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Irã: Bolsonaro pende para o lado dos EUA
Trump e Bolsonaro se encontram em reunião do G20: Brasil tomou lado dos EUA na briga com o Irã.| Foto: Alan Santos/Presidência da República

A crescente tensão entre os Estados Unidos e o Irã, após a morte do general Quassem Soleimani, tem deixado o mundo em alerta sobre a eclosão de um possível conflito entre os dois países. Mesmo não se envolvendo diretamente na questão, o Brasil pode sofrer consequências econômicas.

O primeiro e mais óbvio sintoma da escalada do conflito entre EUA e Irã é o preço do petróleo. A alta afeta o comércio de combustíveis no mundo todo – e, no Brasil, pode provocar tensões políticas para o governo de Jair Bolsonaro.

Em 2018, o aumento no preço do diesel levou os caminhoneiros a uma greve que provocou crise de desabastecimento em todo o país. No final de 2019, a categoria esboçou o início de uma paralisação, mas o movimento não foi adiante.

Nesta segunda-feira (6), Bolsonaro afirmou que a tendência é de que o preço dos combustíveis se estabilize no Brasil. Segundo ele, o impacto do ataque no mercado de petróleo "não foi grande".

Também nesta segunda, porém, o preço do barril começou o dia em alta, chegando a US$ 70 – o maior valor desde maio de 2019.

Irã, hoje, é mercado pequeno para o Brasil – mas tem potencial

Outros efeitos, mesmo que menos evidentes, devem ser sentidos no país. Hoje, tanto o Irã como o Iraque (país onde ocorreu a morte de Soleimani) são parceiros comerciais com pouca relevância na balança comercial brasileira.

Dados do ministério da Economia apontam que, entre janeiro e novembro de 2019, o Brasil exportou US$ 2,2 bilhões para o Irã, valor que representa 1,03% de tudo o que enviou para o exterior nesse período. As importações, por sua vez, foram de US$ 88,9 milhões, o que resulta em saldo positivo na relação com o país do Oriente Médio (veja os detalhes no infográfico).

GRÁFICO: Confira o saldo das importações exportações brasileiras para o Irã

Os principais produtos exportados para o Irã, ainda segundo os dados da pasta da Economia, foram milho (44%) e soja (26%).

O Iraque tem uma participação ainda menor no comércio exterior brasileiro, com apenas 0,29% das exportações do país (US$ 595,9 milhões).

"Ambos são mercados pequenos para o Brasil em função de vários fatores. A distância, o custo da logística (que sabemos que no Brasil é caríssimo), o preço e a garantia de um fornecimento regular são entraves", explica José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

As dificuldades em entrar no mercado iraniano estão em sanções impostas pelos próprios EUA, que acabam minando o comércio de outros países com a nação persa.

Os dois países do Oriente Médio, porém, são mercados que têm potencial de expansão para os produtos brasileiros. "Quando se fala em Irã e Iraque, estamos tratando também da exportação para um conjunto de países que estão na região. Com isso, o comércio ganha mais escala e o preço fica mais competitivo", pondera Castro.

Posição da diplomacia brasileira pode atrapalhar

Ao se pronunciarem sobre a morte do general Soleimani, no entanto, tanto o Itamaraty quanto o próprio presidente acabaram se alinhando aos EUA – deixando de lado a posição de neutralidade, que era característica da diplomacia brasileira.

Na nota oficial, o Itamaraty classifica a Guarda Revolucionária do Irã, à qual Soleimani pertencia, como uma organização terrorista.

"O Brasil nunca tinha se manifestado assim sobre a Guarda Revolucionária. Isso pode levar a um posicionamento de aliados do Irã contra o país", diz Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores Associados.

"O cenário ideal, hoje, seria o de emitir o mínimo de opinião. Os países do Oriente Médio podem ser locais para uma presença maior do que o Brasil tem hoje. Se os EUA não podem fornecer por questões ideológicas, o Brasil poderia ocupar esse espaço", concorda Castro.

Economia global pode se retrair

Por fim, se houver uma escalada nos ataques entre os dois países, o comércio global como um todo pode se retrair.

"Isso já estava acontecendo e, se houver um aumento do conflito, tende a acontecer mais ainda. Quando há guerra, não há comércio", diz Parente.

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