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Cultura popular

8.570 palavras sobre o Brasil

Durante 40 anos, frade holandês registrou em cadernetinha falas, rituais das irmandades e folguedos da cultura popular. Trabalho resultou num dicionário cuja originalidade é ter nascido da convivência do religioso com benzedeiras, romeiros e foliões

  • José Carlos Fernandes
Frei Chico, o violão e o palhaço feito por sua mãe. Religioso faz shows em praças do interior do Brasil. “Me chamam de Chico Doido” |
Frei Chico, o violão e o palhaço feito por sua mãe. Religioso faz shows em praças do interior do Brasil. “Me chamam de Chico Doido”
 
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8.570 palavras sobre o Brasil

“Eu sou um palhaço de circo”, define-se o frade holandês Francisco Henricus van der Poel, 72 anos, 44 deles passados no Brasil. Seu picadeiro são as feiras do interior de Minas Gerais, nas quais toca violão, faz cantorias, benditos e conta histórias. Não é raro arrancar gargalhadas da plateia, encantada diante do homem baixinho, sotaque de uma tonelada e hábito pedindo remendos. Preso à cintura, além do rosário, leva sua única fantasia – um bonequinho de pano, confeccionado por sua mãe. “Tem quem me chame de Chico Doido”, entrega o religioso convertido em artista popular brincante.

Não é a primeira conversão de frei Chico. Ele chegou ao país em 1968 – o tal do ano que não acabou. Sabia da ditadura, mas colocá-lo no centro das passeatas não estava nos planos dos superiores da Ordem capuchinha. Frei Chico foi mandado como missionário para o Vale do Jequitinhonha, então apontado como a terceira região mais pobre do mundo.

Impressionou-se com a penúria do sertão, mas também com o tal do “Brasil profundo”. Procissões, simpatias e irmandades – tudo soava muito exótico, e caloroso, para quem tinha passado parte da vida na minúscula Zoeterwoude, com 4 mil habitantes, na qual se respirava os ares severos do calvinismo.

Francisco tinha duas opções: entender o que via como resultado de um catolicismo estacionado no barroco português; ou descobrir o que queriam dizer tantas fitas, flores, imagens e rituais. Ficou com a segunda opção. “Foi uma aventura. Me emocionei. Vibrei. Eu ouvia pássaros e cantorias até quando estava no chuveiro. Tive de me converter”, diverte-se.

Caderneta

Reza a lenda que daquele dia em diante nunca mais deixou de andar com uma cadernetinha em punho. Anotava frases inteiras, um legítimo João Guimarães Rosa dos Países Baixos. Registrava letras de músicas. Causos. Geografias. Muitas vezes gravava fitas cassetes, formando um acervo de dizeres e cantares que rivaliza em importância com o de José Ramos Tinhorão e Inezita Barroso, dois mestres da cultura de raiz. O frade estima ter escrito 15 mil páginas de anotações, muitas vezes no lombo de um cavalo.

Tem sido assim nos últimos 40 anos. Frei Chico não deixou de anotar mesmo depois de sua transferência do Vale do Jequitinhonha para outras paragens mineiras, como a Colônia Santa Isabel, em Betim, onde atua junto aos doentes de hanseníase. É brasileiro a seu modo. Gosta de dizer que aprendeu a falar português com congadeiros e romeiros e a entender o país com a gente simples do Nordeste de Minas Gerais. Os inúmeros pesquisadores que o reverenciam dizem mais do que isso. Para eles, o religioso contribuiu para entender os costumes populares tanto quanto Câmara Cascudo, autor do Dicionário do folclore brasileiro.

No último mês, o que era um reconhecimento entre entendidos ganhou forma e volume. Com a monitoria e a revisão de pesquisadores de altíssimo quilate, como Lélia Coelho Frota, frei Chico compilou o Dicionário da religiosidade popular, um calhamaço de 1.152 páginas – 8.570 verbetes; 6.433 notas de rodapé – publicado pela editora curitibana Nossa Cultura. Mais do que comparado a Câmara Cascudo – a quem reverencia como se falasse de um dos santos do catolicismo –, Francisco vai ter seu livro colocado nas estantes ao lado da obra do mestre. “Hoje eu me preocupo com a cultura popular urbana. Quem é que está registrando os costumes que sobrevivem e se reinventam nas grandes cidades”, provoca.

Irreverente

Difícil não se render à importância do dicionário assinado por frei Chico. Se são muitas as virtudes do autor, tanto quanto são as virtudes da obra. A primeira delas, como diz o pesquisador Carlos Rodrigues Brandão é que não foi produzido por alguém que apenas admira a cultura do Vale do Jequitinhonha, mas por alguém que a vivencia. O holandês passou as últimas quatro décadas indo a terreiros de umbanda e cruzando o Rio São Francisco. Esteve com rezadeiras e benzedeiras, sem reservas. Nas horas de folga, costuma cantar e prosear com Rolando Boldrin, discutir com Augusto Boal. “Sou um irreverente”, resume.

A segunda virtude diz respeito ao fato de o autor ser um estrangeiro. O que aos olhos de muitos brasileiros soa quase comum – uma cerâmica do mestre Vitalino, um remédio com ervas, uma simpatia para espinhela caída –, para frei Chico ganha um olhar naïf. Ao ler verbetes como “puxador de terço” ou “quebranto”, para citar dois, o leitor se depara com o melhor dos mundos. Está ali o que dizem os populares sobre si mesmos, a ciência dos pesquisadores, mas, sobretudo, o encantamento do palhaço Chico Doido – um missionário holandês que, ao descobrir um pedacinho do Brasil, entendeu-o por inteiro.

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