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Urbanismo

A viagem de monsieur Agache

Mapas do primeiro plano de reforma municipal mostram uma Curitiba de grandes avenidas circulares, uma praça monumental e abrigo antiaéreo disfarçado de estacionamento

  • José Carlos Fernandes
Ao alto, desenho da Praça Tiradentes previsto pela equipe do professor Agache. A proposta era fazer do Marco Zero a grande Praça Cívica – algo como uma extensão do Centro Cívico, ainda um projeto. Praça também abrigaria a sede da prefeitura municipal e entradas subterrâneas para carros |
Ao alto, desenho da Praça Tiradentes previsto pela equipe do professor Agache. A proposta era fazer do Marco Zero a grande Praça Cívica – algo como uma extensão do Centro Cívico, ainda um projeto. Praça também abrigaria a sede da prefeitura municipal e entradas subterrâneas para carros
 
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A viagem de monsieur Agache

Diz-se a torto e direito que todo curitibano é meio urbanista. E ninguém até hoje conseguiu responder satisfatoriamente por que os nascidos nesta cidade se comportam como boleiros na hora em que o assunto são as canaletas dos antigos ônibus Expresso ou a necessidade – ou não – de mais um viaduto no antigo bairro do Capa­ne­­ma. Todo mundo tem opinião. E a defende na base do Atletiba.

Parte dessa explicação, diz-se, de­­ve estar na década de 1970, quan­­do o arquiteto e urbanista Jai­­me Lerner se tornou prefeito de Curitiba, projetando internacionalmente a capital paranaense. Mas seria pouco para justificar uma entranhada “cultura regional”. Outra hipótese, no senso co­­mum, está no ano de 1941, quando desembarcou por aqui o renomado urbanista francês Alfred Hu­­bert Donat Agache e sua equipe.

Não se sabe ao certo se gostou do município frio, úmido, forrado de paralelepípedos habitado, co­­mo se dizia, por 140 mil e poucas al­­mas. Mas é provável que tenham lhe avisado das enchentes contínuas do Rio Ivo, atazanando a vi­­da de quem vivia e trabalhava no Cen­tro; e do atraso das jardineiras, que levavam mal e má os pas­­­­sagei­ros à então distante região do Por­tão, endereço de 39 mil curitibanos, algo como 30% da população.

Três anos, 310 pranchas

Entre idas e vindas à França e ao Rio de Janeiro (onde ficava o es­­cri­­tório que o contratou, o Coim­­bra Bueno), Agache e os seus realizaram o plano que levou seu nome. Juntos, produziram em três anos nada menos do que cerca de 310 pranchas no formato A1 com detalhamentos sobre as ruas, rios e áreas verdes da cidade, tudo feito com os métodos mais rudimentares – medindo quarteirões e fa­­zen­­do desenhos. Para leigos no assunto, os mapas do Agache po­­dem não dizer muito, mas enchem os olhos.

Até o final do ano, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, o Ippuc, vai disponibilizar essas imagens para a população, tornando público, nos dizeres dos urbanistas, o projeto mais falado e menos conhecido da cidade. É curioso. Mas é verdade. “Imagino que os mapas do Agache sejam des­­­conhecidos até dos ar­­quitetos do Ippuc”, diz o economis­­ta Louri­val Peyerl, supervisor de In­­forma­ções da instituição e co­­nhecido pelo empenho com que ten­­ta fazer do Ippuc não só um es­­paço de projetos, mas de pesquisa histórica.

O próprio Lourival não esconde sua surpresa com o que descobriu ao olhar as pranchas uma a uma. Agache, por exemplo, imaginou garagens subterrâneas na Praça Ti­­radentes. É de causar espanto, mas na Curitiba de 400 automóveis da década de 1940 os congestionamentos já eram um problema, particularmente em torno do Marco Zero. A suspeita é de que a ideia tenha nascido como uma resposta a esse problema e também porque os franceses – ao contrário dos brasileiros – não admitem o uso de imensas áreas urbanas para estacionamentos. “Há muito o que in­­vestigar”, reforça Lourival, lembrando que por ora o material mais suscita perguntas do que respostas.

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