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Bolsonaro passou a noite em claro na Arábia Saudita, após a divulgação da reportagem no Jornal Nacional.
Bolsonaro passou a noite em claro na Arábia Saudita, após a divulgação da reportagem no Jornal Nacional.| Foto: José Dias/PR

A citação do nome de Jair Bolsonaro nas investigações do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, divulgado pela TV Globo na noite de terça-feira (29), caiu como um bomba no Brasil – e também na Arábia Saudita, onde o presidente brasileiro estava em missão oficial. Em depoimento à Polícia Civil, o porteiro do condomínio em que Bolsonaro tem duas casas, na Barra da Tijuca, disse que o chefe do Planalto autorizou a entrada de um dos acusados pelo assassinato da vereadora, o ex-PM Élcio Queiroz, causando um rebuliço no meio político e a ira da família Bolsonaro.

A acusação foi desmentida categoricamente pelo presidente da República. Mas a confusão já estava armada. Bolsonaro acusou o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), de envolvimento no vazamento de dados do processo com objetivo de prejudicá-lo.

Ao longo do dia, o depoimento do porteiro foi desacreditado pelo Ministério Público do Rio, que afirmou que o porteiro mentiu. Nesta quinta-feira (31), o jornal Folha de S.Paulo informou que Élcio de Queiroz também negou em depoimento que, ao se anunciar no condomínio em que vive Bolsonaro, tenha citado o nome do presidente.

Leia a seguir tudo que se sabe até agora sobre o depoimento, as reações de Bolsonaro e prováveis desdobramentos do caso:

Jornal Nacional tem acesso ao depoimento do porteiro

Reportagem do Jornal Nacional da TV Globo, exibida na noite de terça-feira (29), revelou que, em depoimento à Polícia Civil, o porteiro do condomínio Vivendas da Barra afirmou que o ex-PM Élcio Queiroz teria ido ao condomínio no dia 14 de março de 2018, às 17h10, horas antes do assassinato de Marielle Franco, e anunciado que visitaria a casa de número 58, que pertence a Jair Bolsonaro. O porteiro disse à polícia que ligou para a residência do então deputado federal para pedir autorização e conversou com, segundo ele, "Seu Jair", que permitiu a entrada.

Segundo a reportagem, o porteiro teria relatado que Queiroz acabou indo até a casa do policial reformado Ronnie Lessa, a de número 66 do condomínio. Ele é apontado como autor dos tiros que mataram a vereadora do Psol. Queiroz seria o motorista do carro que emparelhou com o veículo de Marielle.

O porteiro teria dito aos investigadores que monitorou o carro pelas câmeras de segurança e estranhou a mudança de rota. Ele interfonou novamente para a casa 58 e "Seu Jair" disse que estava tudo bem. O próprio Jornal Nacional citou, no entanto, que os registros de presença da Câmara dos Deputados mostram que Bolsonaro participou da sessão plenária, em Brasília, naquela data e, portanto, não estaria em casa. Bolsonaro divulgou ainda um vídeo gravado naquele dia em suas redes sociais.

A simples menção ao nome de Bolsonaro pode fazer com que o caso passe para o Supremo Tribunal Federal (STF), pois o presidente da República tem prerrogativa de foro.

1ª reação: Em live, Bolsonaro ataca TV Globo e Witzel

Era madrugada na Arábia Saudita quando Jair Bolsonaro soube da denúncia do Jornal Nacional. Bastante irritado, ele imediatamente fez uma transmissão ao vivo no Facebook. Em 23 minutos de live, disse estar sendo vítima de uma "patifaria" e que a "verdade está do meu lado".

Bolsonaro atacou a TV Globo e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a quem acusa de ter vazado documentos do inquérito para a emissora. "Isso é uma patifaria, TV Globo. Eu não deveria perder a linha, sou presidente da República, mas confesso que estou no limite com vocês. Eu trabalho pelo Brasil. Se o Brasil der errado todo mundo vai para o espaço. Num dia de glória para nós. Amanhã (quarta-feira) eu tenho encontro com 300 empresários aqui na Arábia Saudita. Que que vocês querem com isso? Esvaziar a minha reunião?", questionou.

Entrevistas a outras emissoras

Mais moderado, o presidente concedeu entrevista exclusiva ao Jornal da Record pouco depois da live, garantindo que estava em Brasília no dia 14 de março de 2018 conforme provariam os registros de presença da Câmara dos Deputados. Disse que, apesar de citar tal informação na reportagem, a Globo “deixa no ar” o suposto envolvimento dele com os assassinos de Marielle Franco.

O presidente também reafirmou que as informações do processo – que está sob segredo de Justiça – foram supostamente vazadas à TV Globo pelo governador Wilson Witzel. "Ele já se lançou candidato às eleições de 2022 e para isso tem que destruir a família Bolsonaro", disparou.

Já em entrevista à TV Band, o presidente citou as manifestações em países da América do Sul e acusou a emissora de tentar desestabilizar o governo para atrair a crise para o território nacional. "Nós sabemos o que está acontecendo na América do Sul. Vários países com problemas: o Chile, a eleição na Argentina, a Bolívia, o Equador. Será que ela [Globo] quer trazer essa crise sul-americana para dentro do Brasil? Esse é o propósito da Globo?", indagou Bolsonaro.

