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Ciência

A busca pela válvula cardíaca ideal

  • Tatiana Duarte
 
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Uma técnica de cirurgia cardíaca para a substituição de válvulas degeneradas do coração aliada ao desenvolvimento da engenharia de tecidos está conferindo ao Hospital de Caridade da Santa Casa de Curitiba o status de pioneiro na América e de terceiro centro no mundo a realizar esse procedimento em humanos, que é considerado um avanço mundial na área.

O procedimento mescla a utilização da válvula cardíaca de um doador morto – em que são retiradas todas as células por meio de um processo químico e enzimático – com a aplicação de células retiradas da veia de safena do próprio paciente, expandidas na válvula antes de ela ser implantada. Todo o processo dura em torno de sete semanas e custa cerca de R$ 10 mil.

Desde novembro do ano passado, a instituição já fez cinco cirurgias desse tipo, todas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e tem a aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para mais 45 procedimentos nessa fase experimental humana. Para 2007, a previsão é de fazer outras 15 cirurgias. A equipe de pesquisadores trabalha em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Universidade Humboldt, em Berlim, na Alemanha.

O auxiliar de produção Wilson Antunes, 35 anos, descobriu em junho deste ano, após um acidente de moto, que sua válvula cardíaca aórtica não se fechava de forma apropriada, o que provocava refluxo sangüíneo e comprometia o rendimento e a eficiência do seu coração. “Fui encaminhado à Santa Casa e decidi me sujeitar a esse experimento depois que o médico me disse que eu poderia ficar 100%”, diz.

O mesmo cirurgião que fez o experimento em Antunes foi o que recebeu na semana passada um prêmio da Sociedade Brasileira de Cardiologia pela experiência de dez anos com a Operação de Ross no Brasil. Francisco Diniz Affonso da Costa é o único médico no Brasil especializado nesta cirurgia, que consiste na substituição da válvula cardíaca aórtica degenerada pela válvula pulmonar, que por sua vez é trocada por uma válvula doada por cadáver humano (homoenxerto). O cirurgião já comandou 300 cirurgias desse tipo em Curitiba, e obteve uma taxa de sobrevida de 98% dos pacientes.

A técnica, segundo explica Costa, acabava resolvendo o problema do lado esquerdo da circulação, mas o transferia em parte para o lado direito – que recebia o homoenxerto, mesmo com pressão de três a quatro vezes menor. O homoenxerto não possui a capacidade de regeneração e nem de crescimento celular, o que leva a uma durabilidade de 30 a 40 anos em jovens e de 20 anos em crianças. “Já era um avanço, mas não a situação ideal, especificamente para pacientes jovens”, considera.

Foi aí que a equipe de pesquisadores do Núcleo de Enxertos Cardiovasculares do Laboratório de Tecidos e Transplante Celular da PUCPR se associou às universidades de Humboldt, em Berlim, e de Leeds, na Inglaterra. Com isso desenvolveu no Brasil a tecnologia conhecida como descelularização do homoenxerto. Em janeiro de 2002, a Santa Casa iniciou o emprego clínico das válvulas humanas doadas por cadáver.

Até hoje foram 60 pacientes que se submeteram à Operação de Ross, com os homoenxertos descelularizados. “Mesmo assim ainda não era a situação perfeita, porque a repopulação é apenas parcial”, ressalva. A partir dessa limitação, e em busca da válvula humana perfeita, os pesquisadores iniciaram o experimento em pacientes humanos no ano passado.

A cada ano, 20 mil brasileiros são submetidos a cirurgias de substituição de válvulas cardíacas e pulmonar, sendo que apenas 1,5% (300) utilizam homoenxertos, mas sem utilizar a técnica de Ross. A maioria usa próteses mecânicas, que exigem o uso de anticoagulantes por toda a vida, ou próteses biológicas feitas a partir de tecidos de animais e com menor durabilidade. A cirurgia é necessária quando a válvula aórtica é lesionada por defeitos congênitos, moléstias reumáticas, degenerações calcíficas e processos infecciosos.

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