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Tragédia anunciada: número de barragens sob risco de ruptura no país cresceu 80%

Relatório da Agência Nacional de Águas aponta vulnerabilidade em 45 estruturas, contra 25 em levantamento anterior. Nesta sexta-feira, uma barragem de rejeitos da Vale se rompeu em Brumadinho (MG)

    • Da Redação, com Folhapress
    • 25/01/2019 19:28
    Segundo a Vale, o volume total de resíduos vazados em Brumadinho seria de 12 milhões de metros cúbicos, cerca de um terço do volume do rompimento ocorrido em Mariana (MG), em 2015. | Douglas Magno/AFP
    Segundo a Vale, o volume total de resíduos vazados em Brumadinho seria de 12 milhões de metros cúbicos, cerca de um terço do volume do rompimento ocorrido em Mariana (MG), em 2015.| Foto: Douglas Magno/AFP

    Relatório da Agência Nacional de Águas (ANA), que considera dados de 2017, revelou que ao menos 45 barragens do Brasil estão vulneráveis e podem apresentar risco de rompimento. Este número é maior do que o anunciado no relatório anterior, com dados de 2016, quando os reservatórios preocupantes eram 25.

    Nesta sexta-feira (25), uma barragem de rejeitos da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), se rompeu e outras duas transbordaram, atingindo casas de uma comunidade próxima e a área administrativa da mina Córrego do Feijão. Os reservatórios tinham classificação de “baixo risco” para possibilidade de haver algum desastre e rompimento da estrutura. Mesmo assim, o desastre aconteceu – cerca de 200 pessoas estão desaparecidas, segundo o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.

    O levantamento da ANA compila informações de todos os órgãos responsáveis por barragens no país. As estruturas ligadas à área mineração estão sob a tutela da Agência Nacional de Mineração (ANM), que repassa relatórios sobre suas barragens à Agência das Águas.

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    A maioria das barragens classificadas como vulneráveis pela agência estão no Nordeste, especialmente na Bahia e em Alagoas, e mais da metade (25) é de responsabilidade do poder público. Nove já eram consideradas de risco no relatório de 2017, indicando que nada ou muito pouco foi feito para recuperá-las.

    Os problemas citados são muitos: rachaduras, infiltrações, buracos, vertedores (que medem a vazão da água) quebrados e falta de documentação que comprove a segurança do reservatório.

    O balanço da ANA é o segundo produzido após o maior desastre ambiental da história recente do país, quando o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), sob responsabilidade da mineradora Samarco, provocou a morte de 19 pessoas e poluiu o rio Doce, em novembro de 2015. Em anos anteriores, a agência nacional tinha balanços sem a mesma classificação de barragens vulneráveis.

    No relatório mais recente, a fiscalização constatou que, em uma barragem de Camaçari, na Bahia, havia árvores e formigueiros comprometendo o equipamento. Já em Santa Bárbara, no Rio Grande do Sul, seriam necessários R$ 10 milhões para corrigir falhas na comporta e em outros componentes da estrutura.

    Dados subdimensionados

    Apesar do aumento de 80% no número de reservatórios considerados vulneráveis, a ANA diz acreditar que os dados são subdimensionados. Isso porque o relatório anual é feito a partir de informações fornecidas pelos órgãos fiscalizadores, e nem todos enviaram relatórios completos da situação.

    Muitos ainda nem terminaram de catalogar as barragens sob sua jurisdição, embora o cadastro tenha sido estabelecido por lei de 2010. Em 570 barragens não se sabe nem quem é o responsável – ou o “dono” – do reservatório.

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    O diagnóstico da agência é que, embora se tenha avançado bastante no cadastramento – em 2013 eram 4.437 registradas, contra 24.092 em 2017 –, ainda há muito a fazer nesse sentido. Em 76% dos casos não é possível saber se a barragem é submetida à Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB) por falta de informação a respeito do equipamento.

    Criada em 2010 por lei federal, a PNSB tem como objetivo garantir padrões de segurança que minimizem acidentes e os efeitos destes no meio ambiente e nas populações vizinhas às barragens. Não são todos os equipamentos, porém, que precisam se adequar ao estabelecido pela lei – o que não significa que outros reservatórios não precisem seguir padrões de segurança e conservação.

    Como critério, a PNSB especifica características de altura, capacidade de armazenamento de água, periculosidade dos resíduos e gravidade do dano social e ambiental em caso de rompimento.

    Faltam fiscais e alta rotatividade atrapalha

    Em tese, a fiscalização dos órgãos estaduais e federais – há 41 com potencial fiscalizador, mas só 33 efetivamente fiscalizam os equipamentos – é restrita aos reservatórios que se enquadram nos critérios da PNSB. Mas até para saber se as barragens têm as características estabelecidas pela lei é necessário, muitas vezes, que a equipe vá até o local fazer medições.

    Esse trabalho é prejudicado pelo pequeno número de fiscais. Em 2017, havia apenas 154 funcionários para fiscalizar todas as barragens do país – há 4.510 na PNSB –, entre estaduais e federais, e nove estados não fizeram nenhuma ação de fiscalização em todo o ano. Das barragens cadastradas, só 3% foram vistoriadas pelos órgãos fiscalizadores.

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    A lei não chega a prever punições a quem descumprir as recomendações, mas os estados podem emitir regulações específicas e aplicar multas.

