As professoras Denise, Viviane e Raquel: esquina do mundo. | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
As professoras Denise, Viviane e Raquel: esquina do mundo.| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

“Pode deixar... eu vou lá embaixo e resolvo”, costuma dizer a pedagoga e psicóloga Raquel Zandomenighi, a cada novo impasse no colégio que dirige – a Escola Municipal Itacelina Bittencourt, no Guaíra. O “lá embaixo” ao qual se refere não é o pátio ou coisa assim, mas a Vila Parolin, distante da escola “seis quadras e uma ponte sobre o córrego”. O local é tido como a zona favelizada mais antiga de Curitiba. Dali vêm 60% dos 460 alunos do 1.º ao 5.º ano que estudam na instituição. Os restantes são oriundos do Lindoia, da Ferrovila ou de áreas de assentamento. Do Guaíra, mesmo, são poucos – e essa é a questão.

A “Itacelina Bittencourt” funciona na Rua São Paulo há exatos 60 anos. Nasceu como Grupo Escolar Vila Guaíra, mudou de nome, passou da tutela do estado para a do município, mas seguiu atada a um destino – o de “escola onde estudam os moradores da favela do Parolin”. O que parece mais uma curiosidade está longe de se traduzir numa convivência tranquila.

Depois da ponte

Confira táticas de professores de escola do bairro Guaíra

1 “Entre eles” – A direção da Escola Municipal Itacelina Bittencourt convocou as próprias crianças para colaborar na diminuição da evasão escolar. Em grupos de afinidade, elas cobram presença uma das outras e até batem palmas na porta das casas, no Parolin, chamando os colegas à aula. Ônibus da prefeitura transportam 150 alunos a cada turno, da vila ao colégio do Guaíra.

2 Corpo a corpo Apenas sete pais compareceram à primeira reunião do Projeto Equidade com a família dos alunos. Numa reação à apatia, professores do “Itacelina” cruzam a divisa dos bairros e se envolvem com os líderes comunitários, pedindo apoio. Resultados são lentos, mas aparecem.

3 Realidade – Conter a evasão escolar é desafio primeiro da “Itacelina”. “Se alguém tem mais de 55 faltas, torna-se impossível aprovar”, observa a diretora Raquel Zandomenighi. Além da negligência das famílias com a presença, há a agravante do êxodo provocado pelo tráfico – pais ameaçados deixam a vila temporariamente, fazendo com que os filhos abandonem a escola.

4 Câmbios – Idealizadores do Projeto Equidade entendem que a inclusão cultural e comunitária melhora o aprendizado e reduz a evasão. Grupo de educadores da prefeitura trabalha para conseguir intercâmbios e garantir acessos à arte e ao lazer. Entraram como apoiadores Sesc da Esquina, FCC, FTD Digital Arena, Teatro Guaíra, Rumo empreendimentos Culturais, Rodo Norte. O entorno do “Itacelina” ainda resiste em fazer parcerias.

JCF

Espécie de “decana” do Projeto Equidade – plano que vira de canelas para o ar a rotina da rede de ensino municipal –, a “Itacelina” esbarra na falta de identificação dos vizinhos, que não abraçam a “história de superação” vivida pela escola. A indiferença obriga os educadores a fazerem das tripas coração para estabelecer parcerias e captar recursos, de modo a garantir mais avanços às crianças do antigo grupo.

Vila, eu?

A partir de 2006, uma grande regularização fundiária praticamente sepultou a favela do Parolin: os 25 becos foram saneados, 677 novas moradias viraram teto de quem vivia em área de risco, inclusive nas partes mais altas e nobres do bairro. Graças a essa política, o Parolin de Baixo, como é chamado, mudou de status: passou de “ocupação” a vila pobre, com carnê do IPTU na caixa do correio e tudo mais. Como não se altera um estigma por decreto, o “Itacelina” permaneceu com o mesmo rótulo equivocado de sempre – o de um reduto de gente sem-teto, a cargo do governo.

