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Membros da equipe médica das Forças Armadas fazem teste para a Covid-19 em um membro da etnia Ye'Kuena, em Auari, Roraima
Membros da equipe médica das Forças Armadas fazem teste para a Covid-19 em um membro da etnia Ye’Kuena, em Auari, Roraima| Foto: Nelson Almeida / AFP

Quando estados como Amazonas e Pará amargavam a onda mais violenta da Covid-19, em meados de maio, as regiões Sul e Sudeste – com exceção das capitais São Paulo e Rio de Janeiro – gozavam de certa tranquilidade. Uma realidade que permitiu aos estados flexibilizarem medidas de isolamento social em uma aparente normalidade. Semanas depois, no entanto, a situação se inverte e coloca em prova a capacidade de planejamento dos estados mais ao sul do país, onde há mais densidade populacional. Com um agravante: justamente junto com a chegada do inverno, um período historicamente ligado ao aumento de doenças respiratórias.

ESTATÍSTICA: veja os números da Covid-19 no Brasil

De acordo com dados do Ministério da Saúde, enquanto a região Norte teve uma redução de 4% no número de novos casos de Covid entre as semanas epidemiológicas, a 24.ª (de 7 a 13 de junho) e a 25.ª (de 14 a 20 de junho), as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul viram todos os seus estados registrarem alta.

Na região Sudeste, o aumento foi de 26%, em uma média diária de 10.656 novos registros de Covid-19. São Paulo puxou os números – foram 33% a mais nos registros entre uma e outra semana.

No Centro-Oeste, o aumento foi maior, de 98%. Somente Goiás viu seus números dispararem 206%.

A região Sul, por sua vez,  teve uma elevação intermediária. O número de novos casos da doença subiu 76%. “É válido ressaltar que, embora a Região Sul se encontre numa situação um pouco mais confortável em relação aos números, há necessidade de desenvolvimento de trabalhos no sentido do não avanço dos focos de ocorrências para os municípios do entorno, uma vez que eles têm se ‘espalhado’ ao longo do tempo”, destaca o boletim oficial.

Na comparação entre a 25.ª semana epidemiológica e a 26.ª (21 a 28 de junho) a situação de Sul e Centro-Oeste se agravou. O Sul registrou novo aumento de casos, na ordem de 47%, e as mortes subiram 37%. No Centro-Oeste, os casos aumentaram 9% e os óbitos, 36%. No Norte, embora o número de novos casos tenha crescido 23%, o registro de mortes caiu 15%. O Sudeste também teve queda no número de mortes, de 11%, mas os casos aumentaram

A situação acende um alerta no eixo Sul e Sudeste, que começa a ver suas curvas acentuarem justamente em um período em que as doenças respiratórias são mais incidentes: o inverno. Ainda há pouca relação científica do vírus com o clima frio, mas infectologistas apontam que as quedas na imunidade do organismo e ambientes fechados, comuns nessa época, possam interferir nas taxas de transmissão.

Mais que isso. Estão justamente nas duas regiões as maiores proporções de habitantes por quilômetro quadrado no país – 87 no Sudeste e 49 no Sul. No Norte, como comparação, são quatro habitantes por quilômetro quadrado.

Doutora em infectologia, professora da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi alerta que há razão para o passo atrás. “A tendência [com o aumento da circulação do vírus em regiões com mais densidade populacional] é mais infecção, sem dúvida. Há uma preocupação grande com mais óbitos”, declara. “Nós tivemos lições muito claras do Hemisfério Norte que nos não aprendemos no Norte e no Nordeste. Espero que o Sul tenha aprendido. O que a gente sabe? Onde [a estratégia de combate ao vírus] funcionou melhor foram os locais em que foi feito um isolamento muito restritivo logo no início. Os países que demoraram a fazer isso foram os que tiveram mais problemas”, diz.

