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Primeiro deputado federal cego, Felipe Rigoni sonha ser presidente da República | Reprodução/Facebook
Primeiro deputado federal cego, Felipe Rigoni sonha ser presidente da República| Foto: Reprodução/Facebook

O deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES) quebrou a mesmice do plenário da Câmara na quarta-feira (20). Em meio a discursos que costumam ser solenemente ignorados pelos colegas, o parlamentar conseguiu manter a atenção dos espectadores e, ao fim da sua fala, foi aplaudido como raramente ocorre no Congresso. Recebeu apartes e saudações de membros de diferentes partidos.

A fala que prendeu o interesse dos deputados foi uma espécie de apresentação de Rigoni ao Congresso e também à sociedade. Rigoni tem 27 anos, está em seu primeiro mandato eletivo e é o primeiro cego a chegar ao cargo de deputado federal. No pronunciamento, ele destacou sua trajetória: é engenheiro de produção formado pela Universidade Federal de Ouro Preto e concluiu recentemente um mestrado em Oxford (Inglaterra) - e pediu aos deputados mais qualidade na atuação política.

ASSISTA:Confira na íntegra o discurso do deputado Felipe Rigoni (PSB-ES)

“Enquanto a gente fica aqui obstruindo projetos só para marcar posição política, 60 milhões de brasileiros estão endividados e quase 13 milhões estão desempregados. Enquanto a gente defende projetos de interesse pessoal, que sequer sabemos se fazem sentido ou não, 100 milhões de brasileiros não têm esgoto coletado, quiçá tratado. Enquanto a gente fica fazendo oposição pela oposição ou situação pela situação, tem cerca de 1 milhão e meio de jovens fora da escola. Acredito que não foi para esse tipo de atitude que os brasileiros depositaram suas esperanças em nós no ano passado”, declarou.

Impacto

Um dia após o discurso, Rigoni falou com exclusividade à Gazeta do Povo. O deputado disse ter ficado “feliz e surpreso” com o impacto de seu primeiro pronunciamento na Câmara. E sonha ir além para, um dia, quem sabe ocupar a cadeira de presidente da República.

“A Câmara, normalmente, não se cala para o discurso de um deputado. Fiquei feliz não só porque fui bem recebido, mas porque as pessoas parecem ter entendido, com um pouco mais de profundidade, que independente da nossa posição política, se é direita, se é esquerda, temos que fazer o Brasil andar”, declarou.

A ideia de “fazer o Brasil andar” figura nas prioridades de Rigoni como deputado. Ele define como três seus principais eixos de atuação: “a construção de uma gestão pública eficiente e inovadora; a promoção da igualdade de oportunidades, principalmente através da educação básica e de políticas de inclusão social; e o desenvolvimento sócio-econômico”.

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Rigoni acredita que o Brasil precisa de avanços em infraestrutura - “que está em cacos no país” - e no campo de ciência e tecnologia. “O Brasil precisa criar um ambiente positivo para investimentos, públicos e privados, em ciência e tecnologia. A gente pode dar um salto se realmente investirmos nessa área. É uma política de longo prazo, mas é o que vai fazer as coisas andarem”, destacou. As prioridades vão se traduzir também em seu posicionamento dentro da Câmara: ele vai integrar as comissões de Educação, de Ciência e Tecnologia e de Finanças e Tributação.

A busca pela distribuição de mais oportunidades aos brasileiros se relaciona ao trabalho com as pessoas com deficiência, grupo do qual Rigoni faz parte. Na avaliação do deputado, a falta de conhecimento da maior parte dos parlamentares sobre o tema tem levado a decisões erradas no Congresso. A atuação da senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP), que é cadeirante e foi deputada federal por oito anos, é mencionada por Rigoni como algo que proporcionou uma grande melhora no debate sobre o assunto.

A senadora Mara Gabrilli, ao centro, cercada de outras colegas da ‘bancada feminina’ no Senado.Marcos Oliveira/ /Agência Senado

Além do desconhecimento, Rigoni cita outro problema que prejudica a qualidade das políticas públicas para as pessoas com deficiência: as disputas internas que existem no segmento. “É um pouco polêmico, mas é importante dizer que no mundo da deficiência também tem briga por poder, também tem briga por um monte de coisas”, disse. Um dos efeitos dessas disputas, segundo Rigoni, é a presença de lobbies de instituições de educação especial que buscam impedir o avanço da inclusão das pessoas com deficiência na rede comum de ensino.

“O deficiente precisa ser educado na escola comum. Claro que com adaptações, com recursos e apoio, mas na escola comum. Porque senão ele vai ser sempre tutelado e não vai evoluir. Isso é mais difícil de fazer, mas é muito melhor”, destacou.

Posicionamento político

Rigoni foi o segundo mais votado para o cargo de deputado federal no Espírito Santo. Com 84.405 votos, ele ficou atrás apenas de Amaro Neto (PRB). Além da trajetória e das propostas, o parlamentar identifica outro componente decisivo para a sua vitória eleitoral: a participação no RenovaBR e no Acredito, movimentos de qualificação política que marcaram posição no cenário eleitoral na disputa de outubro. “Sem eles eu não teria sido candidato a deputado federal e não teria sido eleito”, afirmou.

O vínculo com o Acredito leva Rigoni a ter uma atuação compartilhada com outros dois parlamentares ligados ao movimento que também estão estreando no Congresso em 2019: o senador Alessandro Vieira (PPS-SE) e a deputada Tabata Amaral (PDT-SP).

Na eleição presidencial, Rigoni foi de Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno e, no segundo, votou em branco. “Não acreditava que nenhum dos dois [Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT] era capaz de levar o Brasil para o patamar que precisamos”, disse.

O deputado considera que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) não foi vítima de um “golpe” com o processo de impeachment de 2016: “o impeachment tinha que ter acontecido. Mas também não foi o processo mais honroso que eu já vi acontecer no nosso país, já que tinha muita coisa envolvida. Mas não foi golpe. Houve crime de responsabilidade”.

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O deputado disse considerar “muito boa” a proposta de reforma da previdência apresentada nesta semana pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL). Ele faz só duas ressalvas ao projeto: a não inclusão dos militares e a modificação das regras do acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é pago às pessoas com deficiência e aos idosos de baixa renda. “Essa alteração traz uma economia irrisória e um impacto muito grande na vida das pessoas. Não faz sentido”, declarou.

Quanto ao seu futuro político, Rigoni disse que a meta de momento é “ser o melhor deputado que eu consigo ser”. Mas ele destaca ter ambições maiores: “ninguém tem um esforço tão grande para ser um político para atuar apenas por um mandato. Eu quero, sim, me preparar para estar no Executivo, e sonho, um dia, com a presidência da República. Mas isso é uma construção muito a longo prazo, que eu nem penso por agora”.

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