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| Foto: José Cruz/Agência Brasil

Os dados e as projeções econômicas melhoram um pouco a cada semana. Tudo muito lento e quase imperceptível para a maioria da população, até porque o indicador mais importante de todos revela que ainda há 13,3 milhões de brasileiros em busca de emprego. Apesar dos poréns, deputados do PSD decidiram que o cenário é bom o suficiente para “lançar” a candidatura do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, à Presidência da República.

A ideia é apresentá-lo como responsável pela recuperação da atividade econômica, que, segundo as previsões do mercado, será bem mais evidente em 2018, ano das eleições. A tendência é de que o PIB esteja crescendo mais, com menos desemprego, juros mais baixos e inflação sob controle. Mas isso não quer dizer que será simples tornar o ministro um candidato viável.

Meirelles é bem quisto pelo mercado financeiro, o que não é necessariamente uma vantagem, dada a antipatia do eleitorado por esse setor. Também é o principal responsável pelo ajuste fiscal e pela reforma da Previdência, o que desafia a popularidade de qualquer um.

Ainda que no médio e longo prazo essas medidas sejam benéficas para as contas públicas e para a economia como um todo, elas enfrentam forte rejeição – 73% da população é contra as mudanças na aposentadoria, segundo levantamento do instituto Paraná Pesquisas. Não faltarão concorrentes tentando colar no ministro a pecha de “inimigo da aposentadoria”.

A eventual candidatura enfrentará outros obstáculos. O eleitor vem dando sinais de que quer alguém de fora do circuito convencional do poder. Não é o caso de Meirelles. Ele também é velho demais para os padrões do eleitor brasileiro. E tem cabelo de menos, segundo esses mesmos padrões.

O ministro terá 73 anos na época da eleição, e os brasileiros jamais elegeram um presidente dessa idade. Tancredo Neves foi eleito aos 74, mas indiretamente, pelo Colégio Eleitoral. Michel Temer foi o mais velho a assumir o cargo, aos 75 anos, mas concorreu como vice de Dilma Rousseff, e não como candidato a presidente.

Ao mesmo tempo, o eleitor brasileiro parece não ter muito apreço pelos calvos. O único careca eleito em toda a história da República foi o marechal Hermes da Fonseca, em 1910.

Adversários podem tentar explorar a ligação entre Meirelles e os irmãos Batista, que estão presos em decorrência do esquema criminoso da JBS. Embora não haja menção ao ministro nas investigações, ele trabalhou para o grupo por quatro anos antes de assumir o Ministério da Fazenda.

Virou vidraça

O lançamento informal da candidatura pela bancada do PSD na Câmara foi visto como um erro estratégico por parte partido, incluindo o presidente da sigla, Gilberto Kassab, que é ministro das Comunicações.

A avaliação é de que Meirelles foi colocado cedo demais na vidraça e ficará mais sujeito a atritos com partidos que pretendem disputar o Palácio do Planalto, o que pode atrapalhar a negociação da reforma da Previdência e de outras medidas de ajuste fiscal.

O mundo político já reage. João Doria (PSDB), prefeito de São Paulo, que já não esconde a pretensão de concorrer em 2018, mandou seu recado semanas atrás: “Quero ressaltar o bom trabalho que o ministro Meirelles vem fazendo à frente do ministério, que espero que continue a fazer e não se contamine pela questão política. Não é hora, tem tempo para isso”, recomendou.

Por outro lado, o presidente nacional do PMDB e líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), declarou nesta terça (26) que Meirelles “é um excelente quadro para qualquer partido”. “Mas é claro que isso será conversado com todos os partidos da base aliada”, disse Jucá, na saída de um evento no Palácio do Planalto.

O próprio ministro declarou publicamente que não é pré-candidato e que está concentrado em seu trabalho na Fazenda, “para colocar o Brasil na rota do crescimento sustentado”, conforme escreveu semanas atrás no Twitter. Mas tem feito movimentos que lhe dão mais visibilidade. A própria estreia no microblog, em junho, foi um deles.

Meirelles tem usado a ferramenta para reiterar que o país saiu da recessão, divulgar números positivos da economia e defender a importância das reformas e de outras iniciativas do governo, como a mudança na taxa de juros do BNDES.

O ministro também tenta ganhar a confiança do público evangélico, que responde por quase 30% do total de eleitores, segundo levantamentos do Datafolha. Já participou de cultos e encontros de fiéis, e recentemente enviou a pastores da Assembleia de Deus um vídeo em que pede orações pela economia brasileira.

“Me sinto muito à vontade para conversar com vocês, porque nós temos os mesmos valores, que são os valores da lei de Deus e dos homens, visando crescer, visando colaborar com o país. Portanto, preciso da oração de todos”, disse.

Carreira no mercado financeiro

Meirelles vem de uma família de políticos goianos e na juventude chegou a participar do movimento estudantil. Mas depois se afastou da política. Formado em Engenharia Civil, passou a maior parte da vida no setor financeiro, em especial no BankBoston. Foi presidente mundial do banco de 1996 a 2002.

Aposentado do banco, voltou ao Brasil e começou sua carreira pública para valer em 2002, quando se elegeu deputado federal pelo PSDB. Foi o candidato mais votado de Goiás, com 183 mil votos. Mas não chegou a assumir a cadeira na Câmara, pois no início do ano seguinte foi nomeado para a presidência do Banco Central, cargo que ocupou durante todo o governo Lula, de 2003 a 2010. No BC, ganhou fama e críticos por seu papel como guardião da política monetária, quase sempre marcada por juros altos para combater a inflação.

De volta à iniciativa privada, exerceu cargos de liderança no grupo J&F, controlador do frigorífico JBS, entre 2012 e 2016. Foi presidente do conselho de administração do conglomerado e, no ano passado, por alguns meses, presidiu o Banco Original, pertencente ao grupo, antes de ser nomeado ministro da Fazenda de Michel Temer.

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