O funk é uma legítima manifestação cultural ou sinal da decadência de nossa era?
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O tema em debate hoje no GLOBO foi o funk como manifestação cultural. O editorial do jornal adotou a postura favorável, enquanto Milton Rangel, deputado estadual pelo DEM, ofereceu o contraponto, alegando se tratar de uma “cultura da futilidade”. Abaixo, os principais argumentos da cada lado, e em seguida minhas observações finais.

A favor:

É conhecida a trajetória do samba. De música “da malandragem”, proibida, com seus compositores perseguidos pela polícia, tornou-se identificada como autêntica manifestação da cultura do país. […] Não foi outra a origem de outros ritmos cujo valor hoje é reconhecido pela sociedade — o jazz dos negros americanos, o jongo, manifestação de resistência no Rio de Janeiro e por aí vai. É importante assinalar a maneira como manifestações culturais nascem e se tornam emblemáticas da expressão do que se costuma chamar de minorias (ainda que não numericamente, mas como grupos de produção de cultura) num momento em que, por discriminação, radicalismo ou quaisquer outras razões, parcela considerável da sociedade tem relegado o funk à simplória categoria de “música de bandidos”.

É uma simplificação perigosa. Ela leva, em geral, ao preconceito e à perseguição. Ambos estão presentes, por exemplo, na estigmatização policial dos bailes realizados em favelas pacificadas — a ponto de tais eventos serem explicitamente proibidos pelos comando de UPPs ali instaladas, uma afronta a direitos comezinhos como a liberdade de reunião e de manifestação.

[…]

O funk não é, necessariamente, um ritmo de bandidos, assim como o rock, a despeito de a ele se associar o jargão “sexo, drogas e rock’ roll, não pode ser resumido a “música de drogados”. Ao contrário, de sua simplicidade inicial decorreu uma profusão de músicos de talento.

No caso do funk, há letras que exaltam a violência, a criminalidade, o analfabetismo político, o desrespeito à lei. Mas não se pode esquecer que ele nasceu como manifestação de comunidades onde a violência é uma realidade. Se o oportunismo social o associou ao crime é outra discussão — um problema de combate ao banditismo, não à música.

A qualidade (ou a falta dela) do que se ouve mede-se com o tempo. O que é bom fica.

Contra:

É profundamente lamentável que a música brasileira tenha chegado a esse ponto, depois de ter encantado o planeta com a bossa nova, o chorinho, o samba de raiz. Isso é o reflexo da falta de cultura de um país que tem um ensino sucateado pelas aprovações automáticas. O que esperar do funk, das pessoas que se submetem a um pancadão? Seria o cúmulo da vergonha considerar um tipo de música tão vulgar e ridícula como forma de manifestação cultural. Isso sem falar que os bailes funk servem para ajudar a fazer apologia ao tráfico de drogas e armas, que todos já sabem, com letras que fazem exaltar a violência, o crime e a prostituição.

Não que o funk seja a causa disso tudo, mas ele exalta valores que perpetuam essa realidade. É no funk que bandidos viram heróis em suas letras malfeitas e sem poesia. A naturalização da violência, já tão presente na vida de jovens e crianças que crescem em comunidades carentes, a desvalorização da vida e a busca inconsequente por ascensão social só colaboram para maiores índices de morte, tortura, estupro etc. São aspectos do funk que infligem frustração e sofrimento em seres humanos. Os valores das famílias e do amor são trocados pelas facções e pela cultura do estupro.

O funk está ligado à banalização do crime e à vulgaridade. […]

Funk não é cultura da favela. É cultura dos bandidos. Os que moram na favela não consideram os traficantes como heróis, como o funk canta. Não odeiam policiais como o funk canta. Respeitam mulheres e crianças. Enfim, o funk não representa o pobre. Defender o funk é defender que o morador da favela continue refém do tráfico.

Tomo o partido do deputado, apesar de compreender – mas não concordar com – os pontos do editorial. A grande falácia que identifico é a seguinte: parte-se de uma premissa verdadeira – outros ritmos começaram subversivos, atacados com base em argumentos parecidos – e chega-se a uma conclusão equivocada – tudo que é subversivo hoje pode virar cultura legítima amanhã.

O mesmo fenômeno se observa nas artes. A arte abstrata veio desafiar a clássica, muita coisa que era rotulada como subversiva ou feia caiu no gosto popular depois, e talentos foram reconhecidos enquanto antes havia apenas desconfiança. A arte contemporânea marcou seu lugar na história da arte.

Daí se passou para algo totalmente sem sentido, absurdo até: qualquer coisa que choca hoje, que é vista como ruim, terá o status de arte amanhã. Na verdade, quanto mais chocante e horrorosa uma “obra de arte” para os padrões atuais, maior é a probabilidade de ela ser tida como incrível no futuro. Chegamos, assim, ao cocô como “arte”.

Esse é um fenômeno da modernidade, em que o relativismo estético e moral chegou ao seu ápice. Na “marcha dos oprimidos”, tudo que é visto como ruim, mas feito por “minorias”, precisa ser aceito, aplaudido, elogiado. Caso contrário é puro preconceito da elite. Quebrar todos os tabus da moralidade burguesa é a coisa mais fantástica do mundo.

Não dá para engolir isso. Portanto, mesmo entendendo que o alerta feito pelo jornal é válido, lembrando que algumas coisas antes consideradas nefastas se tornaram aceitas e até louváveis do ponto de vista cultural, fico do lado do deputado: o funk, em linhas gerais, é podre, pura apologia ao que não presta, de uma pobreza artística ímpar. Não dá para colocar a nona sinfonia de Beethoven ao lado de uma típica música de funk e simplesmente dizer que “tudo é arte”, pois dessa forma nada é arte.

Se em algum dia o funk for se depurando e sobrar alguma coisa que preste, tudo bem: serei o primeiro a reconhecê-lo como traço cultural. Mas hoje não dá para fazer isso, não dá para repetir com Caetano que o funk é “lindo” e que Anitta tem muito talento. Essa postura é típica ou de elite culpada da esquerda caviar ou de subversivo que tem em mente apenas o ataque a todos os valores morais caros à classe média burguesa.

Que me perdoem os “esclarecidos sem preconceitos”, mas eu não consigo chamar funkeiro de artista. Tenho mais respeito pelo conceito de arte, que deve exigir mais dos seres humanos, sua busca pela transcendência, não pelo que há de pior e mais efêmero em nossas vidas.

Rodrigo Constantino

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