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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Sunab informa: congelamento de preços e fiscais do Sarney estão de volta

A revolta dos caminhoneiros foi compreensível. Cansei de falar que entendia a angústia deles. A situação não está fácil para ninguém, por conta da herança maldita deixada pelo PT. Como o elo final na cadeia, esses motoristas estavam espremidos, situação que ficou ainda pior com a disparada do dólar e do combustível, commodity com preço definido pelo mercado internacional. O desespero foi o resultado.

Mas tomar decisões com base nos sentimentos pode ser algo muito perigoso. A parte do corpo que pensa é o cérebro, não o estômago. Foi a reação dos caminhoneiros que muitos liberais e conservadores prudentes condenaram. E foi a animação infantil de ala da direita jacobina, que viu nesses caminhoneiros libertadores revolucionários, que passou a ser tão criticada. O tempo logo mostrou quem tinha razão.

Agora, como efeito dessa bagunça toda, da adoção de métodos esquerdistas por parte da direita, lembrando que o presidente do PSL, braço direito de Bolsonaro, foi aos grevistas tirar casquinha eleitoral da coisa, temos um retrocesso de décadas no país. Não só houve a evidente tormenta imposta à população, que viveu dias de Venezuela, além de ao menos um morto por marginais grevistas, que intimidavam quem queria trabalhar, como vimos o resgate do congelamento de preços e dos “fiscais do Sarney”, agora sob o comando de Michel Temer:

A obrigação imposta pelo governo de que todos os 40 mil postos do país reduzam o preço do litro do diesel em R$ 0,46, vai ser impossível de se fiscalizar, dizem especialistas. Os analistas veem na exigência um mecanismo parecido com o tabelamento dos preços, usado no Brasil no auge da hiperinflação como uma tentativa de segurar os reajustes. Sócio da GO Associados e ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Gesner de Oliveira diz que tabelamento é algo que ele nunca viu dar certo, nem na experiência mundial nem mesmo no Brasil nos últimos 30 anos:

— O tabelamento, como solução de curtíssimo prazo para atravessar a crise até o fim do ano, pode ser implementado, já que foi acordado. Mas não é uma política consistente. É impossível fiscalizar 40 mil postos.

Os postos terão de expor o preço que praticavam em 21 de maio, dia do início da greve, e depois aplicar a redução de R$ 0,46. Se não repassar o corte, poderá ser multado em até R$ 9,4 milhões ou ter a licença cassada.

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Depois de lançar o programa “S.O.S Caminhoneiro”, um canal de WhatsApp para denúncias de casos de violência contra caminhoneiros, o governo lançou, nesta sexta-feira, novo número de WhatsApp para que o consumidor denuncie caso veja algum posto de gasolina vendendo diesel sem o desconto de R$ 0,46. Essa é uma das tentativas do governo para garantir que esse desconto seja repassado ao consumidor, especialmente o caminhoneiro.

“Viu posto vendendo diesel sem o desconto de R$ 0,46, mande WhatsApp”, diz a campanha divulgada pela comunicação do Palácio do Planalto. O caminhoneiro que vir algum posto de combustível descumprindo determinação do governo, poderá mandar mensagem para o seguinte número: (61) 99149-6368.

A culpa disso tudo, em essência, é do próprio governo, claro. Mas como não responsabilizar também os grevistas, que no fundo queriam apenas uma “solução qualquer” para seu problema imediato, ainda que à base de canetada estatal e mais intervenção do governo? Eles que colocaram um governo fraco contra a parede, inclusive com muitos falando em “intervenção militar”, “tirar o presidente” ou “derrubar o sistema”. E teve bobinho que acreditou que sua pauta era liberal…

E como não responsabilizar, também, essa ala oportunista e revolucionária da direita, os tais jacobinos que querem ver o circo pegar fogo, que adotam métodos cada vez mais parecidos com aqueles dos seus “inimigos”, os comunistas? Vimos tanto Boulos do PSOL como vários reacionários vibrando com a saída de Pedro Parente da Petrobras, o que significou a perda de bilhões para seus acionistas, justamente porque era um gestor mais sério tentando sanear a estatal, falida pelo PT.

Esses que insuflaram as massas, que bancaram os agitadores e viram nos caminhoneiros “revolucionários libertadores”, como se fossem um Washington ou um Jefferson, deveriam aproveitar esse resultado nefasto da paralisação para refletir mais, com humildade, e perceber que seus métodos estalinistas não combinam com o conservadorismo que dizem defender. Acusam os prudentes à direita de “conservadores doutrinários” e adotam a dialética marxista para sempre se escusar das trapalhadas que fazem, e isso tudo em nome da direita, o que nos enche de vergonha.

