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Repórter da Veja resolve trabalhar com Uber por uma semana e resultado é uma dura lição ao jornalismo
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Por Alexandre Borges

Quer entender o que há de pior nesta geração? Leia esta reportagem da nova Veja contra o UberX, é uma aula.

O repórter da Veja resolveu, prepare seu coração, trabalhar. Ele foi checar como é ter uma ocupação de verdade para pagar as contas e não gostou nada da experiência. Os brasileiros comuns, que não passam o dia lacrando no teclado em salas refrigeradas comendo biscoitinho sem glúten e tomando chá importado que combina com seu signo, achariam sua experiência algo como tirar férias.

Já no primeiro dia, o jornalista percebeu que trabalhar “não ia ser moleza”, o que deve ter dado uma saudade enorme da Veja. Sua jornada foi de cinco horas (coitadinho!) e ele sentiu “dor no tornozelo” e “cansaço mental”. É quase trabalho escravo, não? Jornada de cinco horas? Sentir cansaço mental? Onde esse mundo capitalista e opressor vai parar?

É bom lembrar que o repórter entrou no UberX, a modalidade mais barata e menos exigente do aplicativo, um dado pouco destacado na matéria. Para quem quer oferecer ou adquirir um serviço premium, há outras modalidades.

Depois vocês não entendem porque o jornalismo perdeu qualquer conexão com a realidade. O repórter trabalhou cinco horas por dia, cinco dias por semana, num trabalho honesto, que oferece uma alternativa real para parte dos 13 milhões de desempregados do país, e ficou cho-ca-do. Nem um balde de Nutella curaria tamanho stress.

No primeiro dia, sem qualquer experiência, faturou R$ 67,48 em 4h24min. Não é nenhuma fortuna, mas com uma jornada normal de trabalho já é possível ter um rendimento superior a grande parte da população brasileira, incluindo uma massa enorme (e ignorada pelo jornalismo) de desempregados.

O jornalismo não parece muito interessado nas causas da crise econômica que empurra os brasileiro para ocupações com baixa remuneração, especialmente os que não possuem muita experiência ou qualificação profissional. Preferem pegar no pé das alternativas reais para que os brasileiros que mais precisam tenha como pagar as contas e reconstruir suas vidas.

Há pelo menos 13 milhões de brasileiros sonhando com a oportunidade de ter “cansaço mental” e “dor no tornozelo” (ui!) para quitar as contas básicas e colocar comida na mesa de casa. O Brasil real, destruído pelo partido tão amado pela imprensa, acharia uma jornada de cinco horas por dia, cinco dias por semana, um luxo. Já o floquinho de neve da Veja derreteu.

Quando a direita-Teletubbie-Nesquik diz que o importante é a “economia”, não entende que é a cultura (e o jornalismo faz parte dela) que tira a legitimidade do capitalismo e faz com que a população vote em caudilhos, oportunistas e coronéis que prometem migalhas estatais em vez de oportunidades de emprego e a chance de ser responsável pela própria vida. Esta reportagem tenta ser mais uma estaca no coração débil do livre mercado brasileiro.

Os brasileiros nunca estiveram tão órfãos de uma imprensa que entenda quem eles são, quais são seus reais problemas e o que é possível fazer para melhorar o país. Se houvesse investidores menos covardes ou míopes, o Brasil já teria novos players neste mercado. Enquanto isso, ficamos com a demonização do trabalho e do livre mercado.

– “Jornalista virou Uber por um mês e lucrou só 30 reais por dia” http://abr.ai/2ne3peZ

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