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Presidente Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante passeata de campanha em setembro de 2018, em Juiz de Fora: desde então, ele usa uma bolsa de colostomia que agora será retirada. | Raysa Leite/AFP
Presidente Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante passeata de campanha em setembro de 2018, em Juiz de Fora: desde então, ele usa uma bolsa de colostomia que agora será retirada.| Foto: Raysa Leite/AFP

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) se interna neste domingo (27) no Hospital Albert Einstein para iniciar os preparativos da cirurgia de reconstrução do trânsito intestinal a que se submeterá na manhã de segunda-feira (28). O avião presidencial pousou em São Paulo às 10 horas e Bolsonaro deu entrada no hospital às 10h34.

Fazem parte da comitiva dele a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, e o porta voz do governo, general Otávio Santana do Rêgo Barros. Bolsonaro não falou com a imprensa na chegada.

Segundo o cirurgião Antônio Luiz Macedo, que acompanha a recuperação de Bolsonaro, o procedimento será feito sob anestesia geral e deve levar cerca de três horas. Ele diz que o presidente permanecerá internado no hospital por pelo menos dez dias – o vice Hamilton Mourão assumirá a Presidência durante a cirurgia e nas 48 horas após o procedimento.

Além de Macedo, outros oito profissionais vão participar do procedimento: dois cirurgiões auxiliares, uma instrumentadora, dois anestesistas, uma enfermeira e dois técnicos de enfermagem.

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Bolsonaro estará liberado para trabalhos burocráticos depois de duas semanas da cirurgia. “Mas sem carregar peso, reuniões, ficar atrás de computador. A agenda completa, geralmente, só após três semanas a um mês, no máximo”, diz o gastrocirurgião Wagner Marcondes, que trabalha há mais de uma década ao lado de Macedo e que também atuará na operação.

Como será a operação?

A cirurgia consiste em abrir o abdome e religar as duas pontas do intestino grosso que hoje estão separadas para que o trânsito intestinal volte ao normal. A sutura será feita com grampeador cirúrgico e pontos manuais, segundo Marcondes.

Com isso, Bolsonaro deixará de usar a bolsa coletora de fezes, adotada desde setembro, quando foi esfaqueado durante campanha em Juiz de Fora (MG) e teve os intestinos grosso e delgado perfurados.

Para isolar as áreas lesionadas da passagem de fezes, o intestino foi separado. Uma ponta ficou exteriorizada até a pele para saída das fezes pela bolsa coletora. E a outra ponta ficou fechada dentro.

O procedimento envolverá um corte de 30 cm a 40 cm, exatamente no mesmo lugar da cicatriz resultante das duas cirurgias anteriores. O orifício onde hoje está a bolsa de colostomia também será fechado. O presidente ficará, então, com duas cicatrizes no abdome.

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“Os riscos envolvidos são muito menores do que quando eu o operei em 12 de setembro, com uma peritonite grave, com grande contaminação. Era muito mais grave. Agora os riscos são menores, mas sempre existe risco em qualquer tipo de cirurgia”, disse Macedo.

Segundo Wagner Marcondes, é preciso levar em conta que Bolsonaro, apesar de todo o ocorrido, é bem proativo, disposto e forte fisicamente. “Isso deve resultar numa recuperação mais precoce.”

A reportagem apurou que na noite deste domingo, o presidente iniciará o jejum e receberá laxantes para a limpeza intestinal, além de antibióticos para reduzir a quantidade de bactérias que normalmente habitam o intestino grosso.

Como a limpeza intestinal tende a desidratá-lo, em razão da perda de minerais como sódio, potássio e magnésio, a recomendação é que ele receba soro na veia.

Possíveis complicações

Bolsonaro também deve fazer exames pré-cirúrgicos, de sangue e de imagem, para que sejam avaliadas as condições gerais do organismo e, em especial, a do intestino grosso. Segundo três gastrocirurgiões ouvidos pela reportagem, só quando o abdome estiver aberto é que será possível verificar claramente o grau de aderências na região.

Por causa dos ferimentos e dos procedimentos anteriores, é possível que haja alças intestinais grudadas entre si ou na parede abdominal.

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O primeiro passo, então, será desgrudar esses tecidos. “Quanto mais aderências, mais a cirurgia pode demorar. Se a situação estiver favorável, pode levar três horas. Senão, de seis a 12 horas”, explica Diego Adão Fanti Silva, cirurgião do aparelho digestivo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Depois da cirurgia, o presidente receberá mais antibióticos para evitar o risco de infecções.

Medicação anticoagulante e meias elástica também estão indicadas para evitar o risco de trombose e de sangramento, segundo Carlos Walter Sobrado, professor de coloprotoctologia da Faculdade de Medicina da USP. As meias, aliás, já devem ser colocadas durante a cirurgia, conectadas a compressor pneumático.

A dieta do presidente após a cirurgia deve consistir inicialmente de água, sucos, chás e gelatina. Se houver boa aceitação, poderão ser introduzidos purês e sopa. Os primeiros roncos na barriga e gases sinalizarão que o intestino ensaia o funcionamento. Com quatro a cinco dias, espera-se que o trânsito intestinal esteja restabelecido e que o presidente comece a evacuar.

Riscos envolvidos

O maior risco, porém, pode ocorrer nas semanas seguintes à cirurgia. Pelo fato de o intestino grosso ter pouca vascularização, não são infrequentes problemas de cicatrização.

O mais temível é a fístula, ou seja, uma abertura no local suturado. É o popular “o ponto abriu”. “A gente costuma brincar que nenhum cirurgião dorme tranquilo nos primeiros 15 dias após uma cirurgia desse tipo”, diz Fanti Silva. Os riscos variam de 5% (em pacientes com boas condições de saúde, como as de Bolsonaro) a 20% (diabéticos e desnutridos, por exemplo).

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Segundo Sobrado, o risco maior de fístula ocorre na primeira semana após a cirurgia, quando o paciente começa a evacuar. Mas também pode acontecer um pouco mais tardiamente, a depender das condições do paciente. Um idoso, diabético ou fumante tendem a ter pouca vascularização nos tecidos, o que favorece uma má cicatrização.

“Já tive paciente que fez fístula com 21 dias após a cirurgia. Isso não é culpa do cirurgião ou do material utilizado. É um risco intrínseco a uma cirurgia de intestino grosso”, afirma Fanti Silva.

Se houver rompimento da sutura e vazamento de fezes na cavidade abdominal, é preciso abrir novamente o paciente. “Aí a gente perde tudo o que foi foi feito. É preciso refazer a colostomia”, explica Sobrado.

Nos próximos seis meses após a cirurgia, também há riscos de surgimento de hérnia incisional na parede abdominal. Segundo Wagner Marcondes, o risco de hérnia é consequência do tecido fragilizado em razão  de três operações seguidas no mesmo lugar.

Por isso é altamente recomendável que o paciente não faça esforço físico no primeiro mês após o procedimento.

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