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Rodrigo Constantino

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Quando os bancos centrais perdem independência…

A manutenção das taxas de juros baixas pelos bancos centrais dos países desenvolvidos por um período prolongado pode causar bolhas e provocar a má alocação dos recursos na economia, segundo Jan Lambregts, diretor e chefe global de pesquisa de mercados financeiros do Rabobank.

Em entrevista ao Valor, o executivo britânico afirmou que os bancos centrais dos países desenvolvidos estão sofrendo pressão política e perdendo independência. “Isso me deixa preocupado, porque no passado a política monetária foi desastrosa nos países em que os bancos centrais não eram independentes”, disse o economista, que é responsável pela equipe global de analistas e estrategistas de macroeconomia, câmbio, crédito, renda fixa, e commodities do banco holandês.

[…]

Acredito que, secretamente, muitos desses governos gostariam de ter mais inflação porque possuem dívidas altas. Em termos reais, a dívida é reduzida pela inflação mais alta. Políticas pró-inflacionárias estão sendo empregadas hoje para reduzir a dívida dos governos.

O chefe de análise do Rabobank tocou em pontos importantíssimos, que têm sido ignorados nos últimos meses. São os próprios bancos centrais, os guardiões da moeda, que costumam inflar bolhas quando atendem aos interesses políticos. Mas nem sempre a bolha se limita ao país de origem. Ela pode ocorrer em lugares imprevistos. Até no Brasil. Explico:

Após a crise de 2008, o Fed inundou o mundo com dólares, no afã de evitar uma recessão que poderia se transformar em depressão. Mas dinheiro não tem carimbo. O governo não controla seu destino final. Ao tentar inflar o “piscinão” do mercado americano, essa liquidez abundante acaba transbordando para outros mercados, para outras piscininhas mundo afora.

Esses mercados são tão menores que basta um punhado desses dólares para fazer a festa. Ou seja, a ação do Fed para estimular o enorme PIB americano pode produzir bolhas na América Latina. Uma borboleta que bate as asas num continente pode produzir um furacão em outro. Imagina um elefante enorme balançando suas gigantescas orelhas!

Outra metáfora: o Fed é o dono do ponche na festa, e anunciou que iria servir rodadas de bebida grátis ilimitadas. Quando o relógio marca duas da madrugada, e os presentes estão se fartando de liquidez etílica desde às oito horas, parece natural que comecem a chamar urubu de “meu louro”. As mocreias se transformam em lindas modelos. O critério de julgamento desaparece.

É por isso que o Haiti consegue emitir títulos de dívida do governo com prazo de dez anos pagando cerca de 7% ao ano em dólares (quem seria louco para comprá-los em condições normais?). É por isso também que empresários que possuem uma bonita apresentação de Powerpoint e um X no nome da empresa conseguem levantar dezenas de bilhões no mercado (com uma incrível ajuda do BNDES, é verdade).

Com a farta liquidez induzida pelo Fed (e pelo BCE, BOJ etc), o preço das commodities tende a subir. Isso ajuda a explicar o poder todo que um lunático bufão como Hugo Chávez acumulou, com seus petrodólares jorrando pelos poços da incompetente PDVSA. A revolução bolivariana pode não saber, mas tinha em Bernanke um grande aliado!

A imagem que melhor captura essa ligação entre Fed e bolhas é esta:

Fonte: Bloomberg

Quando o Banco Central americano jogou artificialmente a taxa de juros para patamares muito baixos, isso invariavelmente produziu bolhas. Com o custo do capital reduzido, às vezes a valores negativos quando descontamos a inflação, os investidores fazem verdadeiras loucuras.

Resta saber qual bolha o Fed ajudou a produzir nos últimos anos, e quando vai estourar. O Brasil parece um candidato em potencial. Sabemos que vários excessos foram cometidos graças a esse cenário benigno de fora, e esqueletos estão escondidos por aí. É bom estar preparado para o pior…

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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