    Para Fernanda Laus, que coordenou o relatório da ANA, mais que a equipe reduzida, o que atrapalha é a alta rotatividade dos funcionários. “O número de fiscalizadores nunca vai ser suficiente, mesmo porque aumentar a equipe de fiscalização aumenta o custo. O gargalo nem seria tanto a quantidade de técnicos que trabalham na fiscalização, mas a rotatividade da equipe. O técnico é treinado, se capacita. Daí com um ou dois anos ele sai. A maioria dos órgãos tem baixos salários. A pessoa procura outras alternativas”, diz.

    Falta de manutenção é outro problema

    Laus também critica o que chama de falta de consciência dos empreendedores, os “donos” das barragens. Eles podem ser os proprietários da terra onde estão os reservatórios ou quem explora o equipamento, seja para uso próprio (uma empresa de mineração, por exemplo) ou coletivo (abastecimento de água de uma cidade).

    Segundo ela, muitos não investem na manutenção dos equipamentos nem se preocupam com alguns aspectos básicos de segurança. “Todo mundo que tem barragem tem que ter consciência de mantê-la. Se não tem recursos para isso, não pode ser proprietário. É uma responsabilidade que a pessoa assume. São estruturas necessárias para o desenvolvimento de sociedades, mas podem, sim, causar acidentes, mesmo as pequenas”, afirma Laus.

    Em abril deste ano, duas crianças morreram após o rompimento de barragens em Paragominas, no Pará, e mais de 2.000 famílias foram afetadas pelas enchentes.

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    Outro ponto preocupante é a restrição dos recursos para obras de recuperação das barragens. A verba até chega a ser reservada, mas não é efetivamente investida. Em 2017, foram aplicados 73% dos recursos previstos na esfera federal e só 23% na esfera estadual.

    Um exemplo problemático é o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca). O órgão, responsável por mais de 300 barragens, teve R$ 5,7 milhões para aplicar em segurança dos reservatórios no ano passado. Destes, pouco mais de R$ 3 milhões foram empenhados, e só R$ 1,4 milhão de fato foi aplicado.

    Ainda que aplicasse todos os recursos disponíveis, faltaria ao Dnocs verba para arcar com custos de manutenção. Para se ter ideia, só a barragem de Jucazinho, em Pernambuco, necessita de R$ 40 milhões para voltar a atender os padrões de segurança. “Existe uma lacuna entre o planejamento e a aplicação. Os recursos são limitados, e é preciso ter uma estratégia inteligente e priorizar ações onde é necessário”, conclui Laus.

    Mina onde barragens se romperam produz 7% do minério de ferro da Vale

    O complexo da Vale onde estão as barragens que se romperam, em Brumadinho, responde por 7% da produção de minério de ferro da companhia. Os dados estão no relatório de produção do terceiro trimestre, informação mais recente divulgada.

    O minério de ferro é o principal produto da Vale, com 104,95 milhões de toneladas produzidas no terceiro trimestre do ano passado. A produção havia crescido 10% em um ano e atingido recorde. Já o complexo Paraopeba, onde está a barragem da Mina do Feijão, produziu 7,3 milhões de toneladas entre julho e setembro de 2018, o que equivale a 7% da produção total. Além de minério de ferro, a Vale produz pelotas de ferro, minério de manganês, carvão, níquel, cobre, cobalto e ouro.

    A companhia afirmou que a barragem 1 se rompeu. Ela foi construída em 1976 e não recebia mais rejeitos desde 2014, porque o processo de beneficiamento do minério passou a ser feito a seco. A Vale diz que a barragem tinha volume de 12,7 milhões de metros cúbicos. No final do dia, a empresa confirmou que outras duas barragens transbordaram após o rompimento da primeira.

    Segundo dados da companhia, a Barragem 6, construída em 1998, é usada “para recirculação de água da planta e contenção de rejeitos em eventos de emergência”, diz a companhia no site. “Atualmente tem cerca de um milhão de m³”, diz. Já Barragem Menezes 2 tem um volume de aproximadamente 290 mil m³ e é utilizada para a contenção de sedimentos e clarificação do efluente final.

    Presidente da Vale diz estar ‘consternado’ com rompimento de barragens

    O presidente da Vale, Fabio Schvarstman, disse em coletiva de imprensa que não se sabe ainda qual a causa do incidente em Brumadinho. Ele disse estar “consternado” com a tragédia que pode ter vitimado duas centenas de pessoas, a maioria funcionários da própria companhia.

    “Nós ainda não sabemos o que aconteceu. Ainda é muito cedo para termos essa informação”, disse o presidente, ao ser questionado sobre as causas do acidente, ressaltando que a última medição foi feita na barragem no dia 10 de janeiro, e que o último relatório, datado de 26 de setembro de 22018, indicava “perfeitas condições”. Além disso, não chovia no momento do rompimento não chovia.

    Segundo o presidente, o volume total de resíduos vazados seria de 12 milhões de metros cúbicos, cerca de um terço do volume do rompimento ocorrido em Mariana (MG), em 2015.

    Ele afirmou ainda que a barragem estava inativa, pois há mais de três anos não opera, ou seja sem receber resíduos. “Possivelmente o dano ambiental será menor, pois o material já era razoavelmente seco, ele não tem esse poder de se deslocar por longas regiões. A parte ambiental deve ser muito menor (em relação à Mariana), mas a parte humana terrível”.

    Schvartsman soube do rompimento logo após chegar de viagem. Ele estava em Davos (Suíça), no Fórum Econômico Mundial. Ele informou que voaria do Rio de Janeiro para Brumadinho o mais rápido possível. Neste sábado (26), ele deve se juntar ao presidente Jair Bolsonaro, que irá sobrevoar a região para avaliar a dimensão dos estragos.

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