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Uma das últimas imagens da família imperial brasileira foi registrada por Otto Hees, em meados dos anos de 1890:. Da esquerda para a direita estão a imperatriz Dona Teresa Cristina, D. Antônio, a princesa Isabel, o imperador, D. Pedro Augusto (filho da irmã da princesa Isabel, d. Leopoldina, duquesa de Saxe), D. Luís, o conde d’Eu e D. Pedro de Alcântara | Otto Hees/Reprodução / WikiCommons
Uma das últimas imagens da família imperial brasileira foi registrada por Otto Hees, em meados dos anos de 1890:. Da esquerda para a direita estão a imperatriz Dona Teresa Cristina, D. Antônio, a princesa Isabel, o imperador, D. Pedro Augusto (filho da irmã da princesa Isabel, d. Leopoldina, duquesa de Saxe), D. Luís, o conde d’Eu e D. Pedro de Alcântara| Foto: Otto Hees/Reprodução / WikiCommons

Por que ainda existe a família imperial brasileira? A resposta é simples: porque quem é rei nunca perde a majestade. Pelo menos é assim que pensam as famílias que já foram reais. Em muitos países do mundo que costumavam ser regidos por monarquias, este é um costume muito comum: os descendentes dos antigos monarcas insistem em manter seus títulos. Chegam a listar quem seria o rei hoje, e qual é a linha sucessória com os nomes dos candidatos a assumir o trono inexistente depois de sua morte.

É assim na França, na Itália, na Alemanha, na Rússia (onde, aliás, uma pesquisa de opinião recente aponta que 28% das pessoas se declara a favor da restauração do antigo regime, destituído há exatos cem anos). O Brasil não foge à regra. Temos uma família real até hoje, e ela está dividida em dois ramos que brigaram feio em 1908.

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“É muito comum antigas famílias reais no mundo todo se comportarem como se ainda estivessem no poder. Usando uma expressão do sociólogo Pierre Bourdier, a hereditariedade é uma espécie de capital simbólico”, explica Fernando Luis Schuler, cientista político e professor do Insper, de São Paulo. “É um tipo de poder que se converte em outras áreas da vida social e gera uma atratividade de mídia”.

Petrópolis x Vassouras

Tivemos dois imperadores, Dom Pedro I e Dom Pedro II. Na sequência, teríamos tido uma rainha em 1891, quando o rei do Brasil faleceu. Mas a família já estava no exílio desde 1889. Isabel, a filha mais velha que chegou à idade adulta, estava estabelecida na França com o marido, o conde d’Eu, e os três filhos, Pedro de Alcântara, Luís e Antônio. Esses três homens tinham a responsabilidade de dar sequência à linhagem real brasileira, mesmo o país já sendo uma república.

Antônio foi tenente do império Austro-Húngaro e participou da Primeira Guerra Mundial como aviador pela Inglaterra. Faleceu em 1918, sem deixar filhos. Já Pedro, o mais velho, teve cinco filhos com a tcheca Elisabeth de Dobrzenicz. Acontece que Elisabeth não era tinha títulos de nobreza suficientes para se casar com um príncipe – era apenas uma condessa.

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Em 30 de outubro de 1908, Pedro renunciou a qualquer direito ao trono imaginário: “Eu o Principe Dom Pedro de Alcantara Luiz Philippe Maria Gastão Miguel Gabriel Raphael Gonzaga de Orleans e Bragança, tendo maduramente reflectido, resolvi renunciar ao direito que pela Constituição do Imperio do Brazil promulgada a 25 de Março de 1824 me compete à Corôa do mesmo Paiz.”

Na sequência, casou-se em Versalhes, na França. Voltou ao Brasil em 1920, quando o governo extinguiu o exílio obrigatório da família. Morreu em 1940, em Petrópolis. Foi quando a divisão da família se agravou.

Acontece que Luís, desde 1908 o sucessor do trono brasileiro, deixou três filhos, apesar de ter morrido jovem – faleceu em 1920, em consequência de uma doença óssea que o havia atacado em 1915, quando ele lutava nas trincheiras de Flandres, na França, durante a Primeira Guerra.

Depois de voltar da Europa, seu ramo se instalou em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, depois de uma temporada vivendo na cidade de Jacarezinho, no Paraná. Não fosse a proclamação da República, o filho mais velho, Dom Pedro Henrique, teria sucedido Luís e sido nosso quinto rei, o imperador Pedro III, entre 1921 e 1981.

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Mas Pedro, o irmão que renunciou, ainda viveu até 1940 e concedeu entrevistas contraditórias sobre a sucessão. Quando ele morreu, seus descendentes, que viviam em Petrópolis, conseguiram estabelecer que só eles teriam direito ao laudêmio, a taxa que os habitantes da cidade carioca pagam para a família real. O laudêmio foi estabelecido no século 19 porque todo o centro de Petrópolis foi construído na área da Fazenda do Córrego Seco, que pertencia a Dom Pedro I. Até hoje, todas as transações imobiliárias no centro da cidade são taxadas em 2,5%.

