
Com dinheiro e poder, narcotraficantes passaram a recrutar campesinos paraguaios para engrossar o cultivo de maconha. A droga, que tem como principal destino o mercado brasileiro, está sendo plantada cada vez mais perto da fronteira entre os dois países. A Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad) identificou plantio de maconha em um assentamento situado a apenas 120 quilômetros de Foz do Iguaçu, na localidade de Itakyry, e outro próximo a uma área de sem-terra no departamento (divisão administrativa) de San Pedro, região Norte.
Para conter a escalada do tráfico, agentes da Senad deflagaram a Operação Nova Aliança II, com apoio da Polícia Federal (PF) brasileira. Ontem, em uma só ação, os policiais destruíram um hectare de maconha em uma propriedade do município de Pedro Juan Caballero, fronteira com Ponta Porã (MS). A área é suficiente para produzir três toneladas da droga.
O comandante das Forças Especiais da Senad, Oscar Chamorro, diz que a intenção do governo em erradicar as lavouras de maconha é quebrar o ciclo de produção. "Buscamos quebrar o ciclo de plantio para afetar economicamente os produtores", afirma.
Desde o início do ano o governo paraguaio vem realizando operações em toda parte do país para acabar com as plantações. Em quatro dias da Operação Nova Aliança II, iniciada no último dia 12, foram destruídos 146 hectares somente na região de Capitão Bado, fronteira com Coronel Sapucaia (MS). Na ação de ontem, os agentes fizeram um sobrevoo de helicóptero e identificaram a área de um hectare em uma clareira em meio à mata, a 26 quilômetros de Pedro Juan Caballero. Dois policiais brasileiros estiveram no local na condição de observadores, mas a corporação também vem participando da operação com apoio logístico e de recursos.
Camponeses
A polícia sabe que alguns pequenos agricultores estão envolvidos com o narcotráfico. É comum encontrar donos de propriedades com até 20 hectares plantando maconha. A maior parte não recebe assistência do governo e passa necessidade, apesar de possuir terra.
O bispo de San Pedro, Adalberto Martinez Flores, diz que os camponeses plantam maconha como opção para superar a pobreza. Sucessor do presidente Fernando Lugo, que respondia pela diocese antes de ser eleito, Flores atua em uma das regiões mais carentes do Paraguai. Na opinião dele, é preciso oferecer assistência aos sem-terra assentados porque eles sofrem com a falta de recursos de água a escolas, passando por centros de saúde. "Esse abandono do Estado em certas zonas do país faz com que se proliferem os cultivos ilegais", diz.
Conforme investigações da polícia paraguaia, na área de Itakyry, San Alberto, Minga Porá, e no departamento de Canindeyú, os camponeses envolvidos no narcotráfico estão radicados em assentamentos voltados ao cultivo de carvão vegetal. A droga chega ao lado brasileiro escondida em meio a sacas de carvão ou escondida em cargas de madeira. Os financiadores da operação seriam brasileiros que atuam em parceria com os paraguaios.
O ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, coordenador das operações antinarcotráfico, diz que camponeses e indígenas são utilizados para cuidar das plantações, mas as organizações campesinas não se beneficiam do dinheiro do narcotráfico. Para Filizzola, o combate ao narcotráfico é um dos temas prioritários do governo paraguaio porque o país se converteu em um dos principais produtores de maconha e rota para outros tipos de drogas. "Este ano já destruímos o equivalente a US$ 13 milhões em maconha", diz.
Conforme levantamento da Senad, há pelo menos 5 mil hectares de maconha cultivada no Paraguai, apesar de o próprio Ministério do Interior e a imprensa já terem divulgado a existência de 20 mil hectares.








