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Estudo brasileiro reproduziu pesquisa feita na China.| Foto: Hector RETAMAL/AFP

A morte de 11 pacientes durante estudo sobre o uso da cloroquina em pacientes graves com Covid-19, em hospital de Manaus (AM), está sendo usada politicamente tanto por críticos do presidente Jair Bolsonaro quanto por seus fiéis seguidores.

Para uns, as mortes provariam que a cloroquina não seria a solução para combater a doença causada pelo novo coronavírus – ao contrário do que defende Bolsonaro, que vê na substância a verdadeira saída para diminuir o isolamento social e suas consequências. Por outro lado, para os “bolsonaristas”, o uso de altas doses de cloroquina em 7 desses 11 pacientes mostraria um “plano da esquerda” para tentar desacreditar a cloroquina e Bolsonaro durante a crise sanitária. Algumas mensagens nas redes sociais, sem qualquer prova, sugerem que os pesquisadores teriam “matado de propósito” só para “desautorizar a campanha pró-cloroquina de Bolsonaro”.

O responsável pelo estudo, o médico infectologista Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, pesquisador há 20 anos, vinculado a duas fundações reconhecidas internacionalmente pelos estudos sobre malária, a Oswaldo Cruz e a Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, critica o uso político da sua pesquisa.

Em entrevista para a Gazeta do Povo (leia abaixo), ele afirma que os resultados preliminares não respondem de forma definitiva se a cloroquina é eficaz ou não no tratamento da Covid-19, apenas que a substância é tóxica se utilizada em altas doses – o próprio pesquisador continua um estudo com cloroquina em pacientes em fase inicial da doença, na dose indicada pelo Ministério da Saúde.

Ao mesmo tempo, ele confirma ter usado cloroquina e não a hidroxicloroquina (mais fácil de ser metabolizada pelo organismo), como adotou o estudo chinês que ele quis reproduzir, porque, segundo ele, “a curto prazo cloroquina e hidroxicloroquina não apresentam toxicidade cardíaca; a cloroquina, somente em longo prazo, apresenta toxicidade ocular”.

A Gazeta do Povo procurou diversas fontes que criticam o estudo realizado para tentar averiguar se há, de fato, algum erro no método científico adotado. Algumas dessas fontes questionam a conduta dos responsáveis pela pesquisa, sobretudo as altas doses, mas não quiseram ter seus nomes divulgados e nem mostraram provas.

O jornal está aberto para fazer outras entrevistas e matérias sobre o assunto, para contestar os dados abaixo ou retificá-los, desde que devidamente amparadas por evidências. Se quiser contribuir para esse debate, com informações fundamentadas, envie um e-mail para: vidaecidadania@gazetadopovo.com.br.

Leia a entrevista:

Como o senhor avalia o cenário atual da pandemia e as críticas em relação à sua pesquisa?

Marcus de Lacerda: Aqui em Amazonas já está saturando, poucos leitos de UTI e a população morrendo, e os casos aumentando muito, isso é o que realmente está importante para a gente no momento. É um cenário único, nunca visto, e ainda mais fazer pesquisa num momento em que todo mundo critica o que se está fazendo, sem ser cientista. Na minha opinião, isso vai acabar bloqueando toda a pesquisa com Covid no Brasil.

Dificilmente os pesquisadores vão querer se meter na pesquisa de uma doença que está matando tanto. Por exemplo, veja a nossa pesquisa. Nós tínhamos 81 pessoas, dessas 11 morreram na nossa primeira análise. A interpretação das pessoas é que nós estamos dizendo que elas morreram porque usaram cloroquina, quando na verdade as pessoas que vão para a UTI com Covid elas estão gravíssimas, elas morrem mesmo. Eu estou trabalhando com uma doença que mata. A doença mata.

Então, alguns jornalistas estão interpretando, porque querem interpretar dessa forma, que as mortes que nós observamos se deveram a uma alta dose de cloroquina. Quando quem lê o artigo sabe que não foi absolutamente nada disso.

