Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas
Diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse que Brasil poderia ter começado a vacinação contra Covid-19 ainda em 2020.| Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou nesta quinta-feira (27) à CPI da Covid do Senado que não houve "estímulo" por parte do governo federal para a produção de vacinas. Segundo ele, o Ministério da Saúde não forneceu apoio à instituição e recusou propostas apresentadas ainda no ano passado. Parlamentares da oposição ainda recordaram falas do presidente Jair Bolsonaro contra a vacinação da Covid-19, em especial à vacina do Butantan, por causa de sua origem chinesa. Mas senadores alinhados com o Palácio do Planalto negaram que o governo não tenha apoiado o Butantan e contestaram a hipótese de que a Coronavc poderia ter sido aplicada na população ainda em 2020.

Covas declarou que "nenhum centavo" foi dado pelo Ministério da Saúde para a confecção de vacinas no Butantan, apesar de requisições apresentadas pelo instituto. "A vacina não teve o apoio na hora em que isso foi solicitado. Isso poderia ter nos levado a produzir um quantitativo maior", disse. O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) afirmou que as falas de Covas e as de Carlos Murillo, gerente da farmacêutica Pfizer para a América Latina que compareceu à CPI no dia 13, indicam que "poderíamos ter tido o dobro de brasileiros vacinados".

Na avaliação dos senadores da oposição, foram dois os fatores que levaram o governo Bolsonaro a não apoiar a produção de vacinas pelo Butantan. O primeiro é um suposto descrédito que o presidente teria às vacinas como um todo, em especial à Coronavac, que é a fabricada pelo Butantan. O imunizante foi desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac. Em sua participação, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) veiculou trecho de um pronunciamento de Bolsonaro em que o presidente diz que não compraria a "vacina chinesa", nem com a aprovação da Anvisa.

O outro motivo é a rivalidade que o presidente desenvolveu com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Como o Butantan é vinculado ao governo paulista, bolsonaristas acusam Doria de utilizar a vacinação para se promover politicamente. O governador foi aliado de Bolsonaro, mas eles romperam e Doria tem interesse em se candidatar à Presidência da República em 2022.

Governistas rebatem argumentações

O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), elencou valores repassados pelo Ministério da Saúde ao Butantan nos últimos anos como argumento para descartar a ideia de que não haveria apoio federal ao instituto. O emedebista mencionou um contrato de R$ 3 bilhões. "Será que é correto afirmar que houve má vontade?", questionou. Em resposta, Dimas Covas disse que o Ministério da Saúde é o único cliente habitual das vacinas produzidas pelo Butantan - que servem para o combate a outras doenças - e que os valores citados por Bezerra Coelho não correspondem a um "incentivo" ou "investimento", e sim a pagamento por serviços já prestados.

Em relação à possibilidade de as vacinas fabricadas pelo Butantan estarem integradas ao sistema nacional de imunização ainda no ano passado, Covas foi confrontado pelo senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), que citou que a aprovação da Anvisa ao imunizante foi concedida apenas no início de 2021.

O senador gaúcho também contestou outro argumento citado por oposicionistas durante a reunião da CPI, o de que críticas feitas pelo governo Bolsonaro à China teriam atrasado a entrega de insumos ao Brasil, o que retardaria a produção de vacinas. Segundo Heinze, o embaixador da China no Brasil deu declarações públicas em que relatou que o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) necessário para a produção de vacinas é uma substância de alta complexidade e que seu acesso está dificultado para todo o mundo.

Balanço e futuro

Em entrevista após a conclusão da reunião, o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou que os 30 dias iniciais de trabalho da comissão revelaram a existência de um "gabinete paralelo" que prestaria informações ao presidente Jair Bolsonaro sobre a pandemia. A estrutura adicional tem sido um dos temas mais explorados pelos oposicionistas na comissão, que contestam posturas de Bolsonaro que contrariam as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de seu próprio Ministério da Saúde.

Apontada como uma das líderes do "gabinete paralelo", a médica Nise Yamaguchi será a próxima depoente da CPI. Ela falará à comissão na próxima terça-feira (1º). Yamaguchi é médica do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e ganhou notoriedade por ser uma das principais defensoras do tratamento precoce contra a Covid-19.

Também em relação aos próximos passos da comissão, o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que integra a oposição ao governo Bolsonaro, disse acreditar que a convocação de governadores à CPI possa ser danosa à imagem do presidente. Para o senador, eles exporão à CPI "como é governar um estado tendo uma coordenação nacional que joga contra o combate à pandemia".

A próxima semana terá ainda outra reunião com depoimentos: será na quarta-feira (2), quando participarão os médicos Clóvis Arns da Cunha, Zeliete Zambom, Francisco Eduardo Cardoso Alves e Paulo Porto de Melo.

30 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]