Coletiva na Arábia

Em entrevista coletiva no início de sua agenda na Arábia Saudita, o presidente Jair Bolsonaro disse que acionou o ministro da Justiça, Sergio Moro, para investigar o depoimento do porteiro que o envolveu na apuração do assassinato. “Estou conversando com o ministro da Justiça para ver o que pode ser feito para a gente tomar, via Polícia Federal, um novo depoimento”.

Bolsonaro voltou a fazer críticas à Rede Globo por ter divulgado a reportagem sem ouvi-lo e também ao governador Wilson Witzel. “Aguardo a TV Globo me chamar para o horário nobre falar sobre o caso Marielle”, disse o presidente, segundo relatou o enviado especial da Gazeta do Povo, André Gonçalves. “No meu entendimento, o sr. Witzel estava conduzindo o processo com o delegado da Polícia Civil para tentar me incriminar ou manchar a minha imagem”, acrescentou.

Bolsonaro também afirmou que o delegado responsável pelo inquérito que investiga a morte da vereadora "inventou" o depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra. "Me surpreende o delegado da Polícia Civil inventar o depoimento por ordem e determinação do senhor governador [Wilson] Witzel para tentar me prejudicar", afirmou.

A resposta de Witzel

O governador do Rio, Wilson Wizel (PSC), rebateu Bolsonaro, afirmando nesta quarta que não interferiu nas investigações do caso da morte de Marielle Franco. "Não transitamos no terreno da ilegalidade, não compactuo com vazamentos à imprensa. Não farei como fizeram comigo, prejulgar e condenar sem provas. Hoje, fui atacado injustamente", disse o governador.

"Lamento profundamente a manifestação intempestiva do presidente Jair Bolsonaro. Ressalto que jamais houve qualquer tipo de interferência política nas investigações conduzidas pelo Ministério Público e a cargo da Polícia Civil. Em meu governo, as instituições funcionam plenamente e o respeito à lei rege todas nossas ações", emendou.

Carlos Bolsonaro mostra registros do condomínio

Filho do presidente da República, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC) saiu em defesa do pai postando vídeo nas redes sociais com imagens e áudios dos registros de visita do condomínio. As planilhas mostram, segundo ele, que o suspeito da morte de Marielle Franco não pediu para ir na casa do presidente, conforme afirmou a reportagem da TV Globo. No vídeo, Carlos diz que a solicitação foi para a casa 65, que, segundo ele, seria de Ronnie Lessa.

Advogado de Bolsonaro diz que depoimento de porteiro “é armação”

O advogado do presidente Jair Bolsonaro, Frederick Wassef, classificou como "falso e criminoso" o depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra. De acordo com Wassef, as declarações do funcionário são "uma armação para incriminar o presidente".

"É claramente um ardil, uma engenharia criminosa, um mecanismo para tentar envolver a pessoa do presidente da República neste horrendo crime", afirmou o advogado. As declarações foram dadas ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha. Ainda de acordo com Wassef, não seria apenas uma pessoa interessada em incriminar o presidente. "Eu tenho convicção pessoal de que tem um grupo de pessoas agindo nos bastidores devido ao que está em jogo e devido ao que é o caso", afirmou.

Moro pede que PGR investigue o caso e Aras diz que caso já foi arquivado

O ministro da Justiça, Sergio Moro, encaminhou para o procurador-geral da República, Augusto Aras, um ofício requisitando a instauração de inquérito para apurar o depoimento que citou Jair Bolsonaro no caso Marielle. O ministro foi acionado pelo presidente após reportagem do Jornal Nacional. No documento, Moro argumenta que pode ter ocorrido equívocos na investigação conduzida no Rio de Janeiro ou "eventual tentativa de envolvimento indevido do nome do Presidente da República no crime".

O procurador-geral Augusto Aras classificou como um "factoide" a associação de Jair Bolsonaro aos acusados de matar Marielle Franco. Ele disse que que o STF e a própria PGR já arquivaram uma notícia de fato, enviada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que informava a existência da menção ao nome do presidente no processo. Aras também afirmou que vai atender ao pedido de Moro e pedir uma investigação sobre o depoimento do porteiro do condomínio Vivendas da Barra.

Reviravolta: Gaeco diz que porteiro mentiu

Em coletiva de imprensa nesta quarta, a procuradora Simone Sibilio, chefe do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, disse que o porteiro que envolveu o nome do presidente Jair Bolsonaro na morte da vereadora do Psol mentiu em depoimento à Polícia Civil.

De acordo com Simone, pelas provas técnicas coletadas em áudio, quem autoriza a entrada de Élcio Queiroz no condomínio do presidente é Ronnie Lessa, suspeito de ter feito os disparos que mataram a vereadora do Psol, e não Jair Bolsonaro. Ela disse que o porteiro pode ter anotado que Élcio foi para a casa de Bolsonaro por vários motivos e que eles serão apurados. "Todas as pessoas que prestam falso testemunho podem ser processadas", disse a promotora.

Suspeito de matar Marielle nega ter dito que ia à casa de Bolsonaro

Nesta quinta-feira (31), a defesa do ex-PM Élcio de Queiroz, acusado de matar Marielle, informou que seu cliente negou em depoimento que tivesse dito, quando chegou no condomínio, que iria para a casa de Bolsonaro. “Isso já havia sido esclarecido nos autos há bastante tempo. Ele foi à casa do Ronnie Lessa [que mora no mesmo condomínio]. Nunca disse na entrada que iria na casa do presidente”, disse à Folha o advogado Henrique Telles, que defende Queiroz.


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