O senhor poderia confirmar o que o senhor usou?

Marcus de Lacerda: Veja bem, toda a literatura foi revista. A gente tem desde os primeiros estudos que foram feitos em laboratório – e aí nos estudos em laboratório a dose para matar o vírus é ainda maior do que essa que precisaria, só que essa dose não pode ser feita em seres humanos. Então, de toda a literatura, os chineses, o consenso deles, eles colocam a dosagem de 500 mg de 12 em 12 horas por 10 dias. Essa foi a dosagem que nós usamos só que como a gente tem um comprimido em uma apresentação diferente e pacientes mais gordos, essa dose de 600 mg de 12 em 12 horas ela equivale a essa dose chinesa que foi usada e que está hoje, inclusive, no consenso chinês.

Então, não fui eu que inventei essa dose.

Aumentou a dose em relação à China pelo perfil dos pacientes?

Marcus de Lacerda: A maior parte dos meus pacientes são obesos, eu não vou usar a mesma dose. E a apresentação do nosso comprimido é diferente. Os chineses têm hidroxicloroquina de 250 mg, o meu comprimido é de 150 mg.

*NOTA DA EDITORA: Após a entrevista, o médico retificou a informação afirmando ter usado uma substância diferente (cloroquina) da adotada no estudo chinês (Hidroxicloroquina). Segundo ele, “a curto prazo cloroquina e Hidroxicloroquina não apresentam diferença em toxicidade cardíaca. A cloroquina, somente longo prazo, apresenta toxicidade ocular”. Perguntado, por meio de sua assessoria de imprensa, até agora não apresentou uma pesquisa que prove essa diferença de toxicidade.

Alguns médicos dizem que o máximo de cloroquina que se tem usado para malária, para que haja a metabolização da substância, seriam 25 mg por quilo (de acordo com o peso do paciente) em 24 horas, não passando de 1.500 mg em três dias.

Marcus de Lacerda: Mas isso não é malária. É óbvio... Eu trato malária há 20 anos. A dose para a malária não é essa, nós estamos falando de uma outra doença. Não posso pegar a dose do remédio para malária.

Independentemente de ser usado para malária ou Covid, não seria uma dose muito grande de cloroquina, insegura?

Marcus de Lacerda: É preciso mostrar que isso seria inseguro para o Covid, são coisas muito diferentes. Nós estamos falando de uma doença diferente de malária. O que a China fez, que foi o primeiro país que usou a cloroquina para Covid, usou essa dose.

Algumas pessoas estão chamando essa dose de criminosa.

Marcus de Lacerda: Mas daí os chineses é que são criminosos, eles é que começaram a usar essa dose. Há vários países no mundo que estão usando essa dose alta. Você está dizendo que essa dose alta, de fato, ela é tóxica.

Só os chineses, se não estou enganada, estão utilizando uma dose dessa quantidade. O Food and Drug Administration (FDA, a agência de fiscalização sanitária nos Estados Unidos), por exemplo, recomenda uma dose menor.

Marcus de Lacerda: Mas o braço [a dose] que o FDA está recomendando é o nosso segundo braço na pesquisa. Aliás, eu aconselhei o Ministério da Saúde a usar o braço mais baixo. Acontece que nós precisávamos comparar as duas doses, porque eventualmente a dose mais alta ela poderia ser mais eficaz contra o coronavírus.

Isso não foi usado de rotina, isso foi usado em um ambiente de pesquisa. As pessoas tinham o eletrocardiograma monitorado todo dia. Há 20 anos eu faço pesquisa para malária e a gente faz eletrocardiograma para acompanhar o uso de cloroquina e de outros antimaláricos... A gente tem muita experiência com isso, ninguém começou a trabalhar com cloroquina um dia desses.

Não é esse o questionamento.

