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A revolta do cidadão comum contra os “formadores de opinião”
| Foto: Antonio More / Arquivo Gazeta do Povo

Bizarro mundo este em que vivemos. Tínhamos como certo, há menos de uma década, que opinião pública, imprensa e “formadores de opinião” (os bem-pensantes) eram coisas inseparáveis, condenadas a viverem e a permanecerem juntas até o fim dos tempos. Inesperadamente, no entanto, a opinião pública tornou-se um campo de batalha, a imprensa tradicional entrou em colapso e os formadores de opinião, os indefectíveis “especialistas”, foram lançados num quase ostracismo. Tais seres, inclusive, que se tinham e eram tidos socialmente em alta conta, foram condenados a falar praticamente uns para os outros e, o que é pior, se viram, num passe de mágica, substituídos por uma personagem inusitada que, embora prevista na trama das sociedades democráticas, tardou a ter mais voz no espetáculo: o cidadão comum.

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Lançando mão das facilidades comunicacionais propiciadas pelas novas tecnologias da informação, donas e donos de casa dos mais variados cantos atiraram-se numa aventura de tons “iluministas”: usaram de sua razão, de seu “bom senso”, esclareceram-se, saíram da “menoridade” e resolveram marcar presença no debate público. Uma vez aí instalados, descobriram similares e seguidores, muitos similares e muitos seguidores; e isso sem nunca recorrerem à autoridade dos títulos acadêmicos ou à chancela dos bem-pensantes; ao contrário, a legitimidade do que dizem é retirada da adesão dos tais similares e seguidores, da gente que compartilha de um mesmo universo de valores – cristãos, familiares e patrióticos –, valores comumente julgados desprezíveis e grosseiros pelos que se querem progressistas e esclarecidos.

A emergência dessas novas personagens no debate público e a tal guerra de narrativas que se instalou no espaço virtual é, no entanto, somente um dos sintomas de um mal de enormes proporções que há tempos, e num crescendo, vem comprometendo a estabilidade das sociedades ocidentais: o divórcio entre o grosso das populações nacionais e suas elites política, econômica e, sobretudo, intelectual. Para se ter uma ideia do tamanho do embrolho e de como o mesmo evoluiu rápido e numa direção inusitada, vale uma breve comparação. Em 1994, poucos dias antes de morrer, o historiador americano Christopher Lasch finalizou o seu premonitório A revolta das elites e a traição da democracia. A obra, tida por muitos como o testamento intelectual de Lash, propõe uma ampla reflexão sobre o futuro da democracia ocidental, melhor, sobre as soluções democráticas para um impasse inédito vivido pelas sociedades ocidentais: o crescente distanciamento entre as elites e os extratos médios e baixos da população, entre os que ocupam o topo da pirâmide social e as ditas maiorias silenciosas.

Lasch parte de uma constatação curiosa: a outrora temida revolta das massas, tidas como mesquinhas, ignorantes, imediatistas e descompromissadas com os interesses nacionais, deu lugar, no ocaso do século XX, a uma outra revolta, a das elites, elites igualmente desterrorializadas, afastadas dos interesses da res publica e avessas aos ditos valores nacionais. Essa revolta das elites globalizadas e o seu crescente descompromisso com o bem comum deixou as sociedades ocidentais acéfalas e cindidas: de um lado, as massas, apegadas a valores familiares e nacionais, ciosa de sua moral e ansiosa por vê-la defendida por aqueles que ocupam o topo da hierarquia social e que, aos seus olhos, deveriam ser os guardiões do modo de vida tradicional; de outro, elites hedonistas, que cultuam as formas marginais e alternativas de vida e que enxergam os antigos valores familiares e nacionais como coisa retrógrada, defendida por gente rústica e politicamente incorreta. Diante de tão radical ruptura, decisiva para os destinos das sociedades ocidentais, Lasch pergunta-se: é possível sair do impasse, preservando os valores que norteiam as democracias? Que caminho podemos tomar?

Um quarto de século mais tarde, em 2020, ou seja, depois da emergência da “democracia iliberal” de Orbán, do Brexit, do sucesso de Trump – que ainda ecoa na América –, da Polônia católica de Jaroslaw Kaczynski, da barulhenta revolta dos “coletes amarelos” e de tantos outros fenômenos sociais aparentados – como a eleição de Bolsonaro –, Christophe Guilluy, o geógrafo da “França periférica”, retornou ao tema no seu “O tempo da gente comum” (“Le temps des gens ordinaire”, sem tradução para o português), e o que encontrou, se não responde inteiramente às inquietações de Lash, não deixa de ser esclarecedor sobre os rumos que as coisas tomaram desde 1990. O divórcio que se anunciava, de fato, consumou-se: as elites se distanciaram mais e mais das tradições e valores do senso comum e do bem público; a gente de baixo, todavia, não aceitou passivamente o desamparo material e cultural em que quiseram lançá-la – o desprezo sistemático pelo seu modo de vida –, ao contrário, ela rebelou-se, ganhou autonomia, ascendeu ao debate público, fez ouvir a sua voz e, o que mais tem afligido a gente do topo, encontrou mecanismos eficientes para levar ao poder líderes que expressam as suas pautas – líderes que menos controlam os seus seguidores do que são controlados por eles, salienta Guilluy.

O topo, ainda que de uma maneira atabalhoada e um pouco tardia, reagiu: das ridículas “agências de checagem dos fatos” – os caçadores de “fake news” – à efetiva censura de perfis e temas nas redes sociais, ele tem tentado de tudo para retomar o controle da narrativa – até mesmo explorar o medo da morte das populações, em tempos de pandemia –, mas nada parece estar dando muito resultado. A gente comum persiste: burla a censura velada e a não velada, une-se, encontra porta-vozes variados e, sobretudo, legitima-se mutuamente, enfim, age com a certeza de que o seu tempo chegou, e não é hora de ceder ou retroceder. Quem vai levar a melhor neste verdadeiro cabo de guerra? Difícil saber, o jogo ainda está sendo jogado.

* Jean Marcel Carvalho França é professor Titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e autor, entre outros, dos seguintes livros: “Literatura e sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista (Imprensa nacional - Casa da Moeda, 1999), “Visões do Rio de Janeiro Colonial” (José Olympio, 2000), “Mulheres Viajantes no Brasil” (José Olympio, 2008), “Andanças pelo Brasil colonial” (Editora da UNESP, 2009), “A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII” (José Olympio/Editora da UNESP, 2012), “Piratas no Brasil“ (Editora Globo, 2016) e “Ilustres Ordinários do Brasil” (Editora da UNESP, 2018).

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