Um projeto de lei que tramita na cidade desde 2014 pede o fim do pagamento. Enquanto o projeto não é avaliado, o ramo continua gerenciando esse dinheiro por intermédio da Companhia Imobiliária de Petrópolis. O ramo de Vassouras, que oficialmente teria direito ao trono, continua sem ver um centavo desse dinheiro.

Príncipe moderno

No ramo de Dom Pedro, muitos dos atuais descendentes não concordam com a renúncia de 1908. Afinal, não havia um trono para se abrir mão, nem a carta do príncipe foi protocolada e devidamente reconhecida por autoridades civis brasileiras. Dos homens deste ramo da família, caso a renúncia fosse desconsiderada, Pedro de Alcântara Gastão de Orléans e Bragança teria herdado o trono e seria o rei até morrer, em 2007. Teria sido seguido por Pedro Carlos, mas ele se casou, duas vezes, com mulheres que não são da nobreza – o que reabriria a polêmica.

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Foi Pedro Carlos, aliás, que em 2011 vendeu para o Museu Imperial de Petrópolis a pena dourada usada pela princesa Isabel para assinar a Lei Áurea, que acabou com a escravidão no país. E, em abril deste ano, mudou-se do palacete imperial de Petrópolis para um apartamento no distrito de Itaipava, e por isso vendeu um lote de objetos antigos da família. O leilão teve itens de lances mínimos variando entre R$ 4 mil e R$ 40 mil.

Mas o sucessor mais popular dessa parte da família é outro: o príncipe Dom João. Ele vive em Paraty, onde trabalha como fotógrafo e mantém uma imobiliária e a Pousada do Príncipe. Surfista, já pegou onda na Indonésia e mantém, desde a década de 1970, uma relação muito próxima com os índios Xingu. Todos os anos, oferece um almoço aos escritores presentes à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

Leia a entrevista com Dom João

Publicou livros com suas fotografias, incluindo um sobre o Piauí, resultado de uma viagem de carro pelo sertão. Teve contato com moradores da periferia de São Luís, no Maranhã, e com descendentes de escravos em Trajano de Moraes, no interior do Rio de Janeiro. É defensor dos direitos dos portadores de necessidades especiais – ele tem uma filha com síndrome de Down que é também escritora.

Príncipe tradicional

Já o ramo de Dom Luís, o filho que não renunciou, é conduzido por dois de seus netos, Dom Luiz Gastão, de 79 anos, e Dom Bertrand, de 76. Os dois vivem juntos numa residência alugada no bairro do Pacaembu, em São Paulo. Mantêm a Casa Imperial, a instituição que, oficialmente, opera como a porta-voz da monarquia brasileira – Dom Bertrand tem atuado como porta-voz oficial da dupla porque a saúde de Dom Luiz é debilitada. Os dois vivem com ajuda de doação dos monarquistas – alguns deles são voluntários que cozinham, atendem o telefone e a porta e fazem a faxina. São historicamente ligados à Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Bertrand publicou em 2012, o livro Psicose Ambientalista, em que faz críticas aos movimentos sem-terra e aos grupos ambientalistas.

Leia a entrevista com Dom Bertrand

Para esse ramo, o terceiro homem na linha de sucessão seria Dom Antônio, irmão de Luiz e Bertrand. O quarto é Dom Rafael, um príncipe de 31 anos, o segundo filho de Dom Antônio. O irmão mais velho de Rafael, Pedro, morreu em 2009, no acidente da Air France que partia do Rio de Janeiro rumo a Paris.

Petrópolis e Vassouras têm, em geral, posturas políticas muito diferentes (leia as entrevistas com Dom Bertrand e Dom João para entender melhor). Mas, dos dois lados, com ou sem laudêmio, os bisnetos, trinetos e tataranetos da princesa Isabel trabalham para viver. São economistas, químicos, engenheiros de produção, advogados, psicólogos, arquitetos.

Eles continuam procurando pessoas da nobreza para se casar, uma tradição que os mantém próximos da realeza global. Dom João, por exemplo, é filho de uma princesa egípcia, Fátima Scherifa Chirine, e primo de Juan Carlos, rei da Espanha até 2014. Já dona Maria, mãe de Luiz, Bertrand e Antônio, era neta do último rei que governou a Alemanha. A própria princesa Isabel, no século 19, havia ligado a casa de Bragança aos Orleans, antigos reis franceses, ao se casar com o conde d’Eu.

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São dezenas de pessoas, de todas as idades, que seguem à espera do dia em que os Orleáns e Bragança voltarão a ser realeza de fato.

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