Marcus de Lacerda: O problema é o seguinte: as pessoas estão dizendo que essa dose é uma dose criminosa. Então tem de incriminar os chineses porque eles têm no consenso deles uma dose que é mais alta sim que a dose para malária e a gente não pode então no início assumir qual é a dose que tem o melhor efeito para o Covid.

Então precisava fazer uma pesquisa onde eu colocava uma dose mais alta, que os chineses usam, e a dose mais baixa que o FDA aprovou. A pesquisa começou a ser feita, ao primeiro sinal que estava tendo mais toxicidade, o estudo foi interrompido nesse grupo da dose alta. Todos os preceitos éticos foram seguidos.

Eu tenho muito cuidado antes de dizer que o estudo de outra pessoa é criminoso.

O que se está questionando, na verdade, é que qualquer substância dada em excesso traz problemas, uma aspirina, por exemplo.

Marcus de Lacerda: Mas essas pessoas que dizem isso têm trabalhos publicados em revistas? É importante a gente ver outros experts.

Ninguém está usando uma dose tão alta.

Marcus de Lacerda: Quando você diz que ninguém está usando uma dose tão alta você está tirando os chineses, que começaram a pesquisa?

Francamente, o que irrita é que uma pessoa que nunca publicou um trabalho sobre a cloroquina emita opiniões. Eu não emito opiniões, nenhuma. Eu estou mostrando para o mundo inteiro os dados que nós geramos aqui. E esses dados mostram que, de fato, a dose que a China usou é uma dose muito tóxica, ela deve parar, essa é a mensagem. E a dose mais baixa, ela pode ser continuada. Se ela funciona ou não para Covid, essa é uma outra questão.

O que eu gostaria é que as pessoas olhassem o artigo e vissem o seguinte: os primeiros trabalhos mostraram que no quinto dia não havia mais vírus na secreção respiratória. Nós ainda temos 75% dos doentes com vírus na secreção respiratória. Então, assim, provavelmente, os chineses nos enganaram e, provavelmente, o grupo francês que publicou também nos enganou porque ainda continua tendo o vírus mesmo em quem está usando a cloroquina.

O trabalho é feito em um número pequeno de pacientes justamente para verificar quem é que fez um trabalho que não tem valor. Então essa informação nossa é uma informação muito preciosa, o mundo não precisa mais usar altas doses de cloroquina.

Você está dizendo que ninguém usa dose mais alta, mas acabou de sair ontem um artigo, se você for ver, eles estão usando uma alta dose de cloroquina por três semanas.

* NOTA DA EDITORA: A Gazeta do Povo não achou esse estudo. Procurada, a assessoria de imprensa enviou estudo com altas doses de hidroxicloroquina, não cloroquina. Se algum leitor conhecer pesquisas com altas doses de cloroquina no mundo, por gentileza, envie para nós: vidaecidadania@gazetadopovo.com.br.

Quanto eles estão usando nesse estudo?

Marcus de Lacerda: Não sou apenas eu que está testando doses altas. Eu comecei testando doses altas, e, ao menor sinal de que ela foi tóxica, o meu comitê de segurança e acompanhamento ele interrompeu esse grupo porque não era seguro, ponto final.

Então, as pessoas estão dizendo, sem ter lido o artigo, que nós usamos uma dose alta de propósito para poder matar pessoas – e não há nenhuma evidência de que essa dose alta matou pessoas – mas elas estão dizendo que nós estamos tentando incriminar a cloroquina. Olha, a visão minha é justamente o contrário: nós estamos mostrando que a dose que o Brasil está usando é uma dose segura para o doente grave com o Covid.

A dose alta já não era conhecida antes como tóxica?

Marcus de Lacerda: Não. Não existe um único trabalho em doentes graves com o Covid. Eu não sei quem tem um trabalho anterior que mostre que a cloroquina funciona ou não funciona, é tóxica ou não é tóxica, em pacientes graves.

O que as pessoas estão dizendo é que, com Covid ou sem Covid, qualquer pessoa que tome essa dose alta de cloroquina vai ter complicações.

