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Alckmin e Lula: o fim do teatro das tesouras?
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O ano era 2006. Geraldo Alckmin era o candidato tucano nas eleições presidenciais, desafiando o petista Lula. Apelidado de "picolé de chuchu" por sua falta de carisma, Alckmin tinha ao menos a imagem de gestor sério, discreto e responsável, o que já era muito contra o radicalismo demagogo do adversário. A direita, órfã de candidatos, sabia que não tinha alternativa. Mas...

O tucano foi "acusado" de ser um "privatista" pela campanha petista, e acusou o golpe. Envergonhado, indignado com a pecha de defensor das privatizações, num partido incapaz de defender o legado positivo das privatizações da era FHC realizadas mais por necessidade de caixa do que por convicção ideológica, Alckmin virou um outdoor ambulante de logos das estatais, para negar qualquer intenção de vendê-las. Foi derrotado ali, e conseguiu um feito inacreditável: ter menos voto no segundo turno!

Tucanos são defensores da social-democracia, aceitam mais liberdade econômica, respeitam em parte o mercado, mas no resto todo são "progressistas". Gostam de um estado forte, indutor do crescimento, locomotiva da "justiça social". Só mesmo no Brasil antes do advento das redes sociais, quando a imprensa esquerdista detinha o quase monopólio da narrativa, que o PSDB poderia ser chamado de "neoliberal" ou partido de "direita".

FHC sempre nutriu admiração e respeito por Lula, e entregou a faixa presidencial claramente emocionado. O intelectual marxista ainda vivia no ex-presidente, e sua visão estética de mundo achava lindo o discurso do operário que ascendeu ao poder para ajudar os mais pobres. Esse tipo de coisa é irresistível para um coraçãozinho vermelho, que se encanta com narrativas, não com a realidade ou com resultados concretos.

O fenômeno Bolsonaro fez muita máscara cair e muito socialista envergonhado sair da toca. FHC não se aguenta uma semana sem declarar em alguma entrevista o voto antecipado em Lula. Todo tucano, quando desce do muro, o faz do lado esquerdo, e normalmente cai no colo de um petista. Há alguns quadros novos mais esclarecidos no PSDB, sem dúvida, e alguns surfaram a onda direitista para se eleger. Mas a essência é esquerdista, não tem jeito. Tucano, via de regra, é um petista com perfume francês.

É por isso que o debate sobre uma possível chapa com Lula e Alckmin não gera tanto espanto assim nos mais atentos. Toda a "terceira via" até agora anunciado, aliás, é formada por tucanos que nutrem simpatia - escancarada ou oculta - pelo PT. Todos eles, sem exceção, preferem a volta de Lula em vez da reeleição de Bolsonaro, o que já diz muito sobre seu esquerdismo. O colunista da Folha Celso Rocha de Barros, contumaz esquerdista, resumiu o que todos ali sentem quando disse: "É de uma solução com esse espírito que o país precisa para voltar ao caminho que queremos".

O caminho da Argentina? Ou seria o da Venezuela? Na narrativa dentro da bolha esquerdista, uma aliança entre PT e tucanos seria um grande ato democrático, de centro, em prol do Brasil, para impedir a ameaça "fascista" que Bolsonaro representaria. É um discurso patético, que na prática visa ao retorno dos tempos pré-Bolsonaro, ou seja, quando a esquerda podia brincar de pluralidade disputando o poder só entre ela.

Sou favorável a essa chapa Lula-Alckmin, pois ela serviria para enterrar de vez o teatro das tesouras. Alckmin nem precisa mudar muito. Basta ele recuperar as imagens daquela fatídica eleição em 2006. Algumas concessões ao mercado não fazem de tucanos defensores do liberalismo. E quanto ao estilo mais engomado de Sorbonne, vale lembrar que até o Lulinha Paz e Amor de Duda Mendonça já usava terno Armani. Petistas já descobriram o perfume francês e sua magia na elite culpada da esquerda caviar. Que petistas e tucanos se unam logo de uma vez, realizando a fusão que tantos ali sonham faz tempo, mas não podem ou não querem confessar...

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