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| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Filas quilométricas à espera de uma bomba livre no posto de combustível mais próximo – ou não tão próximo assim – se tornaram cenas comuns em todas as cidades brasileiras na última semana. O temor pelo desabastecimento provocado pela greve dos caminhoneiros levou a uma corrida aos postos em busca de gasolina. E esse combustível – que não estava na pauta dos grevistas, que arrancaram do governo a promessa de baixar em R$ 0,46 o preço do diesel – ficou com os preços nas alturas. A questão é: quando ela vai ficar mais barata?

A gasolina, que seguia a mesma política de reajustes diários de preço da Petrobras usada para o diesel, disparou nos postos em meio à drástica redução na oferta. Com tanta gente querendo encher o tanque a qualquer custo, alguns estabelecimentos chegaram a cobrar R$ 10 pelo litro do combustível no auge da crise. Para esses postos, o castigo veio a galope: Procons estaduais aplicaram multas e, inclusive, fecharam algumas das lojas que abusaram. Mas o preço subiu e não dá sinais de que vai recuar.

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Em 3 de maio, antes da greve, o preço de venda de gasolina das refinarias para distribuidoras foi de R$ 1,79 por litro, sem impostos. Esse custo subiu até chegar a R$ 2,09 no dia 22 – um aumento de 16,6%. Com a crise crescente, agravada pela manifestação dos caminhoneiros, e um leve recuo dos preços do petróleo lá fora, a Petrobras foi diminuindo aos poucos o preço na refinaria – chegou a cobrar R$ 1,95, no dia 29 de maio. A partir desta terça-feira (5), o valor será de R$ 2.

As pesquisas semanais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, do início de maio ao fim da greve, o porcentual de aumento repassado pelos postos ao consumidor foi inferior ao reajuste acumulado promovido pela Petrobras – está na casa de 9% (confira a evolução dos preços durante a paralisação dos caminhoneiros). Em compensação, os recuos anunciados pela estatal também não aparecem na bomba. E esse esforço pode demorar meses para surtir efeito concreto, apontam especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo.

O professor de finanças da FGV Rafael Schiozer pondera que em um cenário de curtíssimo prazo é muito difícil fazer qualquer previsão: isso depende de quão rapidamente os postos vão garantir o reabastecimento e também do ritmo de demanda da população, que segue desconfiada e querendo ficar com o tanque cheio.

“Não tem nada muito sistemático que explique as pequenas variações de curtíssimo prazo. Agora, olhando para um prazo mais longo, de alguns meses, a tendência do preço do barril de petróleo é cair um pouco”, aponta. No mercado futuro, o barril de petróleo é vendido por até US$ 60 para entrega daqui a seis meses – abaixo, portanto, das cotações atuais, próximas de US$ 75. O problema, nesse cenário, é que não adianta o valor do barril cair se o dólar continuar a se valorizar perante o real.

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Para Adilson de Oliveira, professor da UFRJ, se a Petrobras seguir com a política de reajuste de preços diários, a perspectiva de uma queda significativa do preço da gasolina nas bombas é baixa, a menos que o câmbio e o preço do petróleo tenham quedas significativas. “Se isso não mudar, a gasolina vai ficar com o preço oscilando e, no curto prazo, não tem nenhuma chance de se reduzir”, analisa.

No cenário internacional, ainda há a situação geopolítica que influencia – e muito – no preço da gasolina por aqui. A instabilidade na Venezuela é um fator preocupante, mas mais grave é a posição do Irã e seu acordo nuclear, que é o que mais pressiona o valor do petróleo no mercado internacional. Se não houver mudança significativa nesses quesitos, a oscilação por aqui vai continuar.

A decisão do governo de manter a política de preços dos combustíveis alinhada ao mercado internacional pode ser revista – e será, ao que tudo indica. Na opinião de Oliveira, o governo deveria criar mecanismos que protejam a economia brasileiras dessas flutuações e câmbio variante. Schiozer vai na mesma linha: para ele, a Petrobras pode revisar a política de preços, não no sentido de absorver perdas, mas de promover reajustes mais espaçados, a cada semana ou mês, com base em uma média.

E para embolar ainda mais tudo isso, há o fator político, das eleições presidenciais, que influencia todo o cenário, principalmente em relação ao dólar. Gasolina barata parece um sonho distante.

Como os preços variaram durante a greve

Pesquisas da ANP mostram que antes de a greve começar o preço médio da gasolina vendida ao consumidor era de R$ 4,28 por litro – isso na semana entre 13 e 19 de maio. O levantamento semanal da agência já indicava um viés de alta no preço da gasolina – do final de março até a segunda semana de maio o preço médio variou de R$ 4,20 para R$ 4,26. Esses valores acompanhavam o valor médio das distribuidoras – que passou de R$ 3,80 para R$ 3,88 nesse período.

Foi quando a crise ficou aguda que os dois valores descolaram. Na primeira semana da mobilização dos caminhoneiros, entre 20 e 26 de maio, o preço médio da gasolina no Brasil era de R$ 4,44 – segundo a ANP, a variação de valor mínimo e máximo ficou entre R$ 3,50 e R$ 5,46. O preço médio das distribuidoras ficou em R$ 3,99, variando entre R$ 2,99 e R$ 4,84.

Na segunda semana de greve, entre 27 de maio e 2 de junho, além de os preços subirem ainda mais, a quantidade de estabelecimentos pesquisados pela ANP caiu muito – da média de 5,7 mil postos consultados em todo o país, passou para apenas 485. O valor médio de venda da gasolina para o consumidor foi de R$ 4,61 – variando entre R$ 3,90 e R$ 5,40. A alta também ocorreu nas vendas das distribuidoras, cujo preço médio foi de R$ 4 – entre R$ 3,49 e R$ 4,84.

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Em Curitiba, por exemplo, no início de maio a gasolina era vendida a R$ 3,98, na média dos 53 estabelecimentos consultados pela ANP – a variação de valores ficava entre R$ 3,84 e R$ 4,30. Já nas distribuidoras, o preço médio do combustível era de R$ 3,75. Na última semana, entre 27 de maio e 2 de junho, o preço médio na cidade saltou para R$ 4,40, variando entre R$ 4,30 e R$ 4,50, mas a ANP só conseguiu consultar três postos. Nas distribuidoras, o valor médio da gasolina era de R$ 3,93. Nesse caso, é possível notar que a margem média dos postos também cresceu com a crise: se antes da greve, a diferença entre o preço da distribuidora para o da bomba no posto ficava na casa dos R$ 0,22, com a greve essa margem saltou para R$ 0,47.

Na capital paranaense, ainda foi possível acompanhar a evolução do custo da gasolina por meio do aplicativo Menor Preço, do governo estadual, em que consumidores podem cadastrar notas fiscais dos postos em que abastecem o carro. Ali, no auge da greve, há oito dias, houve quem pagasse R$ 6,50 no litro da gasolina aditivada. Há muitas notas com valores de litro entre R$ 4,50 e R$ 5,50, por exemplo. Antes da paralisação, o custo ficava na casa dos R$ 3,90.

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