É chegada a hora de traçar uma linha divisória, de separar o joio do trigo, sob o risco de a grande maioria dos liberais e conservadores ser infestada e ter sua reputação manchada por essa minoria barulhenta, sectária, radical e revolucionária. Entender a angústia do povo brasileiro hoje, repito, entendemos. Mas daí a usar isso como combustível para bandeiras irresponsáveis vai uma longa distância, aquela que separa a turma decente e séria dos aventureiros e oportunistas. Carlos Andreazza chamou a atenção para esse risco:

Renan Santos, uma das lideranças do MBL, concordou: “Parabéns aos envolvidos! A grande revolução popular dos caminhoneiros terminou nisso aí: mais impostos e demissão de gente séria. Que tal um lockout pela volta da Graça Foster?”

São vários nomes entre os formadores de opinião à direita, liberais e conservadores, percebendo que é fundamental traçar essa linha divisória o quanto antes, para não matar em seu nascedouro essa “onda conservadora” que tem crescido nos últimos anos. Não podemos ser confundidos com inconsequentes que ajudaram a ferrar com o país, de olho em seus interesses próprios e partidários, ou para alimentar um ego inflado de quem quer ser o Rasputin de um futuro presidente.

Nosso compromisso é com o Brasil, e nosso projeto é de longo prazo. Houve várias conquistas no caminho, inclusive o impeachment de Dilma, que nos afastou um bocado do risco de virarmos uma Venezuela. Estávamos, com inteligência e prudência, defendendo reformas necessárias para reduzir o rombo das contas públicas e privatizar as estatais.

Política é a arte do possível, e é preciso saber engolir sapos, ter paciência. Sabemos que a crise tem retirado a paciência de muita gente, mas a melhor resposta não é atiçar os ânimos exaltados e pregar uma revolução. Esse tiro vai sair pela culatra. Já saiu. Regredimos décadas para que um governo enfraquecido pudesse atender exigências de um grupo organizado que fez o Brasil de refém nos últimos dias. E isso com os aplausos de quem se diz liberal ou conservador!

Se a direita não se afastar desses jacobinos logo, toda ela poderá sucumbir pela burrice ou vigarice de uns poucos. São nos momentos de crise que é mais importante se destacar pela estabilidade, coragem e inteligência, sem se deixar levar pelas emoções ou pela pressão de uma seita fanática. Vamos avançar, impedir o socialismo, construindo instituições sólidas, plantando sementes férteis e, acima de tudo, preservando nossos princípios. Não podemos virar aquilo que condenamos. Os meios importam. Isso não é ser “limpinho” ou “purista”, e sim prudente e honesto.

Conclamo todos a refletir melhor sobre esses últimos acontecimentos, pois eles são uma aula, um doutorado em política, algo que os imberbes seguidores de gurus ignoram. E não se deixem intimidar pela pressão (insuportável às vezes) dessa turba, que vem como um enxame de abelhas zunir em nossos ouvidos, pois não toleram o contraditório e são os detentores da “Verdade”. Lembrem-se do que disse Edmund Burke, liberal que virou o “pai do conservadorismo” ao ver justamente o perigo jacobino batendo à porta:

Porque meia-dúzia de gafanhotos sob uma samambaia faz o campo tinir com seu inoportuno zumbido, ao passo que milhares de cabeças de gado repousando à sombra do carvalho inglês ruminam em silêncio, por favor, não vá imaginar que aqueles que fazem barulho são os únicos habitantes do campo; ou que logicamente são maiores em número; ou, ainda, que signifiquem mais do que um pequeno grupo de insetos efêmeros, secos, magros, saltitantes, espalhafatosos e inoportunos.

Por fim, lembrem-se também de que valorizamos indivíduos que pensam por conta própria, não membros de seitas coletivistas, que delegam o “pensamento” ao seu líder e todos os demais repetem “amém” cegamente. Esse aqui é nosso herói:

Manter a cabeça no lugar quando todos à sua volta parecem estar perdidos: eis o desafio agora. Essas últimas semanas foram terríveis para o Brasil, e deram munição para a esquerda. Derrotar a esquerda nessas eleições ainda é a meta mais importante de curto prazo, claro, mas é preciso pensar como fazer isso, e da forma correta. Não é agindo como a própria esquerda que vamos conseguir. Ao contrário: jogando lenha na fogueira das revoltas vamos apenas afastar pessoas moderadas que poderiam vir para o lado de cá. Prudência, meus caros! E princípios…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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