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Imagem de junho de 2019, quando Joe Biden visitou o Stonewall Inn, bar gay de Nova York. O local é significativo para a história do movimento LGBT nos EUA.
Imagem de junho de 2019, quando Joe Biden visitou o Stonewall Inn, bar gay de Nova York. O local é significativo para a história do movimento LGBT nos EUA.| Foto: Reprodução / Twitter

Em 1992, o presidente americano Bill Clinton defendia publicamente que o aborto fosse “seguro e legal”, mas “raro”. Em 2004, a então senadora Hillary Clinton afirmou que “o casamento é não só uma união, mas uma união sagrada, entre um homem e uma mulher". Em 2008, o então candidato à presidência Barack Obama deu declarações quase idênticas, defendendo que “o casamento é entre um homem e uma mulher". Mas o Partido Democrata mudou muito desde então. Se Joe Biden vencer as eleições nesta terça-feira (3), levará consigo para a Casa Branca uma plataforma muito mais radical.

Em 2012, quando era presidente, Obama declarou publicamente, pela primeira vez, seu apoio ao casamento gay. No mesmo ano, o partido removeu de seu programa a palavra “raro” no capítulo que trata do aborto. Já antes disso, os democratas começaram a retirar o espaço de seus militantes pró-vida, de forma que a defesa do aborto em qualquer circunstância, sem qualquer limite legal, se tornou a tese oficial do partido. E não é exagero: nos debates entre os pré-candidatos democratas à Presidência dos Estados Unidos, no início do ano, apenas uma pessoa defendeu a adoção de algum limite temporal para a realização do aborto - e a posição dela está longe de ser conservadora: Tulsi Gabbard afirmou que, no último trimestre de gestação o aborto deve ser proibido a não ser que haja risco de vida para a mãe. Essa era a posição mais moderada entre os 10 pré-candidatos, e Gabbard nunca passou dos 3% de intenções de voto nas primárias democratas.

Um dos exemplos da plataforma radical de Biden e do Partido Democrata veio há duas semanas, quando ele respondia perguntas de eleitores na emissora ABC. Tropeçando nas palavras, Biden declarou que até mesmo crianças de 8 anos devem ter apoio para fazerem o que se convencionou chamar transição de gênero: “A ideia de que alguém com 8 anos ou de 10 anos decida ‘Eu decidi. Eu quero ser transgênero. É isso que eu gostaria de ser. Iria fazer minha vida mais fácil’... Não deve haver nenhuma discriminação", disse ele.

Biden também se alinha com a posição extremista de seu partido sobre o aborto: apesar de, nos anos 1970, ter afirmado que a legalização do aborto (pela Suprema Corte, em 1973) foi longe demais, ele agora defende a aprovação de uma lei federal impedindo que os estados restrinjam o “direito” ao aborto. Assim, mesmo que a Suprema Corte reverta a decisão de 1973, nada mudaria na prática.

Biden, que se diz católico, costuma repetir o chavão de políticos que não querem perder o voto dos cristãos e, ao mesmo tempo, tentam conquistar os eleitores de esquerda: o de que sua fé é guia suas decisões pessoais, mas não pode influenciar suas posições como político.

Biden, entretanto, parece não compreender que o aborto não é um tema de natureza religiosa. Não é preciso acreditar na existência da alma para defender a inviolabilidade da vida humana. As próprias origens do Estado se baseiam na premissa, universalmente aceita no Ocidente, de que toda vida humana inocente deve ser protegida por lei. Assim, se o bebê em formação é uma vida humana inocente, deve ser protegida por lei.

A grande questão, portanto, é decidir se os bebês em gestação são, de fato, vidas humanas. E, para isso, é preciso recorrer à ciência. Por vezes, figuras religiosas adotaram posições surpreendentes para os padrões de hoje. Baseando-se em pensadores como Aristóteles, por exemplo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino afirmavam que o aborto na etapa inicial da gestação era errado, mas não correspondia a um assassinato porque o bebê não tinha uma alma. Para Aquino, a criança passava a ter uma alma a partir do momento em que começasse a se mover, de forma perceptível, na barriga da mãe.

Acontece que hoje, com a pesquisa genética, os aparelhos de ultrassom e outros avanços da medicina, é possível afirmar que o bebê possui um DNA próprio, distinto da mãe e do pai, desde o momento da concepção. Três semanas após a fertilização, muito antes de a mãe sentir o bebê se movimentar, ele já tem um coração batendo e uma estrutura neural básica. O bebê em gestação está vivo, é humano (com um DNA próprio) e é, obviamente, inocente. Logo, deve ter proteção legal. Além disso, o avanço da medicina também tem permitido que bebês nascidos antes dos seis meses de gestação (fase em que o aborto é permitido em muitos estados americanos) sobrevivam.

Biden também parece ignorar os riscos da chamada transição de gênero entre menores de idade. Como têm mostrado pesquisas recentes, na grande maioria dos casos, os sinais de disforia de gênero detectados em crianças desaparecem em poucos anos. Além disso, a influência do grupo e fragilidades emocionais têm levado muitas crianças e adolescentes a passar por um processo chamado "disforia de gênero de desenvolvimento rápido". Em vez de apoiar soluções com efeitos físicos e psicológicos profundos, como os tratamentos hormonais e a adoção de uma nova identidade pela criança, a experiência tem comprovado que as terapias menos radicais costumam ter um efeito melhor no longo prazo.

O plano de governo de Joe Biden, que pode se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos nesta terça-feira, traz outros pontos problemáticos. Veja a lista abaixo.

1) Impedir restrições ao aborto

Biden se nega a apoiar qualquer limite temporal para a realização de um aborto, o que, na prática, permite o extermínio de bebês que sobreviveriam se fossem submetidos a um parto. Ele defende que o Congresso aprove uma legislação federal que impediria os estados de proibir o aborto.

2) Apoiar a revogação da Emenda Hyde

Em vigor desde os anos 1970, a Emenda Hyde resulta de um compromisso dos dois lados do debate sobre o aborto, baseado em um princípio razoável: se grande parte da população considera o aborto o extermínio de vidas humanas, o Estado não deve aplicar o dinheiro do contribuinte nesses procedimentos. Biden apoia a revogação dessa Emenda.

3) Financiar abortos fora dos Estados Unidos

Biden também promete revogar a Política da Cidade do México, um compromisso criado no governo de Ronald Reagan e que impede que o governo americano financie organizações que realizem abortos fora do país. Assim, o dinheiro do contribuinte americano passaria a bancar abortos, sobretudo, em países subdesenvolvidos.

4) Punir instituições religiosas por “discriminação” contra pessoas LGBT

Em seu programa de governo, Biden afirma que vai “Acabar com o abuso de amplas exceções para discriminar”. Na prática, isso significa que ele vai reverter as regras que protegem a liberdade religiosa de instituições que mantêm uma visão tradicional sobre a família e a sexualidade. Isso pode forçar escolas e hospitais cristãos, e até mesmo igrejas, a aceitarem empregados transgêneros ou homossexuais e a promoverem políticas de “diversidade” sexual, frontalmente em desacordo com suas doutrinas religiosas.

5) Permitir que transgêneros participem das Forças Armadas

Sob o pretexto de combater a discriminação, Biden vai permitir que pessoas biologicamente do sexo masculino, com genitália masculina, permaneçam em alojamentos femininos - e vice-versa. Além disso, o percentual de pessoas transgênero com transtornos mentais é muito mais elevado do que na população em geral, o que pode ter consequências graves em um contexto militar.

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