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| Foto: Nelson Almeida/AFP

Até a divulgação dos grampos da JBS, a permanência de Michel Temer no cargo era vista por muitos analistas como positiva para a economia. E sua saída, uma ameaça à sutil recuperação notada em um ou outro setor. Nas últimas semanas, no entanto, vem crescendo a percepção de que a eventual queda do presidente – que começa a ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira (6) – pode não fazer tanta diferença.

Isso vale tanto para o andamento das reformas quanto para a recuperação da atividade econômica. A questão é que a principal mudança na legislação, a da Previdência, está ameaçada de qualquer forma, mesmo com Temer continuando no poder. E, exceto pela retomada do investimento privado, que ficou muito mais difícil em meio à incerteza política, o comportamento da economia já não depende tanto do presidente.

Mais importante, dizem economistas ouvidos pela Gazeta do Povo, é a manutenção da política econômica implementada após a posse de Temer, que contribuiu para quedas significativas na inflação e nos juros.

Tal continuidade depende, é óbvio, do eventual sucessor do peemedebista. Algumas consultorias, corretoras e bancos têm sustentado que, mesmo que Temer deixe o cargo, é pequena a possibilidade de uma guinada radical na linha de atuação do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Talvez isso explique por que, passado o choque inicial, o mercado financeiro esteja trabalhando como se não houvesse grande coisa em jogo.

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Ministro da Fazenda importa mais

“Vejo uma oposição extremamente fragilizada, pelo tamanho da crise na qual mergulhou o país com uma forma de gerir a economia oposta à atual. Acho bem relevante a chance de, respeitada a Constituição, com eleição indireta, o vencedor seja mais alinhado com as políticas que vêm reendereçando o crescimento econômico do que com as anteriores”, diz Adeodato Volpi Netto, estrategista-chefe da consultoria financeira Eleven Financial Research.

Mas nem todos têm essa convicção. O economista e cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília, diz que tudo depende de como ocorrerá a eventual saída de Temer.

“Se ele sair, será via impeachment, cassação, renúncia? Se for uma saída negociada, é uma coisa. Se for tumultuada, não há como saber [o rumo da economia].”

Para Caldas, hoje o ministro da Fazenda “talvez seja até mais importante do que o presidente”. O cientista político lembra que, no dia seguinte à revelação da conversa de Temer com o empresário Joesley Batista, Henrique Meirelles teria dito a investidores e aliados que está disposto a continuar na pasta mesmo que o presidente deixe o Planalto. “Mesmo deselegante, Meirelles mandou uma mensagem de estabilidade para o mercado”, diz.

Água quente já passa pelo cano

O ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, professor do Insper e sócio da consultoria Schwartsman & Associados, também aponta para a grande incerteza que ronda a sucessão. Mas avalia que a economia receberá alguns impulsos que não dependem do que acontece com a presidência da República.

“Manter o bom ritmo de crescimento econômico do primeiro trimestre é difícil. Mas é possível que tenhamos algum ritmo. Tem alguma água quente andando no cano. Mesmo que o Banco Central tenha avisado que vai cortar menos os juros, já houve uma queda expressiva na taxa real, e ela ainda deve cair mais um pouco. Eventualmente esse impulso chega à atividade.”

A corretora Gradual Investimentos também vê a economia andando com algum embalo próprio. “Em alguma medida o ajuste macroeconômico já foi feito e a economia segue, pelo menos até 2018, ‘blindada’ de distúrbios políticos”, disse nesta terça (6) o economista-chefe da casa, André Perfeito, em relatório enviado a clientes.

Menos investimentos. Nada de novo

O impacto mais forte da crise política – e da indefinição sobre quem ocupará a cadeira de presidente na próxima semana ou nos próximos meses – se dá sobre o investimento produtivo. Quem planejava ampliar instalações ou comprar máquinas novas deve esperar a poeira baixar para enxergar algum horizonte.

Mas a manutenção de Temer, por si só, não assegura uma reação. O investimento não melhorou nem mesmo no primeiro trimestre deste ano, quando a economia voltou a crescer após oito trimestres de baixa. Os gastos com máquinas, equipamentos e construção, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), foram equivalentes a 16,9% do PIB, o pior nível em pelo menos 21 anos.

Reforma ameaçada com ou sem Temer

Pelo lado das reformas, a trabalhista, já aprovada pela Câmara dos Deputados e agora em discussão no Senado, tem chances razoáveis de ser aprovada mesmo que o presidente seja deposto. De todo modo, seu efeito sobre a economia deve aparecer apenas no longo prazo, quando houver uma demanda mais firme por trabalhadores. Por enquanto, o desemprego continua perto do maior nível da história.

Quanto à reforma da Previdência, suas chances de avançar diminuem muito com a saída de Temer, o que é ruim para as contas públicas e pode levar o Banco Central a reduzir menos a taxa de juros. Um estímulo a menos para a recuperação da economia, portanto.

Por outro lado, não há qualquer garantia de que Temer, se mantendo no Planalto, consiga convencer 308 deputados a aprovar a PEC da Previdência. Ele não havia arregimentado todo esse apoio nem mesmo quando estava “firme” no cargo.

“É muito claro que o Temer ‘pós-evento Joesley’ tem menos capacidade de levar adiante o processo reformista. E, do jeito que as coisas estão se encaminhando, eu receio que quem quer que esteja no lugar dele vai, basicamente, lutar para não entrar na Lava Jato”, diz Alexandre Schwartsman. “Seja quem for [o presidente], a perspectiva reformista antes das eleições de 2018 é muito ruim.”

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