A esposa Melissa com a mãe de Fidu, Marta: ato de heroísmo custou a vida do entregador | André Rodrigues / Gazeta do Povo
A esposa Melissa com a mãe de Fidu, Marta: ato de heroísmo custou a vida do entregador| Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo

Homenagem

Creche deve ganhar nome do entregador de revista

Além de uma missa de sétimo dia, programada para amanhã, a vizinhança do Pilarzinho quer que a creche seja rebatizada com o nome de Fidu. Essa é a pauta da reunião do Conseg, marcada para as 19 horas de hoje, na Capela São Francisco Xavier. O presidente do conselho, Claudino da Silva Dias, explica que, caso seja aprovada pelos moradores, o pedido popular será enviado à Câmara de Vereadores. A instituição, que é mantida por uma Ong, deve se municipalizar no próximo ano.

A disposição em ajudar o próximo em qualquer situação era uma marca notória de Fidu – apelido pelo qual o entregador de revistas Antônio Eduardo Marcondes, 32 anos, era conhecido desde pequeno. Na vizinhança do Pilarzinho, todos sabiam: precisando de um conserto ou de uma carona para o hospital, mesmo que de madrugada, era só bater à porta da modesta casa de fundos da Rua Antenor Mallin. Era ali que Fidu estava no último dia 20, consertando um carro, quando funcionárias da creche em frente começaram a gritar por socorro. Não pensou duas vezes. Correu para encaixar a mangueira de gás do fogão e acabou sofrendo queimaduras de terceiro grau, que o levaram à morte duas semanas depois.

"A vila não vai ser a mesma sem ele. Não existia quem não gostasse dele, acho que nem sabia brigar. Eu dizia ‘Fidu, você tem que ser candidato a vereador’, de tão conhecido que era", lembra a mãe, a funcionária pública Marta dos Santos Marcondes, 51 anos. "Chamaram e ele foi. Acho que, mesmo que ele soubesse que isso iria acontecer, teria ido", diz Melissa Marcondes, 22 anos, com quem Fidu era casado há seis anos.

No momento do acidente, por volta das 13h30, Melissa ajudou uma educadora da creche a retirar as 95 crianças do local. "Eu estava aflita e gritei para ela trazer as crianças. Ficaram todas aqui em casa, sentadas na minha sala, na cozinha." Segundo ela, não se ouviu explosão, apenas o grito de uma das funcionárias. "Aí ele saiu de lá correndo, pulando na rua e gritando ‘ai, meu rosto’." Encaminhado ao hospital com 90% do corpo queimado, as chances de vida eram ínfimas. "Um dia antes de morrer eu vi que ele não voltaria", conta.

Atleticano roxo, costumava animar o bairro em dias de jogo. "A camisa do Atlético era a segunda pele dele", diz a irmã mais nova, Franciele, 27 anos. No dia do acidente, havia ido trabalhar mais cedo para poder ver o Furacão no primeiro jogo da final da Copa do Brasil. "Parece que era para ser, porque ele chegou para trabalhar, as bicicletas estavam em manutenção, e ele voltou para casa. Não era para estar aqui àquela hora", lamenta a esposa.

Cheiro de gás durava dias, dizem os vizinhos

Vizinha da família Mar­­condes, a auxiliar de produção Silvana Alves de Abreu, 41 anos, relata que o cheiro de gás na vizinhança era forte havia alguns dias. "Inclusive, depois do ocorrido, eles colocaram as crianças novamente dentro da creche, disseram que o cheiro de gás já tinha passado." A esposa de Fidu, Melissa Marcondes, conta que o chiado do gás era audível do outro lado da rua, no dia do acidente.

No dia em que a reportagem esteve no bairro, a instituição estava fechada em respeito ao sepultamento de Fidu, ocorrido na manhã da última quinta-feira. Um professor que estava no local e pediu para não ser identificado disse que o Corpo de Bombeiros vistoriou a creche, e não havia problemas com os alvarás.

A família contesta. "Nossa indignação é que os pais ligavam para a creche e eram informados de que ninguém tinha se ferido. Não veio uma perícia e logo voltou a funcionar. Não quero indenização, isso não o traz de volta. Só eu sei o que estou passando. O consolo é saber que ele era essa pessoa boa", desabafa a mãe.

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