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Netinha (segunda à esquerda), veterana de 82 anos é a mais velha da trupe: missão cumprida dentro e fora do palco |
Netinha (segunda à esquerda), veterana de 82 anos é a mais velha da trupe: missão cumprida dentro e fora do palco| Foto:

Bom remédio

7 benefícios do teatro:

- Melhora a memorização

- Respiração facilitada

- Mais autonomia

- Maior autoestima

- Voz ativa na família e entre amigos

- Conquista de espaço junto ao grupo

- Disciplina, que afasta risco de depressão

Autoestima

Teatro é indicado como terapia

O teatro, muitas vezes praticado sob indicação médica, transforma-se em um instrumento de libertação. "Vários atores foram enviados por médicos. Só que eu nunca quis fazer trabalho terapêutico, mas sim artístico. Nunca fizemos trabalho de velhinho para velhinho ver, mas sim de velhinhos para a comunidade, com toda a performance do teatro. Fizemos trabalhos de peso, com temporadas de uma semana no Teatro Ópera, com sucesso", relata o produtor teatral Alfredo Mourão. Ele conta o caso de um senhor que não sabia ler e, no entanto, era o que fazia uma das melhores apresentações de texto. Mourão lembra que o idoso superou a dificuldade com a ajuda da família. "Eles tomavam o texto e ele assimilou. Só fui saber que ele não sabia ler depois, porque me contou", diz.

Na Universidade Aberta para a Terceira Idade, em Ponta Grossa, (Uati-UEPG) dez senhoras entre 52 e 82 anos vestem-se de colegiais e agem como se estivessem em uma sala de aula onde inúmeros absurdos acontecem. Não, elas não enlouqueceram. Estão em um palco, onde o teatro transformou mulheres comuns em atrizes, tornando-as mais ativas e enchendo suas vidas de benefícios, todos conquistados por meio do exercício das artes cênicas.

O que está acontecendo com as alunas da Universidade Aberta é um exemplo do que a arte pode fazer para melhorar a vida de quem já passou dos 60 anos. Durante a aprendizagem artística muitos saem de um processo depressivo com a ajuda do trabalho com o texto, o autor e os personagens. Os exercícios físicos, vocais e mentais – com estímulo da memória e da criatividade – eliminam até o uso de alguns remédios. "Muitas tinham vergonha até de falar. Graças ao teatro, as falas e opiniões se projetam na sala de aula e a atitude extrapola na família. Elas têm argumentos e pontos de vista que agora sabem como expor", observa a coordenadora da Uati-UEPG, Rita de Cássia Oliveira. O resultado são mulheres mais satisfeitas pessoalmente, que conquistam voz ativa dentro de casa e junto às colegas. "Lá no palco elas se transformam, saem de dentro delas e dão voz aos personagens", conta.

De acordo com a psicóloga gerontóloga Laura Machado, consultora do prêmio Talentos da Maturidade, do Banco Santander, a arte tem a função de organizar e estruturar o psiquismo do indivíduo, seja qual for a idade – o que ocorre especialmente com as crianças. Muitas vezes, o idoso perdeu a prática de estruturar emoções através da expressão artística. "O que ocorre é que as pessoas, quando se aposentam e entram na terceira idade, vêm de inúmeros bloqueios adquiridos ao longo da vida, e se redescobrem através da arte. Desbloqueando suas emoções e colocando isso para fora, você está se reestruturando", explica Laura. "Na terceira idade, a arte volta a ter essa função de elaboração das emoções. Quando o idoso representa ou pinta, está na verdade se reelaborando, colocando para fora uma série de emoções que ficaram represadas", explica. A prática traz a superação de bloqueios emocionais sem que a pessoa perceba isso diretamente.

A explicação teórica de Laura Machado pode ser vista na prática dos grupos teatrais para a terceira idade. "Muitos idosos que entram no teatro têm alguma coisa oculta para resolver. Alguns têm uma vontade lá do passado, que não realizaram porque a família não deixou ou porque casaram. Eles querem fechar um ciclo", aponta o produtor teatral Alfredo Mourão, que mantém um grupo com idosos em Ponta Grossa. É assim que eles superam traumas e antigos bloqueios psicológicos. "Ninguém vai com o problema definido. Eles estão em busca de um espaço e acabam se encontrando, extravasando. Botam para fora uma coisa que nem imaginavam que colocariam", revela.

"Na realidade, o teatro funciona como terapia para todos nós. No palco, é permitido que você viva outras vidas, fale o que queria falar e não tinha coragem", diz Nelson Silva Júnior, professor de teatro e diretor da peça estrelada pelo grupo da Uati-UEPG. Em Bons Tempos, as senhoras vivenciam novamente diversas situações que já presenciaram na vida real. "Estamos construindo um novo modelo de velhice, sem os conceitos de doença e alienação. Com a mente sadia e o físico saudável, elas conquistam autonomia e a alegria floresce normalmente", diz a coordenadora Rita de Cássia.

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