Marcus de Lacerda: Onde estão esses artigos dizendo que essa dose matou muita gente. Eu preciso ter isso, onde está isso? Porque nós revisamos tudo.

Dos 11 que faleceram, três não tinham Covid, pelo paper de vocês.

Marcus de Lacerda: Vocês estão vendo a análise preliminar. No artigo que será enviado posteriormente terá mais dados, precisa esperar sair na revista para ter os dados completos. Tem 75% dos doentes com confirmação de Covid. E aí, os nossos pares que vão revisar a pesquisa vão ver se isso é um grande impedimento para a publicação, porque eu tenho 75% das pessoas com Covid confirmadas e eu tenho outras pessoas que não estão confirmadas. Mas, para um médico, que vê Covid, quando eu olho para a radiografia e para o quadro clínico, eu posso identificar que aquilo é Covid.

Então eu não sei se isso pode desmoralizar o trabalho que foi feito.

Entendo. De fato, os testes para comprovar Covid estão atrasando.

Marcus de Lacerda: Mas é muito importante que esses estudos que você diz que suas fontes estão citando, de que a dose não pode subir acima de um determinado valor, a gente conheça isso. É bom mandar isso para a gente porque isso não foi encontrado em qualquer lugar.

Deixa eu te falar uma coisa: a cloroquina, dependendo da doença, ela tem dosagens muito diferentes. Vou te dar um exemplo, em lúpus, em artrite reumatoide ela é usada em uma dose que chega a 400, 500 mg por dia. A cloroquina é uma droga que demora pelo menos 30 dias para ser depurada. Então a gente está falando de uma pessoa que usa cronicamente a cloroquina a vida inteira em uma dose que é tóxica e igualmente eficaz. O Covid é uma doença nova, os chineses começaram a usar uma dose que eu reproduzi no meu estudo. Eu identifiquei que essa dose nos nossos pacientes aqui foi uma dose tóxica, em função disso, o comitê de segurança interrompeu este uso. Se outras pessoas estão usando a dose alta, a sugestão do meu trabalho é que não usem mais.

E a minha sugestão também é que a outra dose, a baixa, ela não é tóxica, mas ela parece não funcionar. E aí, outros trabalhos no Brasil e no mundo, vão ter de tentar mostrar esses dados porque a gente está hoje diante dos únicos dados de cloroquina para Covid e opiniões. Então as pessoas precisam ter os seus próprios dados para a gente começar a trocar as experiências para a Covid-19.

Vocês estão fazendo pesquisa também para pessoas na fase inicial da doença, com a dose mais baixa?

Marcus de Lacerda: A gente está fazendo porque há uma pergunta da sociedade em relação a isso. Mostrar se funciona ou não, na fase inicial, e é isso que estou tentando fazer.

Corrija-me se eu estiver errada. A cloroquina ela ataca o vírus, não regenera tecidos do pulmão e de outros órgãos. As pessoas que têm usado a cloroquina nas fases iniciais...

Marcus de Lacerda: Não existe um único trabalho no mundo sobre pessoas que sobreviveram ao Covid e que a gente saiba qual é o desfecho dessas pessoas.

Sim, a minha pergunta é apenas confirmar como age o medicamento: ele ataca o vírus, mas não regenera o que se perdeu. Em uma fase mais grave...

Marcus de Lacerda: Olha, essa medicação, a primeira vez que ela foi usada em seres humanos no estudo de Marselha, que foi o estudo que motivou o presidente americano e o brasileiro a falarem bem da droga...  Esse estudo mostrava que no 5º dia de uso, a droga junto com a azitromicina, não tinha mais vírus na secreção respiratória [de pacientes]. Essa informação, nos nossos 81 pacientes, não foi verdadeira. Então, na dose que nós usamos, nem na dose alta, nem na dose baixa, ela não mata vírus. Essa é uma conclusão do trabalho que as pessoas não estão apontando.

Mas isso é na fase final, quando o vírus já atingiu muitas células. Na fase inicial...