Tempo para se preparar contra a Covid, mas novos problemas

Para Élcio Franco, secretário-executivo do Ministério da Saúde, os estados do eixo Sul e Sudeste tiveram vantagem na corrida contra a Covid. “O tempo de preparação dos estados do Centro-Sul foi maior do que o dos estados do Norte, que foram acometidos inicialmente pela pandemia. Eles tiveram uma curva de aprendizagem e conseguiram verificar as lições aprendidas em outros locais e tiveram um tempo bem maior para se preparar”, destacou o membro do governo em apresentação de estratégias contra a pandemia nesta segunda-feira (29).

De fato, estados como Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo montaram estruturas hospitalares que Rio Grande do Norte e Amazonas, por exemplo, não tiveram chance de fazer. Sobretudo com aquisição de equipamentos de proteção individual (máscaras e aventais) e médicos (ventiladores pulmonares).

O que não significa que todas as dificuldades tenham sido eliminadas. Estados ainda têm reclamado de problemas estruturais, como falta de medicamentos para sedação de pacientes, falta de profissionais, preços altos de medicamentos usados no tratamento dos infectados e pouca testagem para adotar políticas de aperto ou afrouxamento no isolamento social – o país somente testou cerca de 800 mil pessoas com teste RT-PCR, o mais eficiente na dectecção da doença.

Não é a principal reclamação. Renato Casagrande (PSB), governador do Espírito Santo e membro do Consórcio de Integração Sul e Sudeste – grupo formado pelos mandatários dos estados das duas regiões para enfrentamento de crises –, diz que a ajuda financeira do governo federal “foi importante e em boa hora”, mas que o a União falha na condução da crise sanitária.

“Nós, governadores, sentimos muito a ausência da coordenação nacional do governo. Poderia ter em uma coordenação mais ampla de enfrentamento à pandemia, com orientação e palavras na mesma direção das dos governadores e diversos prefeitos. Essa falta de coordenação nacional, a troca permanente de ministros [da Saúde], a politização do tema de medicamentos, do próprio isolamento social e o enfrentamento provocado pelo presidente da República acabaram dificultando o nosso trabalho. Nós pregamos o comportamento de distanciamento e isolamento e o presidente tem uma outra visão. O dia a dia e a prática dele demonstraram isso. Causou uma dificuldade maior porque a palavra do presidente é uma palavra mais forte”, apontou Casagrande em reunião com uma comissão mista do Senado que acompanha o assunto, no último dia 25.

“Tenho que reconhecer que o governo federal faz um esforço do ponto de vista financeiro para socorrer os estados e municípios. Mas o dinheiro não é tudo. Precisaríamos de uma liderança nacional para conduzir o país nesse momento difícil”, destacou à comissão Mauro Mendes (DEM), governador do Mato Grosso e membro Consórcio do Brasil Central, que representa principalmente estados do Centro-Oeste – região que também vê uma escalada de casos nas últimas semanas.

Soluções para o enfrentamento

O governador capixaba Renato Casagrande indica que os estados do Sul e Sudeste acreditam haver tempo para que o governo assuma as rédeas da pandemia. Nas últimas semanas, o Ministério da Saúde tem se movimentado nesse sentido, após publicar orientações sobre a Covid e apresentar um programa de testagem em massa, que pretende impactar 46 milhões de brasileiros.

É um dos caminhos, defende Raul Guimarães, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), doutor em Geografia e pesquisador sobre saúde pública. “O líder da articulação é o governo federal. É ele que dispõe de recursos financeiros”, afirma.

Segundo o especialista, isso não impede que os gestores locais se unam para a negociação de ações conjuntas e até compra de insumos ou medicamentos fundamentais para o tratamento da Covid.

“No Paraná, por exemplo, os consórcios intermunicipais são importantes. Pode-se tentar trabalhar regionalmente, de forma que os governadores junte as forças para enfrentar o problema. O cooperativismo é muito forte no estado. Ou seja, há um indicativo de organização da sociedade ”, diz Guimarães.

O Nordeste adotou modelo nesse sentido para combater a pandemia. Juntos, os estados montaram um painel de informações, criaram um banco de dados confiável e negociaram compra conjunta de testes rápidos e respiradores. Um esforço que ajudou a região a atravessar o olho do furacão.

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