade ficou de fora do noticiário até agora.

“Devemos diferenciar fome e desnutrição, [quando ela se apresenta como] uma síndrome geriátrica. Temos que ter cuidado ao isolar essa causa como fator único para a morte. A fome no idoso tem uma multiplicidade de implicações, pois o envelhecimento é um tema complexo”, apontou Simone Pinto, do departamento de gerontologia da SBGG-PR.

A desnutrição, comentou a especialista, deve ser vista dentro do quadro total da saúde desse idoso, pois pode estar associada a outras doenças. “Insuficiência cardíaca pode dificultar o ato de se alimentar. Nas neoplasias [cânceres], a necessidade calórica é alta pelo metabolismo [acelerado] que a doença acarreta. Demências podem incorrer em perda de peso, comprometendo o estado nutricional, motivo pelo qual [o idoso] precisa de monitoramento constante”, afirmou.

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“Com o envelhecimento também temos alterações na dentição, que precisam ser corrigidas com prótese ou implantes por exemplo. Dificuldades de deglutição, por exemplo, podem ser sequelas de AVC (acidente vascular cerebral) ou demência, precisando ajustar a consistência do alimento. Podem haver outras alterações que afetem a absorção de nutrientes. O risco de depressão pelo isolamento também coloca o idoso em risco. O uso de um grande número de medicamentos também atrapalha a absorção de nutrientes”, enumerou.

Octagenários quintuplicaram

Perguntado sobre como proceder diante desse cenário de uma epidemia silenciosa de fome matando idosos no Paraná, o Conselho Estadual do Idoso respondeu que “tem trabalhado intensamente no enfrentamento à invisibilidade da pessoa idosa frente às políticas públicas setoriais”.

“Neste sentido, avançaremos na pauta da questão da garantia de direitos junto às áreas da saúde e segurança alimentar, visto que a política da pessoa idosa deve ser prioridade em cada uma das áreas sociais”, prometeu Leandro Meller, presidente do Cedi-PR. Contudo, se ao falar de envelhecimento a imagem comum são pessoas de 60 anos, isso também precisa mudar.

As mortes por desnutrição acima dos 80 anos de idade alertam para outro aspecto da realidade: de 1980 a 2010 o número de octogenários quintuplicou no Paraná. Eram 25 mil há 30 anos, agora passam dos 145 mil indivíduos. Os sexagenários ainda são o maior número, com 667 mil pessoas com idade entre 60 e 69 anos vivendo no Paraná. Na faixa dos 70, 358 mil.

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Aumentar o cuidado

“Em 2017, os serviços Disque Denúncia 181 e Disque Idoso receberam 676 denúncias de violência e violação de direitos da pessoa idosa. Ao todo, foram computados 446 relatos de situações de abandono e negligência. E é importante ressaltar que na maioria das vezes em uma denúncia podem ser identificadas mais de um tipo de violência/violação combinados”, diz Meller, presidente do Cedi-PR.

À reportagem, ele lembrou que o artigo 3º do Estatuto do Idoso fixou como “obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação dos seus direitos”. “Muitas vezes observa-se que uma família estruturada e que cumpre esta obrigatoriedade do estatuto, evita que os direitos desta população sejam violados”, ponderou.

“O que precisa ser feito é identificar os idosos em risco e os que já apresentam a desnutrição. Depois, corrigir ou minimizar as causas e orientar o paciente para melhorar o seu estado de saúde”, enfatiza Simone Pinto, da SBGG-PR. Ela diz que existem políticas públicas municipais e estaduais a serem acionadas, mas que a efetividade delas depende da identificação dos casos.

Para a nutricionista, as equipes de saúde pública, além da situação clínica do idoso, por conta das doenças associadas, devem avaliar outros fatores. Por exemplo, se o idoso mora sozinho ou com outro idoso, situação em que aspectos financeiros e a capacidade de tomar conta de si e do outro devem ser contabilizadas. E que isso independe do local no qual o idoso está, se é na própria casa, em instituições de longa permanência ou hospitalizado.

As mortes por fome no Paraná

O Paraná teve uma taxa de 2,16 mortes de fome por 100 mil habitantes em 2016. As cidades com mais casos registrados, por serem grandes centros urbanos, densamente habitados, tiveram taxas abaixo disso. Curitiba foi a cidade com mais óbitos em números absolutos, 27, mas os 1,89 milhão de pessoas na cidade a deixaram com uma baixa taxa de 1,43 mortes por 100 mil habitantes.

Contudo, quando você pensa que 27 pessoas morreram de fome na capital do Paraná, um dos principais estados produtores de alimento no Brasil, não há como deixar de estranhar o silêncio a respeito disso em todas as esferas. Pior: 90% dos casos foram idosos, sendo dois sexagenários, seis septuagenários e 16 anciãos com mais de 80 anos de idade. Na certidão de óbito, o médico não culpou uma doença associada. Identificou a causa como desnutrição.

Na outra ponta do quadro, está Altamira do Paraná, na região Oeste, com uma taxa de 95,45 mortes por 100 mil habitantes – a maior do estado. Aqui a probabilidade de se perecer de fome é tenebrosamente maior que em Curitiba. Em 2016, foram 3 casos para uma população de 3,1 mil pessoas. Um adolescente, alguém com mais de 50 anos de idade e um ancião com mais de 80 anos de idade.

O município de Santa Amélia, no Norte Pioneiro, teve em 2016 uma taxa de 54,8 óbitos de fome por 100 mil habitantes. Entre as mais altas do estado. Com 3,6 mil habitantes, e comparando com a capital, bem menos pessoas falecem lá todos os anos. Em 2016, o município perdeu 32 moradores, dos quais apenas 13 estavam dentro dos limites da cidade quando vieram a óbito. Entre os 13, dois anciãos com mais de 80 anos. Isso se repetiu em 2015, 2014 e 2013.

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