Marcus de Lacerda: Por que a medicação que age contra o vírus mataria ele em uma fase inicial e não em uma fase final? A ação contra o vírus é a mesma.

Pela maior quantidade de vírus no corpo com o passar do tempo.

Marcus de Lacerda: Ah, entendi. Bom, aí nós também não temos muita informação a esse respeito.

Olha, a gente está muito perdido porque os trabalhos todos eles estão muito diferentes. O nosso trabalho de 81 pessoas ele é um trabalho com pacientes graves. Algumas coisas não podem ser comparadas com os outros trabalhos, mas uma droga que tenha ação contra o vírus ela tende de alguma forma a baixar a quantidade de vírus e isso não aconteceu pelos nossos dados.

Nós vamos avaliar isso ainda em um doente não grave, é uma hipótese ainda que tem de ser testada. Tudo isso é uma grande hipótese. A primeira pessoa que mostrar os dados, vão ser muito bem-vindos os dados dessa pessoa. O problema é que nós estamos agora com muita opinião e hipóteses, faltam dados.

Tem muita pesquisa preliminar, não revisada por pares.

Marcus de Lacerda: Mas aí, o pesquisador que tem dados deve ter o direito de mostrar esses dados – sem que as pessoas que não têm dados e só opinião estejam criticando. Isso é complicado, é uma situação desigual.

Por exemplo, você está me dizendo que conversou com médicos que não têm dados nenhum de cloroquina que dizem que as doses usadas são altamente tóxicas, não estão recomendadas.

Eu trabalho há 20 anos com malária, sou referência em malária no mundo inteiro, e não conheço uma publicação dessas pessoas com malária. A gente está entrando em um jogo complicado de pessoas que não entendem da droga, que não entendem de malária e que, de repente, se transformaram em grandes autoridades no tema.

Eu só queria que as pessoas entendam que eu não usei uma dose alta, eu apenas copiei um consenso chinês, porque a China foi o primeiro país do mundo a ter casos de Covid e o primeiro país do mundo a usar a cloroquina.

O uso de altas doses foi porque os estudos in vitro, em laboratório mostraram que a cloroquina só mata o vírus em uma concentração muito alta. Então os chineses usaram em uma concentração muito alta. Se você olhar o primeiro trabalho in vitro que foi feito, você vai ver que só se mata o vírus em doses muito altas. Essas doses, não consegue nem chegar a fazer em seres humanos. Agora, essa dose que os chineses usaram ninguém mostrou, nem os chineses, nem ninguém, que essa dose é tóxica. Eu fui a primeira pessoa que mostrei em Covid que essa dose alta é tóxica.

As pessoas não estão entendendo que estou dando uma informação que é muito útil: parem de usar a dose alta que os chineses usaram. Esta droga, nesta dose, é tóxica. O que todo mundo está dizendo que já sabia, não se sabia, este é o primeiro dado do mundo. Infelizmente, morando em Manaus, sendo daqui, tendo criado os meus filhos aqui, eu não entendo como as pessoas não conseguem compreender que este é o primeiro dado de segurança sobre cloroquina e qual é a necessidade dele.

Eu estou dizendo ao mundo: não usem a dose alta dos chineses. Eu não estou dizendo não usem a dose baixa da doutora Nise Yamagushi, de Jair Bolsonaro. Eu apenas estou colocando cautela em doses altas porque várias pessoas do mundo estão usando.

Entendo a preocupação.

Marcus de Lacerda: A gente precisa de cautela na hora de passar essa informação porque como o tema virou político, as pessoas estão lendo o trabalho com um olhar de quem está querendo criticar. O que é bom, a ciência precisa ser criticada. Agora, não há como eu discordar dos médicos que você entrevistou que a dose alta é tóxica. Isso eu concluí da pesquisa. Mas eles têm a opinião, eu tenho o dado, concluindo que essa dose é tóxica.

