Será que dá para falar sério sobre Trump, sem cair no oito ou no oitenta?
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Alguns leitores têm achado, de forma bastante equivocada, que me tornei um defensor incondicional de Donald Trump. Um deles usa até um termo para isso: “trumpete tupiniquim”. E essa turma questiona: como ficam seus valores liberais na hora em que o presidente defende mais barreiras comerciais, ou uma cláusula nacionalista na compra de insumos para obras?

Quem, todavia, tem acompanhado com mais atenção o blog saberá que eu não aplaudo tais medidas. Sim, é perfeitamente legítimo criticar Trump por seu viés protecionista. Ele é uma figura ambígua mesmo, pouco confiável no que diz respeito a princípios e valores, e basta ver a quantidade de vezes que já mudou de opinião antes.

Portanto, Trump não merece apoio incondicional. Aliás, qual político o merece? Nenhum! Liberais e conservadores são céticos com o poder, sempre. São desconfiados, pregam o mecanismo de pesos e contrapesos justamente porque não esperam de governantes milagres, não transformam a política em religião.

Dito isso, Trump merece ser defendido, em minha opinião, pelo “big picture”, e é o que venho fazendo. Os estadistas – e Trump ainda está muito longe de ser chamado de um – são julgados pelo conjunto da obra, não por medidas pontuais eventualmente contraditórias. É com base nesse critério que tenho analisado o que representa sua vitória até aqui.

Vejamos um exemplo concreto: Trump liberou numa canetada a construção do “polêmico” oleoduto. Logo depois veio com o ranço nacionalista falar em aço americano na sua construção. Muitos liberais preferiram focar nesse lado. Tudo bem: mas e o fato de ele enfrentar, com coragem, o poderoso lobby ambientalista, que vinha travando a obra? O que é mais importante: ter o oleoduto com aço americano ou não ter oleoduto algum?

Trump veio desafiar um establishment podre, furar a bolha da esquerda caviar, fechar a torneira das ONGs “progressistas”, expor o viés escancarado da mídia mainstream (a verdadeira “fake news”), e isso tem muito valor! Agora, claro que o “homem laranja” vai se exceder aqui e acolá, vai fazer coisas erradas, até absurdas do ponto de vista liberal. E merecerá críticas por isso, sem dúvida.

Alguns leitores têm alertado que ainda vou me queimar pela defesa de Trump. Talvez. Mas quem realmente tem acompanhado meus textos e vídeos sabe que é uma defesa com cautela, ou seja, estou dando o benefício da dúvida ao novo presidente, para avaliar se esses acertos serão maiores que seus eventuais erros. O que Trump tem de melhor é aquilo que ele combate, mais do que aquilo que defende.

Muitos ficam arrepiados com comparações entre Trump e Reagan. Entendo, como um admirador de Reagan. Mas cuidado: Reagan nem sempre gozou dessa estima toda. Ele era um cowboy idiota, um ator imbecil, um belicista que levaria à guerra mundial, e seu programa militar fora acusado pelos liberais por conta do déficit fiscal produzido. Também era criticado por seu simplismo, sua linguagem boba, com metáforas infantis (que podem ser traduzidas por “clareza moral”, como quando definiu os soviéticos como “império do mal”). Foi somente depois do sucesso de sua gestão que ele passou a ser realmente idolatrado.

Isso ainda pode acontecer com Trump? Pode. Se ele conseguir reverter parte do estrago causado pela esquerda, se ele for capaz de aumentar a segurança com seus muros e maior “clareza moral” acerca dos inimigos islâmicos, se ele reduzir impostos e burocracia e a economia retomar o crescimento, se ele romper com os grilhões do politicamente correto, isso tudo entrará para seu legado positivo, apesar dos deslizes.

Pergunto, então: será que dá para evitar os extremos, o lado dos “inteligentinhos” que demonizam Trump só para posar de bonzinho, até mesmo o comparando a Hitler, e o lado dos seus fãs incondicionais, que precisam aplaudir tudo que o homem faz como se fosse um gênio infalível? Dá para fugir desse clima de torcida de futebol?

Se eu passei da dose na defesa de Trump, levando alguns a me confundir com esses fanáticos, foi uma impressão errada, e só tenho dado mais destaque ao lado bom porque a demonização por parte da grande imprensa tem sido total. É uma forma de reagir, apenas isso. Mostrar que há, sim, esse outro lado, e que ele ainda poderá se mostrar mais importante.

Quem leu essa minha lista com 40 livros para se compreender melhor o mundo pós-moderno, entenderá o que está em jogo aqui. Vejo Trump como alguém que pode desafiar esse status quo “progressista”, e isso é muito relevante. É tão relevante que faz até com que eu “perdoe” esse seu viés mercantilista, até porque economia não é tudo na vida, ao contrário do que pensam alguns liberais.

Os dois extremos já condenaram ou absolveram Trump antes mesmo de ele começar a governar direito. É o mesmo erro que fizeram com Barack Hussein Obama, mas em lados opostos. Prefiro aguardar para dar o veredicto final depois. Enquanto isso, sigo emitindo minhas opiniões e fazendo minhas análises de forma independente, condenando aquilo que merece críticas, mas sem deixar de lado o quadro geral. Trump veio chacoalhar a turma esquerdista, acostumada a não ser cobrada por sua hipocrisia. E isso é maravilhoso!

Rodrigo Constantino

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