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Manifestantes pró-Bolsonaro com as bandeiras do Brasil, da Ucrânia e do movimento de extrema-direita do país europeu.
Manifestantes pró-Bolsonaro com as bandeiras do Brasil, da Ucrânia e do movimento de extrema-direita do país europeu.| Foto: Leo Orestes/Estadão Conteúdo

Os atos em favor do presidente Jair Bolsonaro já se tornaram rotina aos domingos. No último final de semana, porém, as manifestações chamaram a atenção por conta de um novo símbolo. Em São Paulo, participantes do ato a favor do presidente empunhavam, além da bandeira do Brasil, uma outra, vermelha e preta. Ao centro, aparecia um tridente branco, semelhante ao que aparece no brasão da bandeira da Ucrânia.

Em entrevista à rede CNN, o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, afirmou que trata-se de uma "bandeira histórica", que simboliza a terra fértil do país (em preto) e "o sangue que os ucranianos derramaram na luta pela sua soberania", em vermelho. Já o tridente, de acordo com ele, significa a santíssima trindade – uma forma de lembrar o príncipe Vladimir, do século 10, que levou o cristianismo à Ucrânia.

O fato, porém, é que, apesar das negativas do governo de Kiev, a bandeira foi apropriada por um grupo de extrema-direita atuante no país desde 2013. Trata-se do Pravy Sektor (Right Sector, em inglês), que reúne movimentos ultra-nacionalistas ucranianos e que acabou se transformando em partido político.

A atuação mais célebre do Pravy Sektor, entretanto, ocorre fora do ambiente institucional. Em 2014, o grupo participou da onda de protestos que derrubou o então presidente Viktor Yanukovych, considerado um aliado russo.

Naquele ano, em entrevista à rede britânica BBC, um dos integrantes do Pravy Sektor afirmou que uma das ideias populares entre seus integrantes era a de uma "nação única" e "limpa". "Não como foi sob Hitler, mas um pouco como era naquela época, da nossa própria maneira", explicou.

Recentemente, os integrantes de setores da extrema-direita têm participado de grupos paramilitares que lutam, na região Leste do país, contra separatistas russos.

Brasil tem "caldeirão de símbolos descoordenados", diz pesquisadora

No Brasil, o uso da bandeira que representa o Pravy Sektor causou estranheza não só por tratar-se de um símbolo de um país tão distante, mas também porque as manifestações pró-Bolsonaro têm, usualmente, manifestantes empunhando a bandeira de Israel.

Daniele Dionísio, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que a apropriação e transformação de significados de símbolos é recorrente na História. Além disso, com frequência um mesmo símbolo é utilizado para fins completamente distintos em lugares e tempos históricos diferentes.

"Algumas pessoas vão se apropriar desses símbolos estrangeiros sem saber na forma e no conteúdo o que eles representaram na origem. O objetivo é construir um ato discursivamente agressivo, chamar a atenção. Não estou dizendo que, com isso, não se propaguem os mesmos valores. Na perspectiva brasileira, é como se estivéssemos em um caldeirão de símbolos que são descoordenados e antagônicos", diz.

Um dos manifestantes que exibiu o símbolo ucraniano nas manifestações do último domingo, porém, parecia saber exatamente do que se tratava. Ao blog Saída pela Direita, da Folha de S. Paulo, o instrutor de segurança Alex Silva explicou que mora em Kiev, e que acabou retido no Brasil por conta da pandemia.

Simpatizante de Bolsonaro, Silva diz não ser formalmente ligado ao Pravy Sektor. O brasileiro afirma atuar coordenando uma espécie de linha auxiliar do governo ucraniano no combate aos rebeldes, na região Leste do país, mesmo campo de atuação da organização. "É uma bandeira antiga, não tem nada de nazista", garantiu ao jornal paulista.

Além da bandeira: blogueira bolsonarista promoveu ato com estética da Ku Klux Klan

Esta não é a primeira vez que símbolos relacionados a movimentos neonazistas e de supremacistas brancos aparecem em movimentos de apoiadores de Bolsonaro.

Também no final de semana, a ativista Sara Winter comandou um ato contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Em Brasília, cerca de 30 participantes da manifestação foram até a sede do Supremo carregando tochas, vestindo máscaras e roupas pretas – estética semelhante à do grupo supremacista branco Ku Klux Klan, dos EUA.

Na semana passada, Winter foi um dos alvos de uma operação da Polícia Federal que apreendeu computadores e celulares de suspeitos de disseminar notícias falsas. A ação, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, ocorreu no âmbito do inquérito do STF que investiga a propagação de fake news e ameaças contra a Corte e seus membros. Nesta segunda (1), a ativista foi alvo de nova ação da PF.

A propósito da mesma operação, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma referência no sentido oposto. No Twitter, o ministro comparou os mandados de busca e apreensão à Noite dos Cristais, em que judeus foram mortos e sinagogas foram destruídas por oficiais nazistas. As declarações foram repudiadas pela Embaixada de Israel.

Secretário de Bolsonaro foi demitido após fazer alusão ao nazismo

Dentro do próprio governo já houve manifestações de alusão a movimentos fascistas. Em janeiro deste ano, o então secretário da Cultura, Roberto Alvim, foi demitido após a divulgação de um vídeo que tinha estética semelhante à do nazismo.

Nesta segunda-feira (1), o próprio presidente Jair Bolsonaro publicou, em suas redes sociais, um vídeo em que há menção a uma frase célebre de Benito Mussolini, que liderou o regime fascista na Itália. Na semana passada, por sua vez, um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, afirmou que é apenas uma "questão de tempo" para que haja uma ruptura institucional no país.

Na opinião de Francis Ricken, advogado e professor da Escola de Direito e Ciências Sociais da Universidade Positivo, as declarações de viés autoritário proferidas pelo presidente e seus aliados políticos acabam incentivando grupos que também têm posturas intolerantes a se manifestarem.

"Membros do governo aproximam, frequentemente, fatos do cotidiano com o que houve na Segunda Guerra Mundial. Aquele foi o período mais sangrento do continente europeu", diz. "O presidente foi legitimamente eleito, mas não pode tudo. É papel das instituições cercear esses posicionamentos autoritários", conclui Ricken.

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