Toda a nossa equipe tem todos os artigos publicados sobre cloroquina e inclusive sobre o Covid. Ninguém começou a fazer pesquisa sem fazer uma revisão bibliográfica cautelosa.

A gente não está dizendo que é eficaz ou que não é, mas ela é segura, em dose baixa pode ser usada. Até serem publicados outros trabalhos, a dose baixa é segura. Mas o jornalismo está se concentrando na dose alta, a dose alta foi começada e foi interrompida porque não era segura.

O problema desse assunto é que ele está muito politizado.

Marcus de Lacerda: A gente está falando a mesma coisa, mas interpretando de formas diferentes. Os médicos que você entrevistou que dizem que a dose alta é tóxica está certo e eu também estou certo, eu mostrei que a dose tóxica não pode ser feita. Agora, dizerem que eu escolhi a dose tóxica para provar que era tóxica, não foi isso, eu peguei apenas o consenso chinês.

A diferença é que eles dizem que não precisava de pesquisa para saber que aquela quantidade era tóxica.

Marcus de Lacerda: Hoje, todos me dizem que já sabiam que essa dose não funcionava para pacientes graves, mas onde está essa informação? Onde vocês leram que para forma grave não funciona? Eu não li nenhum estudo nesse sentido. O estudo de Manaus é o primeiro estudo que foi feito com formas graves e aí eu estou lidando com uma doença grave, que mata, as pessoas estão morrendo aqui porque elas estão com uma doença grave, elas estão na UTI. Agora, quando o jornalista de uma mídia não confiável começa a dizer, como eu li hoje, “um estudo macabro com cloroquina matou 11 pessoas para provar que ela não funciona”...

Isso está circulando. Para quem não conhece o método científico e lê uma coisa dessa, voltar atrás depois é muito difícil, depois que alguém escreve isso na rede social. Eu tenho história de 20 anos de fazer pesquisa séria, eu sou respeitado internacionalmente, eu não posso ter a minha imagem maculada porque estou tentando ajudar as pessoas em uma crise que ninguém nunca vivenciou.

Todos os resultados que eu tenho são discutidos com um comitê de segurança internacional, não são coisas da minha cabeça. Eu tenho um comitê de segurança que diariamente olhava para os dados, porque eu sabia que isso era uma coisa muito sensível. Trabalhar com doentes internados na UTI, doentes graves, é uma coisa muito complicada.

Tenho 80 pessoas coletando dados em tempo real, de eletrocardiograma, de exames laboratoriais, de sinais vitais dos pacientes... Eu monitoro esses pacientes 24 horas por dia. É muito trabalho e eu não posso ver tudo isso enxovalhado em uma mídia que hoje tem uma repercussão muito grande. Outra coisa, eu não sou um pesquisador independente, eu tenho duas instituições por trás de mim, uma delas é a Fundação Oswaldo Cruz que tem uma reputação ilibada no país. E a Fundação de Medicina Tropical do Amazonas é a fundação que testou praticamente todos os antimaláricos que usam no Brasil, à qual eu pertenço. Então é hora de começar a olhar quem está fazendo o quê para a gente não correr o risco de cometer injustiças, porque isso depois dá muito trabalho para voltar atrás.

Correção

Na primeira versão desta matéria, havia a informação equivocada que "o máximo de cloroquina que se tem usado para malária, para que haja a metabolização da substância, seriam 30 mg por peso em 24 horas. Ou seja, uma pessoa que tem 70 quilos usaria no máximo 210 mg por dia". Na verdade, além de a conta estar errada (30 mg x 70 seriam 2.100 mg e não 210 mg), a quantidade indicada para seres humanos é de, no máximo, para casos de malária, 25 mg por quilo (de acordo com o peso do paciente) em 24 horas, não podendo ultrapassar 600 mg por dia; além disso, segundo a bula do remédio, não se pode ingerir mais de 1.500 mg no decorrer de três dias.

Corrigido em 19/04/2020 às 19:42
Conteúdo editado por:Fernanda Leitoles
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