Na década de 1960, a proximidade entre os dois bairros favoreceu o uso partilhado do colégio, ainda que com reservas. A rejeição se agravou nos últimos 15 anos, quando a bucólica Vila Guaíra ficou cada vez mais no passado. De loteamento operário cercado de ruelas paupérrimas por todos os lados – entre elas a mítica Favela do Valetão – virou o “Guaíra”, enclave com bons sobrados, tomado por um emaranhado de cercas elétricas, favorecido por fartas ligações urbanas.

O bairro “repaginado” faz da “Itacelina”, ainda mais, uma escola plantada em campo minado. E um fascinante case de educação. O local ostenta progressos educacionais notáveis, exceto um – o feito de garantir a convivência de crianças e pré-adolescentes de classes sociais diferentes, o que contraria um dos princípios da escola pública. Se em outras regiões romper esse apartheid é tão sensível quanto, no “Itacelina” beira o irracional.

PROJETO EQUIDADE

A prefeitura averiguou que 47 das 179 escolas da rede municipal são vulneráveis. Para que possam se desenvolver, passaram a gozar do Projeto Equidade – cuja filosofia é garantir condições de igualdade. Cerca de 23 mil crianças estão sendo atingidas..

Instalado em uma quadra inteira, o local tem as avarias próprias à maioria dos centros educacionais. O assoalho está carcomido, há duas salas interditadas, mas nada que a faça parecer um campo de refugiados. A escola é bem cuidada, arejada, limpa, e tem ares de liceu dos anos dourados. Com quase 40% dos alunos com Bolsa Família, saltou da nota 3,0 no Ideb 2005 para 4,5 (2013). A evasão baixou de 40% para 10%. Por ora, os vizinhos preferem ignorar essas qualidades, mantendo-a no posto de satélite artificial.

Nova ordem

Em tempos idos, o “Itacelina” chegou a se render à informalidade da favela. Havendo toque de recolher na vila, os pais atravessavam o córrego e confiscavam seus filhos, sem pedir licença. Não havendo motivo, também – com a desculpa de que era preciso leva-los para cuidar dos irmãos mais novos, ou mesmo para catar papel. A falta de regras converteu a escola numa espécie de abrigo, mantido ao custo de baixo aprendizado e alta taxa de evasão.

Por volta de dez anos, o que era regra virou exceção. Acabaram-se os tempos de casa da Mãe Joana. Uma das primeiras medidas foi proibir que a família retirasse os alunos no horário escolar. As faltas às aulas passaram a ser cobradas. A turma estrilou. Seria só uma queda de braço, não fosse um detalhe – “as professoras irem lá embaixo”, dando início a um corpo a corpo com os pais, de modo a convencê-los de que os filhos não deviam gazear, por todas as razões conhecidas.

Hoje, ninguém da Vila Parolin se espanta ao encontrar Raquel – uma mulher alta e enérgica – presente na reunião de associação de moradores. Inscreve-se, espera sua vez, pede a palavra para falar do “Itacelina”, das faltas, ou simplesmente convocar para uma festa no pátio do colégio. Diante dessa e de outras pró-atividades, os 46 professores passaram a se sentir revoltados com a insistência dos rankings em classificar de “ruim” a escola do Parolin/Guaíra.

“Somos valentes”, diz a diretora Raquel, sem deixar de reforçar que os índices tendem a ignorar que 1% de avanço, numa instituição com essas características, é antessala da revolução. A boa notícia é que há dois anos a Secretaria de Educação se deu conta disso, botando uma lupa na escola. Passou de deficitária a modelo a ser estudado – de modo a apontar saídas para tantas outras. Não é exagero: boa parte das tensões urbanas e pedagógicas de hoje em dia formam uma esquina na “Itacelina”, a escola que tem os pés em dois mundos.

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