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Prévias do PSDB
Cartazes dos principais candidatos às eleições presidenciais de 2022 do PSDB durante a convenção eleitoral do partido em Brasília, em 21 de novembro.| Foto: Joédson Alves/EFE

O PSDB decidiu contratar uma empresa privada para conseguir finalizar as eleições internas que escolherão o candidato do partido para disputar a Presidência da República em 2022. O processo, que deveria ter ocorrido no domingo (21), foi interrompido devido a uma falha no aplicativo usado para a votação – apenas 5% dos filiados puderam votar.

A expectativa, de acordo com o presidente da sigla Bruno Araújo, é de que a situação se resolva até domingo, com o anúncio do vencedor. Os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) são os favoritos. Arthur Virgílio, ex-senador (AM), corre por fora.

Mas analistas políticos avaliam: o PSDB tem problemas mais complicados para lidar do que o tecnológico, como as divisões internas e a viabilidade eleitoral do escolhido para as eleições presidenciais de 2022.

Interlocutores do partido têm trabalhado para externar uma mensagem de união. “Prévias unem” é a frase que mais se tem ouvido falar, tanto por parte de apoiadores de Leite quanto dos de Doria e de dirigentes tucanos, mas a troca de acusações e desentendimentos entre os dois lados marcaram todo o processo de prévias, atrapalhando a tentativa do partido de se revitalizar e se colocar, mais uma vez, como protagonista de uma eleição presidencial.

“O partido está muito dividido. Independentemente do resultado das prévias, muitos filiados tendem a deixar o partido por não aceitarem conviver com a derrota”, diz Jorge Ramos Mizael, CEO da consultoria Metapolítica.

O mesmo problema foi salientado por Cila Schulman, especialista em marketing político e vice-presidente do Ideia Instituto de Pesquisa. Para ela, o problema tecnológico logo não será lembrado pela opinião pública e pelo eleitor, mas os efeitos dessas brigas internas, que não vêm de agora, continuarão no caminho das ambições presidenciais do partido.

O deputado Paulo Abi-Ackel, presidente do diretório tucano de Minas Gerais e aliado de Leite, disse recentemente que falar sobre uma “debandada” após as prévias é um “exercício de futurologia”, mas existe a possibilidade de que parlamentares do PSDB mais alinhados ao presidente Jair Bolsonaro realmente busquem outros partidos antes das eleições, pensando em sua própria sobrevivência eleitoral em 2022, agora que o partido se declarou oficialmente como oposição ao governo. E essa possibilidade aumenta se João Doria vencer as prévias.

Recentemente, Doria e Arthur Virgílio – que apesar de serem concorrentes estão alinhados contra Leite – criticaram os deputados, aliados do governador gaúcho, que votaram a favor da aprovação da PEC dos precatórios, proposta para que o governo tenha mais recursos para gastar em 2022.

PSDB tem desafio de promover união interna

Wilson Pedroso, coordenador da campanha de Doria, minimizou as divisões internas. Disse à Gazeta do Povo que a “narrativa de racha” não é verdade e que “falas mais duras” são naturais em momentos de nervosismo.

Por sua vez, o coordenador da campanha de Eduardo Leite, Paulo Serra, prefeito de Santo André (SP), reconheceu a possibilidade de uma judicialização do resultado das prévias devido ao problema no aplicativo de votação, mas também falou em união do partido.

“É inegável que mesmo que tecnicamente haja reparação [do aplicativo], há um arranhão já profundo”, disse à Folha de S. Paulo na segunda-feira (22). “Para que a imagem do partido seja reconstruída do infeliz domingo, só a união dos esforços de todas as candidaturas e da executiva, só uma construção coletiva vai poder reconstruir esse processo.”

Momento de Moro liga alerta para o PSDB

Essas versões diferentes salientam o desafio de promover a união interna e, enquanto gasta energia com isso, o partido perde oportunidade de trabalhar na viabilidade eleitoral do candidato escolhido. “O episódio demonstra a dificuldade do PSDB de se credenciar como partido que lute por uma campanha presidencial como cabeça de chapa”, afirma o analista Jorge Ramos Mizael.

Para ele, quem sai ganhando com isso é o pré-candidato do Podemos, Sergio Moro, que deverá disputar o voto do mesmo eleitorado do PSDB. Em uma pesquisa eleitoral recente do Instituto Paraná Pesquisas, Moro apareceu com mais intenções de voto do que Leite e Doria – embora seja prematuro fazer avaliações sobre viabilidade eleitoral com base em pesquisas realizadas a dez meses das eleições. Moro apareceu, nas diferentes simulações, com cerca de 10% das intenções de voto; Doria teve 3% e Leite 1% – veja todos os números da pesquisa aqui.

Paulo Gama, analista político da XP Investimentos, explica que Moro conseguiu, em seu evento de filiação, criar um momento político positivo em torno de seu nome e que o objetivo do PSDB era fazer o mesmo ao anunciar o resultado das prévias. Contudo, com os problemas tecnológicos e o impasse sobre a votação, acabou atraindo mídia negativa e exacerbando as divisões do partido. “O Moro deu um passo à frente [na disputa presidencial] que o PSDB não conseguiu dar”, diz Gama. Ele afirma também que eleições anteriores já demonstraram que, unido, o partido tem melhores condições de disputar a Presidência.

Outra avaliação do lado de fora vem de Magno Karl, diretor-executivo do Livres, organização liberal que atua como um movimento suprapartidário e que defende uma terceira via para as eleições de 2022. Para ele, as prévias tucanas são um evento importante para o campo que trabalha por “alternativas ao bolsonarismo e ao petismo”, mas os recentes problemas internos e a entrada do ex-juiz da Lava Jato na corrida eleitoral deveriam acender um sinal de alerta para o PSDB.

“As articulações e as conversas [para a formação de uma terceira via] seguem acontecendo. A definição do candidato tucano é importante para que o partido coloque seu nome na disputa. É importante para que possamos ouvir as ideias que balizarão a campanha do partido para o ano que vem, mas, apesar de sua importância, o Brasil não parou para aguardar a definição do PSDB. O partido precisa vencer seus conflitos internos se quiser manter sua relevância no cenário nacional”, diz Karl.

“O anúncio da candidatura de Sergio Moro deveria acender a luz vermelha no ninho tucano. As campanhas estão nas ruas e o PSDB diminui o peso da sua candidatura ao tropeçar nos próprios pés em infindáveis conflitos internos”, acrescentou.

Metodologia da pesquisa citada

O levantamento eleitoral do Instituto Paraná Pesquisas foi realizado entre os dias 16 e 19 de novembro de 2021, em 164 municípios brasileiros. Dois mil e vinte eleitores foram entrevistados pessoalmente. A margem de erro geral da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

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